Ultimas

Eleição na Colômbia redefine peso da esquerda na América do Sul

A Colômbia decide neste domingo quem governa o país entre 2026 e 2030 e, de quebra, redesenha o mapa político da América do Sul. Em disputa direta estão o senador de esquerda Iván Cepeda, o advogado de extrema direita Abelardo De la Espriella e a conservadora Paloma Valencia, herdeira do uribismo.

Violência transforma eleição em plebiscito sobre segurança

A campanha chega à reta final sob um clima de guerra interna. Até o fim de abril de 2026, o Indepaz registra 49 massacres no ano, com 205 mortos, o número mais alto em pelo menos uma década. Nos dias anteriores à votação, ataques com drones e explosivos contra civis em zonas rurais, atribuídos às dissidências das Farc comandadas por Iván Mordisco, expõem a fragilidade do Estado em áreas inteiras do território.

O confronto entre segurança e negociação domina cada debate, comícios e programas de TV. Cepeda defende a continuidade do processo de paz iniciado por Gustavo Petro e a retomada de conversas com grupos armados. De la Espriella promete o oposto: ruptura imediata das mesas de diálogo, construção de megapresídios de segurança máxima, bombardeio de acampamentos guerrilheiros e aliança estreita com Estados Unidos e Israel para enfrentar o narcotráfico. “No meu governo, todo bandido que não se submeter à justiça será eliminado”, repete em discursos, cercado por escoltas e vidro à prova de balas.

Valencia tenta ocupar um espaço intermediário, evocando o legado de Álvaro Uribe. A candidata insiste em uma linha dura na segurança, mas sem a retórica de extermínio de De la Espriella. Advogada, ex-professora universitária e colunista, ela vence com folga as primárias da direita em 8 de março, porém perde fôlego nas semanas seguintes. O eleitorado conservador migra, em grande parte, para a promessa de choque imediato oferecida pelo rival de extrema direita.

Cepeda herda Petro; De la Espriella carrega seus próprios fantasmas

Aos 63 anos, Iván Cepeda chega à eleição como rosto mais visível do Pacto Histórico, coalizão que leva Petro à Presidência em 2022. Filho de Manuel Cepeda Vargas, dirigente comunista assassinado em 9 de agosto de 1994 em crime cometido por agentes do Estado em cumplicidade com paramilitares, ele transforma a própria biografia em plataforma. Sua trajetória mistura militância em direitos humanos, investigações sobre a parapolítica e defesa de uma paz negociada, com reformas sociais graduais.

O adversário que o encosta nas pesquisas constrói carreira em outro extremo do sistema de justiça. Conhecido como El Tigre, Abelardo De la Espriella se torna um dos advogados penalistas mais famosos – e controversos – da Colômbia. Seu escritório, De la Espriella Lawyers Enterprise, atua para ex-congressistas condenados por envolvimento com grupos paramilitares, políticos associados a escândalos de corrupção em contratos públicos e figuras do caso DMG, pirâmide financeira que sacudiu o país na década passada. Agora, ele promete erradicar justamente o tipo de criminalidade que defende por anos nos tribunais.

O caso mais explosivo surge às vésperas da votação. Entre 2013 e 2019, De la Espriella representa o empresário colombiano Alex Saab, identificado como principal operador financeiro do chavismo e preso nos Estados Unidos. Uma investigação recente aponta transferências de mais de US$ 370 mil, entre 2014 e 2016, para contas vinculadas ao escritório do candidato, originadas de empresas usadas por Saab em negócios ilícitos na Venezuela. A campanha responde que todos os contratos seguem a lei e que a atuação se limita ao campo jurídico, mas a denúncia alimenta a desconfiança entre eleitores que veem contradição no discurso anticorrupção.

