Irã ameaça resposta militar maior se acordo com EUA fracassar
O Irã avisa que uma nova guerra com os Estados Unidos, em 2026, será mais ampla e devastadora do que a anterior. Teerã ameaça bloquear rotas vitais do petróleo, lançar mísseis de longo alcance e usar enxames de drones inteligentes caso a diplomacia falhe.
Negociações avançam sob sombra de nova guerra
As delegações iraniana e americana seguem reunidas enquanto um acordo provisório aguarda o aval final do presidente Donald Trump. A expectativa é de um desfecho nas próximas semanas, mas a retórica de Teerã indica que o cessar-fogo atual não encerra o risco de uma nova escalada. Autoridades dos dois lados confirmam avanços, porém descrevem um ambiente em que cada gesto militar ganha peso político imediato.
Em Teerã, a Guarda Revolucionária projeta confiança e reforça a ideia de que o país sai da guerra de 40 dias mais preparado do que antes. O principal negociador iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirma que as Forças Armadas usam o período de pausa para reconstruir suas capacidades “no mais alto nível”. O chanceler Abbas Araghchi promete que qualquer retaliação futura “contará com muito mais surpresas”, sinalizando que a contenção atual é mais cálculo do que recuo.
Bloqueios marítimos e nova pressão sobre o petróleo
A ameaça mais imediata recai sobre o estreito de Ormuz, por onde escoa boa parte das exportações de petróleo do Golfo Pérsico. Durante a guerra recente, o Irã mostra que consegue, na prática, paralisar o tráfego de navios na região e provocar um choque energético global em poucos dias. Agora, estrategistas em Washington e capitais europeias avaliam um cenário ainda mais amplo: um bloqueio simultâneo de Ormuz e do estreito de Bab al-Mandeb, na entrada do mar Vermelho.
O plano, descrito por especialistas em energia, passa pelo uso dos aliados houthis no Iêmen para tornar Bab al-Mandeb quase intransitável. Em 2023, mais de 10% do comércio mundial de petróleo por via marítima cruzam esse corredor. Depois da onda de ataques a navios em 2024, essa fatia cai quase à metade no caso do petróleo e praticamente zera no gás natural liquefeito, segundo a Administração de Informação de Energia dos EUA. O estrategista Umud Shokri alerta que “uma crise simultânea em Bab al-Mandeb e no estreito de Ormuz” pode elevar preços do petróleo, fretes e inflação em escala global.
Mísseis mais longe, drones mais inteligentes
As ameaças não se limitam às rotas marítimas. Durante a guerra com EUA e Israel, o Irã testa mísseis balísticos contra alvos considerados intocáveis até poucos anos atrás. Em março, Teerã lança dois projéteis de médio alcance contra Diego Garcia, base conjunta dos EUA e do Reino Unido no oceano Índico, a cerca de 3,2 mil quilômetros do território iraniano. A investida funciona como recado de que bases aliadas fora do Oriente Médio entram no raio de ação.
Analistas militares apontam que os mísseis iranianos já superam 2 mil quilômetros de alcance e podem, em um cenário extremo, atingir alvos na Europa. O pesquisador Farzin Nadimi cita as bases da RAF Fairford e RAF Lakenheath, no Reino Unido, e o centro logístico de Ramstein, na Alemanha, como possíveis pontos de mira em um nível alto de escalada. A professora Nicole Grajewski, da Sciences Po, afirma que o Mediterrâneo “não está completamente fora” das capacidades iranianas, mas pondera que a precisão ainda é o grande desafio para Teerã.
Infraestrutura do Golfo vira alvo preferencial
A ameaça mais sensível para os países árabes do Golfo é a ofensiva contra a sua infraestrutura de energia. O Irã já atinge refinarias, oleodutos e instalações próximas a terminais marítimos na guerra recente. Agora, parlamentares ligados ao comitê de segurança nacional em Teerã falam em ir além. Ahmad Bakhshayesh Ardestani declara que, se os EUA atacarem as instalações petrolíferas iranianas, a resposta será direcionada diretamente aos poços de petróleo dos vizinhos.
“Se eles pretendem fazer algo para que fiquemos sem petróleo, não atacaremos os seus oleodutos, atacaremos os poços para que eles também não tenham petróleo”, diz Ardestani, em entrevista à imprensa iraniana. A mudança de foco, dos dutos para os campos de extração, aumenta o potencial de dano estrutural e eleva o risco de desorganizar a oferta global de combustíveis por meses, não apenas por dias. Centrais nucleares, usinas elétricas e instalações de dessalinização que abastecem milhões de pessoas também entram na lista de vulnerabilidades, embora tenham sido poupadas na fase anterior do conflito.
Céu mais disputado com enxames de drones
No campo tecnológico, o próximo salto está nos drones armados e nos mísseis de cruzeiro. Durante a guerra, o Irã já emprega veículos aéreos não tripulados para atingir alvos em Israel, Arábia Saudita e Emirados Árabes. Autoridades ocidentais agora monitoram com atenção o projeto de enxames de drones equipados com inteligência artificial, capazes de compartilhar imagens em tempo real, mudar de rota em voo e confundir radares e sistemas de defesa aérea.
Nadimi explica que Teerã discute há anos a capacidade de coordenar dezenas de drones em um só ataque, cada um ajustando velocidade e altura para escapar de interferências. Ele acrescenta que o país tenta adaptar mísseis de cruzeiro para velocidades próximas às supersônicas e estuda formas de bloquear satélites de comunicação e vigilância militar. Até agora, boa parte dessas ambições permanece no papel, mas a guerra recente oferece ao Irã um laboratório real para testar limites.
Diplomacia em corrida contra o relógio
O avanço das negociações com Washington corre em paralelo à construção dessa musculatura militar. Assessores de Trump destacam que o rascunho de acordo busca reduzir ataques diretos e criar salvaguardas para o tráfego marítimo em Ormuz e Bab al-Mandeb. Em público, porém, a Guarda Revolucionária insiste que qualquer novo ataque dos EUA ou de Israel desencadeará “golpes esmagadores” e “ruína total” em alvos que os adversários “nem sequer conseguem imaginar”.
Diplomatas ouvidos reservadamente avaliam que parte dessa retórica ajuda Teerã a negociar de uma posição de força, mas reconhecem o risco de erro de cálculo em um ambiente já saturado de desconfiança. O preço do petróleo, que reage a cada sinal de tensão nos estreitos, funciona como termômetro diário da paciência dos mercados. A pergunta que fica, enquanto o texto do acordo circula entre capitais aliadas, é se a diplomacia consegue avançar mais rápido do que a modernização do arsenal iraniano.
