Europa enfrenta maio mais quente da história com salto em mortes
A Europa atravessa em maio de 2026 o mês de maio mais quente já registrado, com ondas de calor fora de época e recordes sucessivos de temperatura. Hospitais notificam aumento expressivo de internações e mortes ligadas ao calor, enquanto autoridades admitem que a infraestrutura do continente não acompanha a velocidade do aquecimento climático.
Contente preparado para outro clima
Da Andaluzia ao norte da Alemanha, termômetros passam de 40 ºC em pleno fim de primavera, número que muitos países da região só costumam ver em julho ou agosto. Na França, estações meteorológicas batem marcas históricas para maio em mais de 60 cidades, com máximas acima de 38 ºC em Bordeaux, Lyon e Toulouse entre os dias 23 e 26. O serviço europeu de monitoramento climático aponta que a temperatura média do continente no mês está cerca de 2,3 ºC acima da média de 1991 a 2020.
Esse salto se traduz em vidas perdidas. Redes de saúde de Espanha, Itália e Grécia relatam aumento de até 25% nas internações por desidratação, insolação e agravamento de problemas cardíacos em relação a maio de 2023. Em Madri, autoridades de saúde atribuem pelo menos 180 mortes extras, entre 1º e 28 de maio, a complicações associadas ao calor. “O que antes era exceção de verão vira rotina já na primavera”, afirma por telefone a epidemiologista espanhola Marta Ríos, que acompanha os dados de mortalidade ligada ao clima desde 2015.
Velocidade do aquecimento cobra preço
O continente se aquece quase duas vezes mais rápido que a média global desde a década de 1980, segundo balanços recentes da Organização Meteorológica Mundial. A combinação de ar mais quente, solo ressecado e cidades densas amplia o chamado efeito de ilha de calor, que mantém temperaturas elevadas mesmo à noite. Em Milão, medições oficiais registram mínimas acima de 26 ºC por cinco noites seguidas, algo raro para maio até poucos anos atrás. “As pessoas não conseguem resfriar o corpo durante a madrugada, o que aumenta o risco de morte, sobretudo entre idosos”, explica o climatologista francês Julien Morel.
O impacto recai de forma desigual. Moradores de bairros periféricos, com menos áreas verdes e casas mal isoladas, sentem primeiro a pressão do calor. Em Atenas, o governo local estima que 35% dos domicílios não têm ar-condicionado. Famílias recorrem a ventiladores antigos e improvisos com lençóis molhados. “A conta de luz já pesa e agora dizem para ligar o ar o dia inteiro. Não temos como”, diz a aposentada grega Eleni Papadopoulos, 72, moradora da zona oeste da capital. Ao mesmo tempo, sistemas elétricos entram no limite: operadoras de energia da Península Ibérica relatam picos de consumo entre 10% e 15% acima do previsto para o período.
Setores em alerta e vulneráveis em risco
No campo, agricultores colhem os primeiros sinais de prejuízo. Em regiões do sul da França e da Itália, cooperativas de produtores reportam perdas de até 20% em culturas de trigo e cevada, prejudicadas por calor e falta de chuva em sequência. Técnicos alertam que temperaturas muito altas em maio aceleram a maturação, reduzem o tamanho dos grãos e encurtam ciclos de crescimento. A Comissão Europeia admite, em relatórios preliminares, risco de queda na produção agrícola de 5% a 10% em 2026 se o padrão de calor extremo se repetir em junho e julho.
Nas cidades, prefeitos correm para adaptar planos de emergência normalmente usados em julho. Paris antecipa para a segunda quinzena de maio a ativação do nível laranja de alerta de calor, que inclui abertura de centros climatizados para idosos e instalação de bebedouros em praças. Em Lisboa, equipes de saúde passam a telefonar para cerca de 30 mil moradores com mais de 75 anos para verificar se conseguem se hidratar e refrescar a casa. “Não é apenas um desconforto; vemos impacto direto em atendimentos de urgência e na mortalidade”, resume Ana Costa, diretora de um hospital público lisboeta.
Pressão por resposta política e adaptação
Os novos recordes reabrem a pressão sobre governos europeus às vésperas de cúpulas climáticas internacionais. Organizações ambientais cobram metas mais rígidas de corte de gases de efeito estufa até 2030, em linha com o limite de 1,5 ºC do Acordo de Paris. Especialistas lembram que, mesmo com emissões zeradas hoje, o calor extremo tende a se intensificar nas próximas décadas por causa da inércia do sistema climático. “Mitigar é urgente, mas adaptar é questão de sobrevivência imediata”, avalia a pesquisadora portuguesa Sofia Andrade, da área de saúde pública.
Cidades estudam transformar calçadas e telhados em superfícies mais claras, ampliar áreas verdes e mudar horários de trabalho ao ar livre. Sindicatos de construção civil na Espanha defendem suspensão de obras entre 12h e 17h em dias com sensação térmica acima de 40 ºC. Governos discutem linhas de crédito para reformar casas antigas, com melhor ventilação e isolamento térmico. Enquanto esses planos avançam em ritmo desigual, o maio de 2026 deixa uma pergunta incômoda no ar aquecido da Europa: quantos verões antecipados ainda serão necessários para que o continente trate o calor extremo como uma emergência permanente, e não como uma anomalia passageira?
