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PF mira jantar de luxo pago por banqueiro antes de aporte do Rioprevidência

A Polícia Federal investiga um jantar de luxo de cerca de R$ 60 mil em Nova York, pago pelo banqueiro Daniel Vorcaro ao então governador do Rio, Cláudio Castro, em maio de 2023. Meses depois, o fundo de pensão Rioprevidência direciona mais de R$ 320 milhões ao Banco Master, controlado por Vorcaro. Mensagens de celular obtidas pela PF sugerem um esforço para oferecer uma experiência exclusiva ao governador durante viagem oficial aos Estados Unidos.

Carne folheada a ouro e vinhos raros em plena viagem oficial

O encontro acontece no Nusr-Et Steakhouse, em Nova York, restaurante do chef turco Nusret Gökçe, o “Salt Bae”, celebridade nas redes sociais pelos vídeos em que tempera carnes com gestos teatrais. O jantar ocorre em maio de 2023, durante a participação de Castro no Lide Brazil Investment Forum, compromisso oficial do governo fluminense nos Estados Unidos.

Mensagens extraídas do celular de Vorcaro mostram o banqueiro orientando auxiliares a preparar uma noite de ostentação para o governador. Em um dos diálogos, ele escreve: “Pede aquela carne de ouro ou alguma especial pra ele ir”, em referência ao prato folheado a ouro 24 quilates, símbolo máximo do cardápio do restaurante. A PF registra ainda a autorização para compra de rótulos de alto padrão, como o vinho espanhol Vega-Sicilia Único 2013 e champanhes Dom Pérignon On Ice e Cristal.

Os diálogos revelam empolgação com a presença do próprio Salt Bae na casa naquela noite. Um funcionário avisa que o chef “iria pessoalmente à mesa”, e Vorcaro reage: “Bom que o Homem está lá hoje”. Castro responde: “Aí sim”. Em seguida, ao receber o endereço do restaurante, o governador envia outra mensagem ao banqueiro: “Você não existe”.

Vorcaro não aparece sentado à mesa, mas os investigadores localizam registros de que ele está em Nova York no mesmo período. Depois do jantar, o banqueiro pergunta a auxiliares se o pagamento foi feito. A resposta, também registrada pela PF, é taxativa: “Já foram. Tudo certo. Conta paga”. Um débito de US$ 13,3 mil, cerca de R$ 66 mil pela cotação da época, aparece no cartão de Vorcaro na mesma data.

Aportes milionários e suspeita de troca de favores

Meses depois do jantar, o Rioprevidência, fundo responsável pelas aposentadorias e pensões dos servidores do Estado do Rio, inicia uma sequência de investimentos no Banco Master. Segundo a Polícia Federal, são R$ 40 milhões em novembro de 2023, mais R$ 80 milhões poucos dias depois e um novo aporte de R$ 200 milhões em dezembro, totalizando R$ 320 milhões ao fim do ano.

Os documentos enviados ao Supremo Tribunal Federal apontam a suspeita de que benefícios pessoais oferecidos por Vorcaro a Castro possam ter influenciado decisões sobre o destino de recursos públicos. Investigadores ressaltam o caráter luxuoso do jantar em Nova York e o fato de ele ocorrer em viagem oficial, custeada pelo contribuinte, enquanto o anfitrião é controlador do banco que, na sequência, recebe os aportes milionários do fundo de pensão.

A PF também mapeia outros encontros entre os dois. Há registros de reuniões em palácios oficiais do governo do Rio e uma degustação exclusiva de uísque em Nova York, em maio de 2024, orçada em mais de US$ 1 milhão. No dia seguinte a esse evento, o Rioprevidência direciona outro aporte de R$ 80 milhões ao Banco Master, reforçando o padrão temporal que levanta suspeitas de favorecimento.

A investigação mira não só a origem e o volume dos investimentos, mas os critérios adotados. A defesa de Cláudio Castro afirma que “não houve irregularidades” e sustenta que toda a agenda internacional do governador segue regras formais. O Banco Master afirma que “todas as operações seguiram critérios técnicos e legais”, e que a instituição cumpre rigorosamente as normas do Banco Central e da Comissão de Valores Mobiliários.

Pressão sobre transparência e confiança nos fundos públicos

O caso atinge em cheio a confiança de servidores estaduais no Rioprevidência, já marcado por crises e polêmicas anteriores na gestão de recursos. A suspeita de que a aposentadoria de professores, policiais, médicos e demais funcionários possa financiar operações ligadas a relações pessoais entre autoridades e banqueiros reacende o debate sobre limites éticos entre esfera pública e interesses privados.

Investigadores ouvidos reservadamente apontam que, do ponto de vista criminal, o foco recai sobre eventual corrupção, tráfico de influência e violação de regras sobre presentes a agentes públicos. No plano político, a narrativa de jantares com carne folheada a ouro, vinhos raros e degustações milionárias contrasta com a realidade de atrasos salariais e arrocho fiscal que afetam o funcionalismo fluminense ao longo dos últimos anos.

Especialistas em governança pública lembram que, mesmo quando investimentos cumprem exigências formais, a influência de relacionamentos pessoais pode distorcer a escolha de ativos e concentrar riscos. A combinação entre um fundo bilionário, um banco em expansão e um governante com poder de indicar rumos para as aplicações torna o caso um teste de estresse para os mecanismos de controle no Rio de Janeiro.

No meio político, aliados e adversários de Castro acompanham o inquérito com atenção. Governistas tentam enquadrar o episódio como parte de uma ofensiva judicial e insistem na regularidade das operações financeiras. Oposição e entidades de servidores cobram transparência total sobre os contratos do Rioprevidência com o Banco Master e defendem maior controle externo sobre a gestão do fundo.

Inquérito sob sigilo e próximos passos no STF

Os relatórios da Polícia Federal já estão nas mãos do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, relator dos inquéritos ligados ao chamado “caso Master”. Como se trata de autoridade com foro privilegiado, cabe ao STF autorizar novas diligências, como quebras adicionais de sigilo bancário, oitivas de envolvidos e eventuais operações de busca e apreensão.

O inquérito corre sob sigilo, o que limita a circulação de detalhes, mas não reduz a pressão pública por respostas. A partir das provas já reunidas, o Ministério Público poderá pedir o aprofundamento das investigações ou o arquivamento parcial de linhas de apuração. Uma denúncia formal contra os envolvidos, se apresentada, deve redesenhar o tabuleiro político no Rio e influenciar debates sobre regras de compliance para fundos públicos em todo o país.

Enquanto o Supremo avalia os próximos passos, a imagem do Rioprevidência e do governo fluminense segue sob escrutínio. A pergunta que permanece sem resposta é se o jantar com carne folheada a ouro abre apenas um incômodo capítulo de ostentação ou se se tornará prova central de um caso emblemático de promiscuidade entre poder político e capital financeiro.

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