Juventude, Mirassol e São Paulo se juntam a Fla e Palmeiras na elite financeira
Juventude, Mirassol e São Paulo fecham 2025 com avanço raro nas contas e se aproximam, em gestão, de Flamengo e Palmeiras. Relatório Convocados 2026, divulgado nesta quinta-feira (28), aponta superávits, queda de dívidas e desempenho operacional positivo em clubes das Séries A e B.
Relatório expõe nova fronteira da gestão no futebol brasileiro
O estudo, produzido por Convocados e OutField com patrocínio da Galapagos Capital, joga luz sobre um movimento que vai além dos gigantes de receita. Flamengo e Palmeiras seguem na dianteira, com faturamentos recordes em 2025 de R$ 2 bilhões e R$ 1,7 bilhão, respectivamente. O dado que surpreende, porém, está fora do eixo tradicional: clubes de menor exposição nacional começam a exibir contas ajustadas e estruturas mais sustentáveis.
O relatório destaca que Juventude, Mirassol e São Paulo reagem a um cenário em que, por anos, déficit e endividamento pareciam regra. A combinação de aumento de receitas, controle de custos e decisões mais racionais no mercado começa a produzir efeitos visíveis em balanços e no campo. A fotografia de 2025, apresentada em 28 de maio de 2026, mostra um futebol brasileiro menos dependente de manobras de curto prazo e mais atento à saúde financeira.
Mirassol vira caso exemplar ao subir e se equilibrar nas contas
O Mirassol, clube do interior paulista, transforma o acesso à Série A em alavanca financeira e esportiva. Em 2025, o time termina seu primeiro Brasileirão na elite na quarta colocação e conquista vaga na Copa Libertadores deste ano, em que já avança às oitavas de final. Esse desempenho em campo vem acompanhado de números raros entre clubes médios: crescimento relevante de receitas, lucro operacional e ausência de ressalvas nas demonstrações financeiras.
O estudo aponta que o Mirassol apresenta EBITDA positivo nas duas métricas usadas pelo relatório. Na prática, significa que o clube gera lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, sem depender de artifícios contábeis ou vendas pontuais de jogadores. O time também aparece como “aplicador líquido”: mantém mais dinheiro em caixa do que dívidas a pagar, algo incomum num ambiente em que muitos clubes ainda convivem com atrasos e renegociações.
O documento resume o caso do Mirassol de forma direta ao afirmar que não há, hoje, um ponto crítico nas finanças do clube. A combinação de acesso à Série A, aumento de cotas de TV, melhores contratos comerciais e controle de gastos permite que o time invista no elenco sem comprometer o futuro. O gol de Nathan Fogaça na Libertadores, celebrado como símbolo da nova fase, é sustentado por uma base financeira que o relatório trata como sólida.
Juventude cai de divisão, mas sobe na qualidade da gestão
O Juventude vive trajetória inversa no campo, mas positiva nas contas. Rebaixado para a Série B em 2025, o clube de Caxias do Sul encerra o ano com desempenho operacional positivo nas duas métricas avaliadas pelo Convocados 2026. As contas estão no azul tanto antes quanto depois de operações não recorrentes, sinal de que o dia a dia financeiro é saudável.
O relatório destaca ainda a chamada “dívida líquida negativa” do Juventude. Na prática, o clube tem mais caixa do que compromissos financeiros, o que o coloca em rara posição de conforto entre seus pares. As demonstrações financeiras também aparecem sem ressalvas dos auditores, outro indicativo de organização interna e transparência contábil.
O ponto de alerta está na estagnação das receitas. O rebaixamento limita exposição, patrocínios e cotas de TV, o que restringe a capacidade de crescer sem perder o equilíbrio atual. A direção se vê diante de um dilema típico de clubes médios: como manter prudência financeira e, ao mesmo tempo, montar elenco competitivo para tentar o retorno imediato à Série A.
