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Depoimento sobre chamada de vídeo reforça acusação no caso Henry

Uma cabeleireira relata ter ouvido, em chamada de vídeo, o menino Henry dizer que o “tio” lhe deu “uma banda”. O episódio, revelado em depoimento prestado em 2026, passa a integrar as investigações sobre a morte da criança no Rio de Janeiro e reforça suspeitas contra o ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho.

Relato em primeira mão ganha peso nas investigações

O novo depoimento descreve uma conversa que ocorre poucos meses antes da morte de Henry, em 2021, quando o menino tem 4 anos. Em uma chamada de vídeo entre a criança e a mãe, a cabeleireira, que atendia a cliente naquele momento, afirma ouvir do próprio garoto que o “tio” havia lhe dado “uma banda”, expressão comum para derrubar alguém com um golpe de perna. A testemunha conta que a fala chama sua atenção imediatamente pelo tom de queixa.

Segundo relato, Henry aparece na tela agitado e tenta explicar o que acontecera. A mãe pergunta quem teria feito aquilo e o menino responde, de forma direta, que foi o “tio”. A cabeleireira não cita nomes, mas o contexto do caso leva os investigadores a associar a referência ao então padrasto, o ex-vereador Dr. Jairinho, apontado pelo Ministério Público como principal responsável pelas agressões que antecedem a morte da criança. O depoimento é prestado à polícia do Rio de Janeiro em 2026, em uma das frentes que buscam consolidar o histórico de violência relatado desde a abertura do inquérito.

O que o novo depoimento acrescenta ao caso Henry

As investigações sobre a morte de Henry, encontrada sem vida em março de 2021 em um apartamento na Barra da Tijuca, já reúnem dezenas de laudos, perícias, mensagens de celular e depoimentos. O relato da profissional de beleza, ouvido cinco anos depois, chega como uma peça adicional nesse mosaico. Diferente de rumores ou narrativas de terceiros, a fala da cabeleireira se apoia em uma situação concreta, com data aproximada, local definido e uma frase atribuída diretamente à criança em tempo real.

Investigadores veem nesse tipo de testemunho um reforço importante à tese de que Henry vinha tentando comunicar desconforto e medo em relação ao padrasto. A narrativa da chamada de vídeo dialoga com outras provas indiretas já mencionadas em documentos oficiais, como mensagens trocadas entre a mãe do menino e amigas em que ela descreve comportamentos de Henry após supostas sessões de agressão. A menção à “banda” é interpretada como referência a um golpe físico, o que, somado a relatos anteriores de chutes e pisões, ajuda a compor um padrão de violência reiterada.

O depoimento também recoloca em foco a responsabilidade de adultos que orbitam situações de suspeita de abuso infantil. A cabeleireira afirma que, à época, não dimensiona o risco que o menino corre e não procura a polícia. Anos depois, já com o caso amplamente divulgado e o ex-vereador afastado da política e respondendo na Justiça, ela decide formalizar a lembrança. Investigadores ressaltam que esse tipo de relato tardio não substitui provas materiais, mas pode corroborar narrativas já em análise e fortalecer a consistência de acusações apresentadas ao Judiciário.

Pressão jurídica e debate sobre proteção infantil

O caso Henry se torna um dos processos mais emblemáticos de violência contra crianças no Rio de Janeiro nos últimos 10 anos. A morte do menino, em um condomínio de classe média alta, expõe falhas de proteção mesmo em famílias com acesso a serviços de saúde, educação privada e apoio jurídico. O novo depoimento reacende discussões sobre quanto tempo as instituições levam para reagir a sinais de alerta e qual o peso de evidências indiretas, como vídeos, conversas em aplicativos e chamadas de vídeo, em processos criminais de alta complexidade.

Juristas ouvidos pela reportagem apontam que relatos como o da cabeleireira tendem a ganhar relevância em um cenário em que a violência acontece, com frequência, dentro de casa e longe de câmeras oficiais. A fala de uma criança em uma ligação doméstica pode não ter o mesmo impacto de um laudo pericial, mas ajuda a construir o chamado contexto probatório. Esse conjunto de elementos, ainda que fragmentado, influencia decisões sobre pronúncia, revisão de medidas cautelares e eventual condenação. A inclusão do depoimento nos autos pode aumentar a pressão para que o Ministério Público reforce pedidos de penas mais severas e para que a defesa do ex-vereador apresente novas explicações para episódios anteriores à morte de Henry.

A repercussão pública também cresce. Desde 2021, entidades de defesa da infância cobram respostas mais rápidas do poder público. A cada novo documento anexado ao processo, renova-se o questionamento sobre a eficácia dos canais de denúncia, como o Disque 100, e sobre a preparação de escolas, clínicas e serviços de atendimento para identificar sinais precoces de agressão. Em um país onde, segundo dados oficiais, milhares de casos de violência contra menores são registrados por ano, a trajetória de Henry passa a simbolizar o que acontece quando alertas se perdem em silêncios sucessivos.

Próximos passos e lacunas a serem enfrentadas

Com o novo depoimento anexado, a expectativa é que a Justiça do Rio analise o peso da declaração no conjunto já volumoso do processo. Advogados das partes devem se debruçar sobre a cronologia apresentada pela testemunha, tentando situar com mais precisão quando a chamada de vídeo ocorreu e de que forma ela se encaixa na linha do tempo das agressões. A defesa de Dr. Jairinho pode tentar desqualificar a memória da cabeleireira ou questionar possíveis contradições, enquanto a acusação tende a usar a narrativa para reforçar a imagem de um ciclo de violência contínua.

Organizações da sociedade civil acompanham cada novo movimento do caso, que já atravessa mais de cinco anos desde a morte do menino. Especialistas em direitos da criança defendem que o impacto real dessa discussão só será medido se o processo resultar em mudanças concretas em políticas públicas, como protocolos mais rígidos de escuta de crianças em hospitais e escolas, ampliação de equipes de assistência social e garantia de proteção a denunciantes. A lembrança de uma chamada de vídeo em que um garoto de 4 anos se queixa de um “tio” pode não ser, sozinha, a peça que decidiu o quebra-cabeça. Mas mantém aberta a pergunta que mobiliza famílias, profissionais e autoridades: quantos outros Henry ainda tentam ser ouvidos antes que seja tarde demais?

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