Israel captura Castelo de Beaufort no sul do Líbano em avanço contra Hezbollah
Tropas israelenses capturam neste domingo (31) o Castelo de Beaufort e a cordilheira ao redor, no sul do Líbano, em plena vigência de cessar-fogo. A operação mira posições do Hezbollah após uma das jornadas mais intensas de disparos contra o norte de Israel desde abril.
Fortaleza medieval vira epicentro de nova fase do conflito
O Exército de Israel anuncia o controle da fortaleza de 900 anos e da cadeia de colinas que domina o vale de Wadi al-Saluki, uma das áreas mais cobiçadas do fronte norte. O castelo, construído no século 12, sempre ocupa lugar central nas disputas pela fronteira entre Israel e Líbano por oferecer visão ampla da região e dos acessos ao interior libanês.
A tomada do terreno ocorre pouco mais de seis semanas depois do anúncio de um cessar-fogo informal, negociado para conter a escalada paralela à guerra em Gaza. Na prática, o pacto já mostra desgaste desde o fim de abril, quando ataques de retaliação se tornam mais frequentes. A ofensiva deste fim de semana expõe o limite desse arranjo frágil.
Israel afirma que o objetivo imediato é afastar células do Hezbollah que usam a cordilheira para lançar foguetes e mísseis guiados contra cidades e kibutzim no norte israelense. A localização elevada permite esconder lançadores, monitorar movimentos militares e acionar ataques em poucos minutos, antes de uma resposta aérea. A avaliação em Tel Aviv é que, enquanto o grupo mantiver plataformas nessa região, qualquer cessar-fogo permanece provisório.
Resposta a disparos intensos e acusações de “terra arrasada”
A operação segue um sábado (30) de ataques que autoridades israelenses classificam como um dos dias mais pesados desde o início do cessar-fogo de abril. O Hezbollah dispara dezenas de foguetes e projéteis contra o norte de Israel ao longo de várias horas, segundo o Exército, o que força o fechamento de escolas e a imposição de novas restrições de circulação em cidades fronteiriças.
Com a captura de Beaufort, Israel tenta sinalizar que não aceita uma “normalização” de ataques de baixa intensidade. Militares descrevem a ação como estratégica e “cirúrgica”, voltada a “enfraquecer terroristas e sua infraestrutura na região, estabelecida sob orientação iraniana”. O Hezbollah é o principal aliado de Teerã no Levante e mantém arsenal estimado em dezenas de milhares de foguetes de diferentes alcances.
No Líbano, a leitura é oposta. O primeiro-ministro acusa Israel de adotar uma “política de terra arrasada” no sul do país, à medida que a ofensiva terrestre se aprofunda por áreas rurais e povoados próximos à fronteira. Para o governo libanês, operações sucessivas em faixas de poucos quilômetros levam ao esvaziamento de vilarejos, ampliam a destruição de infraestrutura e empurram ainda mais famílias para o deslocamento interno.
O discurso ecoa preocupações da comunidade internacional com o impacto da ofensiva sobre civis. Organismos humanitários relatam dificuldade crescente de acesso a regiões do sul, onde estradas são danificadas por bombardeios e onde antigos campos minados, remanescentes de conflitos anteriores, voltam a representar risco. Em muitos trechos, cada novo avanço militar redesenha, na prática, zonas de exclusão para moradores.
Equilíbrio militar e risco de escalada regional
A captura de Beaufort altera o cálculo militar de curto prazo na fronteira. Com o domínio das alturas, Israel reduz a surpresa dos disparos do Hezbollah e ganha vantagem na observação de movimentos a vários quilômetros de distância. Isso facilita a identificação de comboios, depósitos improvisados e rotas usadas para deslocar combatentes.
O movimento, porém, tem custo político. O Hezbollah se alimenta de símbolos, e a perda de uma posição histórica tende a exigir demonstração de força. Analistas na região avaliam que o grupo pode responder com ataques mais concentrados, inclusive com mísseis de maior alcance, para mostrar que mantém capacidade de pressão sobre cidades mais densas no interior de Israel.
O avanço israelense também coloca pressão adicional sobre as negociações indiretas em andamento desde abril, que tentam consolidar um arranjo mais estável na fronteira norte. Cada nova frente aberta em solo libanês reduz o espaço de manobra de mediadores e dificulta compromissos verificáveis, como a retirada gradual de forças ou a criação de zonas tampão sob supervisão internacional.
Dentro de Israel, a operação alimenta o debate sobre segurança dos cerca de 60 mil moradores deslocados do norte desde o início da escalada com o Hezbollah, em outubro do ano anterior. Muitos só consideram voltar para cidades e comunidades rurais quando houver garantia de que o grupo não terá mais linha de tiro direta sobre casas, escolas e estradas. O controle de Beaufort é apresentado pelo governo como um passo nessa direção.
Próximos movimentos no tabuleiro do sul do Líbano
No curto prazo, a atenção se volta à capacidade de Israel de manter posições na cordilheira sem se enredar em uma presença prolongada em solo libanês. A experiência de ocupações anteriores, encerradas oficialmente em 2000, ainda pesa sobre a opinião pública israelense e sobre o cálculo dos comandantes. Cada quilômetro adicional além da fronteira aumenta o risco de emboscadas e de custos políticos internos.
No campo diplomático, cresce a pressão para que o cessar-fogo anunciado há mais de seis semanas ganhe contornos claros, com prazos, mecanismos de verificação e limites de ação para ambos os lados. Sem esse desenho, a tendência é que episódios como a captura de Beaufort se repitam, sempre justificados como resposta a provocações anteriores.
O castelo de pedra erguido no século 12 volta, assim, ao centro de uma disputa que ultrapassa a fronteira entre dois países e atinge o equilíbrio de poder na região. A pergunta que permanece, após mais um avanço em terreno libanês, é se as próximas movimentações serão feitas no campo de batalha ou na mesa de negociação.
