Mulher é presa em Porto Alegre por torturar animais e vender vídeos
A empresária Daiana Schuinsekel de Almeida é presa em 2026, em Porto Alegre, acusada de torturar animais e vender vídeos com cenas de extrema crueldade. Ela admite os crimes após ser identificada por tatuagens e marcas nas pernas em gravações divulgadas no exterior.
ONG da Bulgária aciona polícia brasileira após vídeos de crueldade
A investigação começa longe de Porto Alegre. Uma ONG da Bulgária recebe denúncias de vídeos que mostram torturas contra coelhos e pintinhos, com foco no sofrimento prolongado dos filhotes. As imagens circulam em grupos fechados em plataformas de comunicação digital, entre elas o Discord, e chamam a atenção de ativistas europeus de proteção animal.
A organização cruza informações, identifica pistas visuais e aciona autoridades brasileiras. O material mostra uma mulher nua pisando sobre animais, quase sempre filhotes, com saltos altos e tênis de plataforma. Os vídeos são vendidos em servidores privados e redes semelhantes, em esquema de comercialização clandestino que mistura fetiche e violência extrema.
Investigadores da 3ª Delegacia do Departamento de Polícia de Proteção ao Meio Ambiente, em Porto Alegre, recebem o dossiê internacional ainda no primeiro semestre de 2026. O trabalho passa então a ser quase cirúrgico: comparar tatuagens, formato de pernas, modelos de calçados e detalhes de cenário. A partir desse cruzamento, a polícia pede à Justiça um mandado de prisão contra Daiana.
Prisão, confissão e resgate de animais
Daiana é localizada em Porto Alegre após semanas de monitoramento discreto. A CNN Brasil apura que policiais confirmam a identidade dela com base em uma tatuagem visível nas imagens e em marcas nas pernas que aparecem com nitidez nos vídeos. Quando é abordada, ela sabe que as provas visuais são decisivas.
No momento da prisão, Daiana admite que gravou e comercializou os conteúdos, segundo relato policial. Alega, porém, que se trata de material antigo, produzido anos antes da investigação atual. A versão não convence os agentes, que veem na confissão uma tentativa de reduzir a própria responsabilidade e afastar a suspeita de que o esquema ainda esteja ativo.
Questionada sobre o paradeiro dos animais usados nas cenas de tortura, a empresária diz que prefere ficar em silêncio. A resposta acende novo alerta entre os investigadores, que passam a trabalhar também com a hipótese de morte ou desaparecimento dos bichos. Em buscas na casa, a polícia encontra os sapatos usados nas sessões gravadas, incluindo saltos altos e tênis de plataforma idênticos aos exibidos nas imagens enviadas à ONG estrangeira.
As autoridades confirmam o resgate de animais no curso das diligências, mas evitam detalhar quantos e em que condições para não atrapalhar a apuração nem revitimizar os bichos. O conteúdo dos vídeos não é divulgado por veículos de imprensa, inclusive pela CNN Brasil, que decide descrever apenas de forma geral o teor das cenas, sem reproduzir as imagens.
Daiana passa a responder por maus-tratos, zoosadismo e comercialização de vídeos de violência, todos crimes previstos na legislação ambiental brasileira. Desde 2020, a pena para maus-tratos contra cães e gatos pode chegar a cinco anos de prisão, e delegados especializados defendem pena semelhante para outras espécies usadas em conteúdos de crueldade.
Redes sob pressão e avanço do zoosadismo digital
O caso expõe uma fronteira em que tecnologia, anonimato e violência se encontram. Grupos fechados em plataformas de voz, texto e vídeo funcionam como vitrines para a venda de conteúdos que antes circulavam em circuitos muito restritos. A lógica é simples: acesso fácil, pagamento remoto, pouca chance de identificação imediata. O resultado é um ambiente em que práticas como o zoosadismo ganham escala silenciosa.
As investigações apontam que os vídeos de Daiana eram oferecidos em canais específicos dentro do Discord e em redes semelhantes, com circulação controlada entre quem já conhece esse tipo de material. Em nota enviada à imprensa, o Discord afirma manter “políticas rigorosas que proíbem o abuso de animais e outros conteúdos prejudiciais”, e diz que usa “sistemas robustos de fiscalização e moderação” para remover conteúdos ilegais.
Especialistas em direito digital e proteção animal ouvidos pela reportagem avaliam, porém, que os mecanismos atuais não são suficientes. Servidores privados, uso de criptomoedas e troca de arquivos criptografados dificultam a atuação das empresas e das autoridades. Delegados da área ambiental defendem acordos mais firmes entre plataformas e polícias, com prioridade para denúncias que envolvem crueldade extrema e risco de morte.
A prisão de Daiana mobiliza entidades de proteção animal no Brasil, que veem no caso um ponto de virada na discussão sobre zoosadismo. Organizações cobram que investigações semelhantes avancem sobre outros produtores e compradores de conteúdo, e não apenas sobre quem aparece nas gravações. A avaliação é que há um mercado de nicho, ainda pouco mapeado, que incentiva e financia esse tipo de crime.
Desdobramentos, lacunas e o que vem a seguir
Com a prisão decretada e os materiais apreendidos, a investigação entra em fase de rastreamento digital. Policiais querem identificar possíveis cúmplices, compradores recorrentes e canais de pagamento. A expectativa é que a análise de registros, conversas e movimentações financeiras revele se há outros envolvidos no Brasil ou no exterior.
Delegados da área ambiental também estudam encaminhar o caso a órgãos federais, por envolver circulação internacional de conteúdo e denúncia feita a partir da Europa. A cooperação com autoridades búlgaras, que já atuam no caso, pode abrir caminho para a responsabilização de usuários e intermediários localizados fora do país.
No campo legislativo, parlamentares ligados à pauta animal usam o episódio para defender projetos que endurecem penas para zoosadismo e fecham brechas para conteúdos de crueldade transmitidos pela internet. Entidades sugerem ainda a criação de núcleos especializados em crimes contra animais dentro de delegacias de crimes cibernéticos, com equipes treinadas para rastrear esse tipo de rede.
A defesa de Daiana não é localizada pela reportagem até o fechamento deste texto, e o espaço permanece aberto para manifestação. Enquanto a investigação avança, uma pergunta segue sem resposta clara: quantos outros casos como este permanecem escondidos atrás de telas, senhas e servidores privados, à espera de uma denúncia improvável vinda do outro lado do mundo?