São Paulo respira com superávit, mas segue vigiado pelo passado
O São Paulo, acostumado a conviver com pressão esportiva e déficits, enfim encontra algum fôlego. O clube fecha 2025 com superávit de R$ 56 milhões e reduz a dívida total em R$ 110 milhões, segundo o Convocados 2026. O relatório aponta crescimento das receitas com transferências de atletas, queda do endividamento e cortes na folha salarial e no ritmo de contratações.
A fotografia, porém, não é totalmente limpa. As demonstrações financeiras do São Paulo ainda carregam ressalvas de auditoria, a ponto de o balanço oficial não ser aprovado de primeira pelo Conselho do clube. O EBITDA recorrente continua negativo, o que indica dependência de vendas de jogadores para fechar as contas. Sem esse fluxo, a operação do dia a dia ainda não se sustenta sozinha.
O estudo descreve um clube em transição. Há sinais claros de ajuste, mas o peso de anos de descontrole impede uma virada imediata. A alavancagem, medida que relaciona dívida e capacidade de geração de caixa, ainda está acima da faixa considerada de equilíbrio. O desafio da gestão tricolor em 2026 passa por manter o rigor nos gastos, diversificar receitas e reduzir a dependência de negociações de atletas sem comprometer a competitividade do elenco.
Flamengo e Palmeiras consolidam hegemonia financeira
Enquanto clubes médios se organizam, Flamengo e Palmeiras consolidam um patamar próprio no futebol brasileiro. O time rubro-negro encerra 2025 com R$ 2 bilhões em receitas, novo recorde nacional. O Palmeiras fecha o ano com R$ 1,7 bilhão, mantendo a vice-liderança em faturamento. Os números, citados no Convocados 2026, reforçam a distância financeira entre os dois e a maioria dos concorrentes.
A diferença, porém, não apaga o avanço observado em Juventude, Mirassol e São Paulo. A leitura do relatório é que a sustentação da competitividade interna depende justamente de mais clubes com finanças equilibradas. Quando a base financeira se amplia, o campeonato tende a ficar menos previsível e mais atraente para torcedores, patrocinadores e plataformas de mídia.
Impacto imediato em patrocínios, mercado e planejamento
O desempenho positivo de 2025 já influencia conversas de bastidor no mercado. Clubes com endividamento controlado e demonstrações sem ressalvas se tornam mais atrativos para patrocinadores e investidores institucionais. A figura do “aplicador líquido” ganha peso em reuniões com bancos e fundos, que passam a enxergar menos risco de calote e mais capacidade de cumprimento de contratos de longo prazo.
O relatório também pressiona, por contraste, quem mantém modelos de gestão baseados em adiantamentos de receitas e dívidas crescentes. A comparação com Juventude e Mirassol, que sobrevivem com contas ajustadas mesmo fora dos grandes centros, tira das diretorias o argumento de que equilíbrio financeiro é incompatível com ambição esportiva. O quarto lugar do Mirassol em sua estreia na Série A é tratado como evidência de que investir dentro do orçamento não significa abrir mão de disputar vagas em Libertadores.
Transparência como ativo e os próximos capítulos
A transparência passa a ser um ativo competitivo. Clubes com balanços auditados sem ressalvas tendem a acessar crédito mais barato e negociar contratos de patrocínio com prazos maiores. A percepção de risco menor influencia desde acordos de naming rights até parcerias regionais. A clareza dos números ajuda também a relação com a torcida, cada vez mais atenta a gastos e endividamento após sucessivas crises no futebol brasileiro.
O Convocados 2026 projeta que a próxima temporada será um teste de consistência. Mirassol precisa mostrar que o bom ano não é um ponto fora da curva. Juventude tenta converter equilíbrio financeiro em retorno rápido à Série A sem se arriscar demais. São Paulo encara a missão de transformar superávit pontual em rotina, reduzindo de forma estrutural a dependência de vendas de atletas. A pergunta que fica para 2026 é se esse grupo de clubes conseguirá manter a disciplina quando a bola, as arquibancadas e o mercado cobrarem novos investimentos.
