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Eleição na Colômbia testa futuro da esquerda na América do Sul

A Colômbia escolhe neste domingo, em uma eleição marcada por violência e polarização, quem governará o país entre 2026 e 2030. O resultado redefine o peso da esquerda na América do Sul e pode isolar Lula como último líder progressista de uma grande economia na região.

Campanha sob ataques e dilema entre segurança e paz

A disputa se concentra entre Iván Cepeda, herdeiro político de Gustavo Petro, e o advogado Humberto de la Espriella, novo rosto da extrema direita colombiana. Pesquisas divulgadas às vésperas do pleito mostram Cepeda com 33,4% das intenções de voto e De la Espriella com 30,9%, dentro da margem de erro. A advogada Paola Valencia, ligada ao ex-presidente Álvaro Uribe, aparece distante, com 12,6%.

A campanha corre sob uma pressão de segurança que o país não via há pelo menos dez anos. O Indepaz, instituto que monitora a violência política, registra até o fim de abril de 2026 um total de 49 massacres, com 205 mortos. Os ataques se concentram em zonas rurais e atingem principalmente líderes comunitários, camponeses e comunidades indígenas, em regiões onde o Estado quase não chega.

Nos dias finais antes da votação, drones e explosivos atingem povoados isolados, em ações atribuídas às dissidências das Farc comandadas por Iván Mordisco. As imagens de casas destruídas e famílias em fuga entram nos programas eleitorais e reforçam um eixo central para o eleitor: apostar em uma política de segurança de choque ou insistir em negociações de paz com grupos armados.

Iván Cepeda, 63, senador e figura histórica da esquerda, leva para a urna uma biografia marcada pela violência do próprio Estado. Filho de Manuel Cepeda Vargas, dirigente comunista assassinado em 9 de agosto de 1994 por agentes estatais em conluio com paramilitares, ele transforma sua história em argumento de campanha. Defende a continuidade das conversas de paz iniciadas no governo Petro, reforço da presença social do Estado nas periferias e reforma gradual da polícia.

Humberto de la Espriella, conhecido como El Tigre, ocupa o outro extremo. Advogado penalista, fundador de um dos escritórios mais conhecidos do país, atrai o eleitorado que quer resposta rápida à violência. Promete romper de imediato todas as negociações com guerrilhas e dissidências, erguer megapresídios de segurança máxima, bombardear acampamentos armados e firmar uma aliança direta com Estados Unidos e Israel no combate ao narcotráfico.

“No meu governo, todo bandido que não se submeter à justiça será eliminado”, afirma, cercado de seguranças e protegido por vidro à prova de balas no comício de encerramento em Medellín. Sua retórica ecoa o discurso de segurança dura que ganhou força em parte da América Latina na última década, de Nayib Bukele, em El Salvador, a experiências de militarização em países andinos.

A candidatura de El Tigre, porém, carrega um paradoxo incômodo. Entre seus antigos clientes estão ex-congressistas condenados por parapolítica, envolvidos com paramilitares, e protagonistas de grandes esquemas de corrupção em contratos públicos. O episódio mais sensível é sua atuação, entre 2013 e 2019, na defesa de Alex Saab, apontado como principal operador financeiro do regime chavista na Venezuela. Reportagem divulgada na semana anterior à eleição revela transferências de mais de US$ 370 mil, vindas de empresas ligadas a Saab, para contas associadas ao escritório de De la Espriella.

Disputa vai além das fronteiras colombianas

O que está em jogo não se limita ao controle do Palácio de Nariño pelos próximos quatro anos. A Colômbia entra nas urnas enquanto a América do Sul assiste a uma reacomodação de forças, com o avanço de candidatos conservadores e nacionalistas em países que, há poucos anos, eram governados por coalizões de esquerda.

Se Iván Cepeda vence, ou se chega ao segundo turno com vantagem clara sobre De la Espriella, o eixo político entre Brasília e Bogotá se preserva. Lula mantém seu aliado ideológico mais próximo numa região em que governos progressistas ainda comandam duas das três maiores economias: Brasil e Colômbia. A continuidade do Pacto Histórico, coalizão que levou Petro ao poder em 2022, sinaliza que esse campo consegue renovar lideranças e sobreviver eleitoralmente à primeira geração de presidentes de esquerda.

