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Cinco países firmam pacto em Santiago contra crime organizado

Argentina, Bolívia, Chile, Equador e Peru assinam nesta quinta-feira (28), em Santiago, um compromisso regional para coordenar o combate ao crime organizado transnacional. O acordo prevê ações conjuntas, compartilhamento de informações e avaliação a cada 180 dias. A iniciativa tenta responder à escalada de violência que pressiona governos e fragiliza instituições na América do Sul.

Reação à escalada da violência na região

Na capital chilena, chanceleres e autoridades de segurança passam o dia discutindo números que se tornam rotina em manchetes policiais. No Peru, apenas em fevereiro, são 196 homicídios registrados. No Equador, o governo declara grupos criminosos como terroristas e fecha operações conjuntas com os Estados Unidos. A Argentina segue o mesmo caminho e formaliza acordos de segurança com Washington.

É nesse cenário que nasce o “Compromisso Regional de Santiago contra o Crime Organizado Transnacional”. O documento é apresentado como ponto de partida para uma frente comum. “Este é um ponto de partida para algo que nos diz respeito a todos. Pelo menos podemos dizer que esses cinco países estão cansados de ver o crime organizado matar nossos jovens, subjugar nossos bairros e comprar nossos apoiadores”, afirma o presidente chileno, José Antonio Kast, em sessão de alto nível da cúpula.

O texto assinado em 28 de maio de 2026 consolida a ideia de que as fronteiras já não contêm o poder das facções. O crime atravessa países com a mesma facilidade com que muda de rota de tráfico ou de fachada financeira. Para os governos, agir isoladamente se torna uma estratégia cada vez mais cara e menos eficaz.

O que prevê o compromisso de Santiago

O documento é firmado pelos chanceleres Pablo Quirno, da Argentina; Fernando Aramayo, da Bolívia; Carlos Pareja, do Peru; e Gabriela Sommerfeld, do Equador, além de autoridades chilenas. Ao centro, está a ideia de um plano de ação conjunto, com foco em cooperação política, inteligência compartilhada e coordenação de operações contra redes de tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e outros crimes transfronteiriços.

Francisco Pérez Mackenna, ministro das Relações Exteriores do Chile, resume a urgência. “O crime organizado tornou-se uma das principais ameaças à governança, à segurança dos indivíduos, à estabilidade institucional e ao desenvolvimento de nossos países. Dada a sua natureza transfronteiriça, os esforços nacionais são insuficientes e devem ser complementados por maior cooperação política e compartilhamento de informações”, declara.

Os países combinam reuniões de avaliação a cada 180 dias, um horizonte de seis meses para medir resultados concretos e ajustar rotas. A próxima grande vitrine do pacto será a Assembleia Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA). Lá, os cinco governos planejam apresentar o balanço inicial e convidar outros países das Américas a aderirem à iniciativa.

O movimento ocorre em sintonia com a pressão externa exercida pelos Estados Unidos. Washington passa a designar facções brasileiras como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, numa tentativa de enquadrar a atuação desses grupos além das fronteiras nacionais. A classificação ajuda a liberar instrumentos jurídicos e financeiros para perseguir ativos e rotas ligadas às facções.

Pressão interna sobre Kast e desafios locais

Enquanto busca projetar liderança regional, o governo José Antonio Kast enfrenta críticas em casa. O presidente chega à cúpula sob cobrança pela ausência de um plano nacional de segurança detalhado, apesar de ter prometido uma guinada dura contra o crime organizado na campanha. A falta de um desenho claro para a área pesa na saída da ex-ministra da Segurança Pública, Trinidad Steinert, que deixa o cargo menos de três meses após o início do governo.

Martín Arraú, atual ministro da Segurança, tenta conter o desgaste. Em coletiva na segunda-feira (25), ele lembra que já existe uma política nacional em vigor, elaborada no governo anterior. “O primeiro passo é que haja uma política nacional de segurança pública. Essa política está em vigor; foi promulgada pelo presidente Boric, tem duração de seis anos e acreditamos que ela é suficiente. É abrangente e permite a implementação de certas políticas, planos e programas no futuro. Vamos operar sob essa política atual”, afirma.

A postura revela um equilíbrio delicado. Kast assume o discurso de endurecimento, mas seu governo se ancora em uma política herdada do antecessor para não atrasar ações práticas. O pacto regional, nesse contexto, também funciona como vitrine política: permite ao presidente mostrar protagonismo na cena internacional enquanto administra pressões domésticas por resultados rápidos.

Nos demais países, a equação entre urgência política e capacidade de resposta é semelhante. No Peru, a crescente sensação de insegurança já desponta como tema central para as próximas eleições presidenciais, com candidatos pressionados a apresentar metas e prazos. No Equador, a aliança com os Estados Unidos busca interromper a espiral de ataques armados, sequestros e explosões que expõem a fragilidade do Estado diante de quadrilhas que disputam portos e corredores de exportação.

Impacto esperado e próximos passos

O compromisso de Santiago nasce com ambição de redesenhar a cooperação regional em segurança. Na prática, os governos prometem integrar bancos de dados, coordenar operações policiais e de fronteira e dificultar a movimentação de dinheiro, armas e pessoas que alimenta as organizações criminosas. Se conseguir tirar do papel esse desenho, o pacto pode reduzir a duplicação de esforços e fechar brechas exploradas por facções que atuam em vários países ao mesmo tempo.

O impacto não será imediato. A criação de estruturas de inteligência comuns, o alinhamento de legislações e a construção de confiança política entre governos exigem tempo e estabilidade. A cada 180 dias, os cinco países precisarão apresentar avanços mensuráveis para evitar que o pacto se converta em mais um documento solene sem efeitos concretos. Pressionadas por índices de homicídio em alta, populações inteiras esperarão por sinais claros de mudança, seja na redução da violência diária, seja na percepção de que o Estado recupera espaços dominados há anos por grupos armados.

Na próxima Assembleia Geral da OEA, o balanço inicial deve indicar se o compromisso de Santiago consegue sair do discurso para o terreno. A adesão de novos países, especialmente do Brasil e da Colômbia, será um teste decisivo para medir o alcance real da iniciativa. A região começa a construir uma frente comum contra o crime organizado; o desafio agora é provar que essa aliança resiste à burocracia, às disputas políticas internas e ao poder econômico das facções que pretende enfrentar.

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