Paloma Valencia, de 48 anos, tenta reanimar o projeto conservador clássico. Seu entorno político reivindica a gestão de Uribe na primeira década dos anos 2000, quando o Estado recupera áreas dominadas pelas Farc ao custo de graves denúncias de violações de direitos humanos. O problema é que, nesta eleição, a direita tradicional parece pequena diante da polarização entre a esquerda no poder e a promessa de uma guinada ultrarradical.

Disputa voto a voto define futuro de Lula na região

As últimas pesquisas mostram Cepeda com 33,4% das intenções de voto e De la Espriella com 30,9%. A vantagem de 2,5 pontos fica dentro da margem de erro e torna o resultado de domingo imprevisível. Valencia aparece distante, com 12,6%, o que torna improvável sua presença no segundo turno, mas dá a seus eleitores um papel decisivo na etapa final.

O destino desses votos é a principal incógnita da corrida. Valencia promete apoiar De la Espriella caso fique fora, enquanto figuras de centro, como Sergio Fajardo e a ex-prefeita Claudia López, avisam que não subirão no palanque de Cepeda. As bases de todos eles, porém, não se alinham automaticamente. Parte rejeita o radicalismo punitivista, parte desconfia da esquerda no poder. Cepeda sabe que, se chegar ao segundo turno, precisa conquistar o voto moderado sem o selo oficial desses líderes. É nesta negociação, mais silenciosa que os comícios, que a eleição realmente se define.

O impacto ultrapassa as fronteiras colombianas. Hoje, Brasil e Colômbia formam, ao lado da Argentina de Javier Milei, o núcleo das três maiores economias da América do Sul. Desde 2022, o eixo Brasília-Bogotá se consolida como principal parceria entre governos de esquerda no continente. Uma vitória de Cepeda, ou mesmo uma ida ao segundo turno com vantagem confortável, preserva esse arranjo. Lula mantém o aliado ideológico mais próximo e demonstra que o ciclo progressista ainda sobrevive à primeira geração de líderes, que inclui nomes como o próprio Petro, Evo Morales e Rafael Correa.

Se o resultado favorecer De la Espriella ou Valencia, o tabuleiro muda. A Colômbia se alinha a governos conservadores e liberais da região e Lula passa a ser, na prática, o último grande presidente de esquerda sul-americano. O isolamento político aumenta justamente quando o Brasil se aproxima de sua eleição mais apertada desde 2014. No discurso interno da direita brasileira, lideranças como Flávio Bolsonaro encontram munição. A tese de que a virada regional à direita é inevitável e de que o país “anda na contramão do mundo” ganha mais força a cada derrota progressista nos vizinhos.

Colômbia antecipa dilemas do Brasil e expõe incerteza regional

O que está em jogo em Bogotá é mais do que um programa de governo. Uma vitória da esquerda reforça agendas comuns com o Brasil em temas como Amazônia, transição energética, política de drogas e integração econômica. Cepeda acena a uma atuação coordenada em fóruns multilaterais e a uma frente progressista que resista à pressão de Washington e Pequim na disputa por influência sobre recursos estratégicos da região.

Um governo De la Espriella ou Valencia empurra a Colômbia para um bloco de segurança mais duro, com provável aproximação militar dos Estados Unidos e de Israel, revisão de compromissos ambientais e flexibilização de regulações para o setor extrativista. Em vez de cooperação com o Brasil em negociações climáticas, cresce a possibilidade de alianças com governos que priorizam mineração e petróleo em áreas sensíveis, o que afeta diretamente a posição brasileira em conferências globais.

Em Brasília, o Planalto acompanha a disputa como um laboratório do que o eleitor brasileiro pode decidir em quatro meses. A Colômbia testa, antes, a mesma pergunta: o eleitorado diante de uma insegurança persistente e de frustrações econômicas busca reformas graduais ou aposta em uma resposta de choque. O resultado deste domingo não fecha o ciclo, mas oferece um roteiro inicial. As urnas colombianas indicam se Lula continuará falando em nome de um bloco regional ou se passará a defender, quase sozinho, um projeto de esquerda que hoje parece mais sitiado do que hegemônico.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *