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Trump endurece texto de acordo com Irã e prolonga negociação

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, devolve em 31 de maio de 2026 o rascunho do acordo com o Irã com alterações e trava a conclusão das negociações. Ele exige linguagem mais dura sobre o programa nuclear iraniano e questiona o formato de alívio financeiro previsto para Teerã.

Um acordo que parecia pronto volta à mesa

O texto retorna às equipes de negociação uma semana depois de Trump ter dito publicamente que o acordo estava “praticamente finalizado” e que o fim da guerra era iminente. A revisão, confirmada por autoridades americanas e iranianas, expõe a distância entre o discurso de vitória rápida e a realidade de um processo que segue cheio de obstáculos técnicos e políticos.

Assessores de Trump afirmam que o presidente se mostra obcecado em evitar qualquer semelhança com o acordo nuclear firmado em 2015, durante o governo Barack Obama, que ele descreve há anos como “fraco” e “mal negociado”. A nova versão do texto, segundo fontes que acompanham as conversas, exige compromissos mais explícitos e verificáveis do Irã em relação ao enriquecimento de urânio e à reabertura do Estreito de Ormuz ao tráfego de navios comerciais.

Pressão sobre compromissos nucleares e dinheiro

As mudanças exatas pedidas pela Casa Branca não vêm a público em detalhes, mas negociadores envolvidos relatam uma mesma linha de orientação. “O presidente quer linguagem que não deixe margem para ambiguidade quanto aos limites do programa nuclear iraniano”, diz um alto funcionário americano, sob condição de anonimato. A ordem inclui referência explícita ao estoque de urânio altamente enriquecido do país e a mecanismos de inspeção considerados mais intrusivos por Teerã.

Trump também endurece o tom sobre a reabertura do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo. De acordo com uma autoridade da área de defesa, o presidente quer que o compromisso iraniano de liberar o tráfego seja descrito como “pleno, imediato e verificável”, com prazos definidos em dias, e não em semanas ou meses. Em paralelo, ele tenta blindar o acordo de críticas internas nos Estados Unidos ao formato de alívio financeiro que seria concedido ao Irã.

Dentro do governo, o receio é que qualquer pacote de descongelamento de ativos, redução de sanções ou liberação de recursos seja comparado aos mais de US$ 100 bilhões em benefícios que críticos atribuíram ao acordo da era Obama. “Não haverá cheques em branco para Teerã”, repete um assessor próximo a Trump, que descreve o humor do presidente como “impaciente, mas desconfiado”. O Irã, por sua vez, insiste que algum tipo de compensação econômica é “obrigatória” em qualquer acerto que envolva limitação de seu programa nuclear e desmobilização militar.

Negociações avançam, mas impasses se multiplicam

As conversas entre Washington e Teerã seguem em ritmo quase diário desde o início de maio, com rodadas em capitais intermediárias e videoconferências técnicas. Na sexta-feira anterior à devolução do texto, Trump promete em redes sociais tomar uma “decisão final” após uma reunião de duas horas com sua equipe de segurança nacional. O encontro termina sem anúncio, sinal de que as divergências superam o otimismo exibido em público.

Trump escreve que os Estados Unidos “confiscariam e destruiriam” o estoque de urânio altamente enriquecido do Irã como parte do acordo. Autoridades iranianas reagem imediatamente e reiteram que não discutem esse nível de detalhe nuclear na mesa atual. “Questões técnicas do programa não estão em pauta neste estágio”, diz um representante de Teerã, ecoando a posição oficial do governo iraniano.

O presidente americano afirma também que não há “qualquer discussão sobre troca de dinheiro”, tentando desarmar críticas de aliados republicanos e de Israel. O Irã sustenta posição oposta e exige alívio econômico tangível, seja pela suspensão de sanções a bancos e empresas de energia, seja pela liberação de parte de seus ativos congelados no exterior, estimados em dezenas de bilhões de dólares. A forma de conciliar essas versões contraditórias permanece em aberto.

Impacto regional e mercados em suspense

A devolução do texto e a extensão das conversas alimentam a incerteza em uma região já marcada por choques sucessivos. Cada dia sem acordo mantém sob risco as rotas marítimas de energia e a segurança de aliados dos Estados Unidos no Golfo Pérsico. Operadores de mercado monitoram com atenção qualquer sinal de avanço ou retrocesso, diante da possibilidade de nova alta nos preços do barril caso o Estreito de Ormuz siga vulnerável a bloqueios e ataques.

Diplomatas europeus, que participaram ativamente da costura do pacto de 2015, veem no atual impasse um teste para a política global de não proliferação nuclear. Sem um documento claro, que estabeleça limites de enriquecimento, número de centrífugas e prazos de inspeção, cresce o temor de que o programa iraniano ganhe terreno longe dos olhos de agências internacionais. “Um fracasso agora seria pior do que não ter começado”, avalia um negociador europeu ouvido pela reportagem.

Trump tenta equilibrar interesses conflitantes. De um lado, sofre pressão de Israel e de falcões republicanos no Congresso, que pedem linhas vermelhas rígidas e ameaças críveis de retomada de ataques militares. De outro, ouve conselheiros que defendem um arranjo que encerre as hostilidades, reduza riscos de erro de cálculo militar e devolva alguma previsibilidade ao fluxo de petróleo na região.

Próximos passos e incertezas

Negociadores dos dois países esperam passar as próximas semanas reescrevendo trechos sensíveis do documento, em especial aqueles que tratam de fiscalização nuclear e cronograma de alívio das sanções. A tarefa é encontrar expressões que satisfaçam a exigência de firmeza de Trump sem fechar completamente a porta para concessões iranianas. “Não se trata apenas de pontos técnicos. É uma luta por narrativa, por quem parece ceder primeiro”, resume um diplomata da região.

Enquanto o texto vai e volta entre Washington e Teerã, o relógio político corre. Trump precisa mostrar resultados concretos antes das próximas disputas eleitorais internas, sob pena de transformar a promessa de um acordo “praticamente finalizado” em novo motivo de ataque de adversários. O Irã, pressionado por sanções prolongadas e por uma economia fragilizada, calcula até onde pode ir sem parecer que capitula ao rival histórico. O desfecho dessa disputa definirá não só o futuro do programa nuclear iraniano, mas também o equilíbrio de forças em uma das rotas de energia mais estratégicas do planeta.

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