Papa Leão XIV lança encíclica sobre IA e doutrina social
O papa Leão XIV assina nesta quinta-feira, no Vaticano, a encíclica Magnifica Humanitas, exatamente 135 anos após a Rerum Novarum. O novo texto reivindica a herança de Leão XIII e atualiza a doutrina social da Igreja diante da inteligência artificial.
Igreja mira a era dos algoritmos
A escolha da data não é acidental. Publicada em 15 de maio de 1891, a Rerum Novarum marca o nascimento da doutrina social moderna da Igreja ao enfrentar a questão operária na Revolução Industrial. Um século e quase meio depois, Magnifica Humanitas tenta fazer o mesmo gesto em relação à revolução digital e ao avanço da inteligência artificial, que transforma trabalho, política, economia e relações pessoais em ritmo acelerado.
Ao adotar o nome de Leão XIV, o pontífice se coloca explicitamente na linha de continuidade com Leão XIII, o autor da Rerum Novarum. A nova encíclica, com mais de 150 páginas e dividida em quatro partes, busca redesenhar o papel da Igreja nos debates sobre tecnologia, ética e poder. Segundo assessores próximos ao Vaticano, o texto afirma que “nenhum algoritmo pode substituir a consciência humana” e que o desenvolvimento tecnológico “deve servir à dignidade da pessoa, não ao lucro sem rosto”.
Herança de Leão XIII, riscos do século 21
Magnifica Humanitas surge num momento em que governos correm para regular sistemas de inteligência artificial generativa, usados por empresas avaliadas em bilhões de dólares. Em 2023, a União Europeia aprova o chamado AI Act, primeiro arcabouço amplo de regras para o setor. Em paralelo, a Unesco organiza diretrizes éticas que já reúnem mais de 190 países signatários. A Igreja entra nesse cenário oferecendo uma leitura moral de longo prazo, que mira não apenas o uso imediato da tecnologia, mas seus efeitos sobre a condição humana nas próximas décadas.
No texto, Leão XIV retoma expressões clássicas da doutrina social – como “destinação universal dos bens” e “primazia do trabalho sobre o capital” – e as aplica à economia de dados e ao poder das grandes plataformas. A encíclica alerta para o risco de concentração de informação em poucas empresas, que controlam dados de bilhões de pessoas e influenciam eleições, crédito e acesso a serviços básicos. “Uma sociedade que entrega suas decisões mais delicadas a sistemas opacos abdica, aos poucos, da própria liberdade”, escreve o papa, em um dos trechos centrais do documento.
A referência a Leão XIII aparece já na introdução, quando Leão XIV cita textualmente a frase “as novas coisas não devem esmagar o homem, mas libertá-lo para o bem”. O contexto é outro, mas a preocupação é parecida: se em 1891 a ameaça vinha das fábricas e da exploração industrial, agora o foco recai sobre automação, vigilância em massa e exclusão digital. O pontífice lembra que, em menos de dez anos, estimativas da Organização Internacional do Trabalho falam em centenas de milhões de postos de trabalho parcial ou totalmente automatizados em todo o mundo, especialmente em funções repetitivas de serviços e indústria.
Impacto na política, nas empresas e na vida cotidiana
A encíclica não tem força de lei civil, mas orienta os 1,3 bilhão de católicos espalhados por mais de 190 países. Na prática, influencia posicionamentos de conferências episcopais, universidades católicas, hospitais, escolas e obras sociais, muitas delas diretamente envolvidas com educação tecnológica e tratamento de dados sensíveis. Ao tratar de inteligência artificial, o texto pede que instituições católicas adotem, em até cinco anos, políticas transparentes de uso de algoritmos, incluindo auditorias independentes e proteção reforçada de dados de crianças e pacientes.
O papa também fala a governos e empresas. Magnifica Humanitas pede que Estados criem regras claras contra o uso de IA para manipulação política, discriminação em crédito e seguros e vigilância total de trabalhadores. No campo econômico, o documento defende tributação progressiva sobre ganhos extraordinários obtidos com automação massiva, para financiar programas de requalificação profissional e renda mínima. “A inovação que descarta milhões aos resíduos do progresso deixa de ser inovação e se torna injustiça”, afirma Leão XIV.
Entre especialistas em tecnologia, o texto tende a reverberar como uma crítica à ideia de neutralidade dos sistemas automatizados. Ao insistir na responsabilidade humana em todas as etapas – concepção, programação, implantação e fiscalização –, a encíclica questiona a delegação de decisões a modelos matemáticos cuja lógica permanece secreta. Organizações de direitos humanos veem espaço para usar o documento como argumento em fóruns da ONU e em negociações sobre um possível tratado global de IA, ainda em discussão informal em Genebra.
Dentro da própria Igreja, a publicação deve reordenar prioridades. Departamentos de pastoral social, missões em periferias urbanas e organismos de justiça e paz ganham respaldo para incluir temas digitais no centro de suas ações. Questões como acesso à internet de qualidade, proteção de dados de populações vulneráveis e impacto da automação em regiões já marcadas pelo desemprego entram, de forma mais explícita, no radar pastoral e político das dioceses.
Debate global e os próximos movimentos do Vaticano
A assinatura de Magnifica Humanitas pode acelerar conversas com outras tradições religiosas que já discutem tecnologia de forma organizada. Líderes budistas, rabinos e autoridades muçulmanas mantêm, desde meados da década de 2010, fóruns sobre ética digital e inteligência artificial. Com a nova encíclica, o Vaticano sinaliza que pretende participar de maneira mais ativa dessas mesas, oferecendo uma visão que combina tradição filosófica com experiência em mediação diplomática.
Nos próximos meses, a expectativa é que a Santa Sé apresente um conjunto de propostas concretas em encontros multilaterais, inclusive no G20 e em conferências da ONU. Assessorias do Vaticano indicam que Leão XIV pretende criar, até o fim de 2026, um observatório permanente sobre inteligência artificial e dignidade humana, ligado à Pontifícia Academia para a Vida. O órgão deve reunir cientistas, juristas, teólogos e representantes da sociedade civil, com a missão de acompanhar, ano a ano, os impactos da tecnologia sobre trabalho, desigualdade e direitos fundamentais.
A nova encíclica encerra lembrando que a Igreja não oferece soluções técnicas, mas critérios éticos. Ao colocar a inteligência artificial no centro da doutrina social, o papa aposta que as decisões tomadas nesta década definirão o equilíbrio entre inovação e humanidade para todo o século 21. A dúvida, agora, é se governos, empresas e cidadãos estão dispostos a transformar esse alerta em políticas concretas, antes que os algoritmos se tornem tão invisíveis quanto incontornáveis.