Uma vitória de De la Espriella, ou mesmo uma virada improvável de Valencia, redesenha o mapa regional de imediato. Lula passaria a ser o único governante de esquerda à frente de uma grande economia sul-americana. O isolamento dificulta agendas comuns em temas como integração energética, defesa ambiental e coordenação em foros multilaterais. Também fortalece, no Brasil, o discurso da família Bolsonaro de que uma “onda conservadora” varre o continente e tornará inevitável uma mudança de rumo em Brasília.

Flávio Bolsonaro, senador pelo PL, já explora esse argumento em entrevistas e redes sociais. A leitura no entorno do ex-presidente Jair Bolsonaro é que cada derrota de aliados ideológicos de Lula em países vizinhos reforça a narrativa de que o Brasil estaria desalinhado com a “nova maioria” do continente. Em ano eleitoral, essa percepção pesa sobre a estratégia do Planalto.

O resultado colombiano também impacta diretamente as políticas de segurança na região amazônica e na fronteira compartilhada com Brasil, Peru e Venezuela. Um governo alinhado a Petro e Cepeda tende a insistir em programas de substituição de cultivos ilegais, desenvolvimento rural e fortalecimento de direitos humanos. Um governo de linha dura pode priorizar operações militares, ampliar a cooperação policial e enfraquecer mecanismos de participação social nas áreas mais afetadas pelo narcotráfico.

Para investidores, o pleito é termômetro de estabilidade. A sequência de 49 massacres em quatro meses, somada à presença de dissidências armadas em corredores estratégicos do narcotráfico, pressiona empresas de mineração, energia e agronegócio que atuam em zonas de conflito. A escolha entre diálogo e repressão influencia o risco político percebido por fundos estrangeiros, inclusive brasileiros.

Segundo turno indefinido e teste para Lula em quatro meses

As pesquisas indicam que nenhum candidato ultrapassa a marca de 50% dos votos válidos, o que leva a eleição para um segundo turno disputado, previsto para junho. Paola Valencia dificilmente avança, mas seus 12,6% se tornam peça-chave na reta final. A incógnita não é o que ela fará, e sim o que seus eleitores decidirão.

Valencia já promete apoiar De la Espriella em um eventual segundo turno. Líderes de centro como Sergio Fajardo e a ex-prefeita de Bogotá Claudia López sinalizam que não subirão no palanque de Cepeda. As bases desses políticos, porém, não se movem de forma automática. Há eleitores que rejeitam o projeto da esquerda, mas também desconfiam do discurso radical de El Tigre e de seus vínculos com figuras como Alex Saab.

Cepeda precisa conquistar parte desse voto de centro sem contar com apoios formais robustos. Terá de falar a eleitores urbanos de classe média que temem a insegurança, mas não querem abrir mão de direitos civis e liberdades públicas. De la Espriella aposta em manter o tema da violência no centro da agenda, vinculando o fracasso de negociações de paz ao governo Petro e prometendo resultados rápidos com mão de ferro.

Analistas em Bogotá e Brasília veem na eleição colombiana um ensaio do que o Brasil decide em quatro meses, quando Lula enfrentará seu teste eleitoral mais difícil desde 2002. Uma eventual derrota de Cepeda amplia a sensação de cerco político ao PT e pode influenciar o humor do eleitorado brasileiro, ainda que de forma indireta. Uma vitória clara da esquerda colombiana, por outro lado, oferece ao Planalto um raro alívio em um cenário regional cada vez mais adverso.

Enquanto os colombianos votam sob o ruído distante de drones e helicópteros militares, a pergunta que paira sobre a região vai além das fronteiras do país: a América do Sul caminha para um novo ciclo conservador ou ainda há fôlego político para um projeto de esquerda reformulado? A resposta começa a ser desenhada nas urnas de Bogotá e das zonas rurais marcadas pela guerra, e chegará, em poucos meses, às urnas brasileiras.

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