Irã condena ameaça de Trump a Omã e reage a ataques dos EUA
O governo do Irã condena nesta quinta-feira (28) as ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de “explodir” Omã e reage a novos ataques americanos contra seu território. Teerã reafirma solidariedade ao vizinho do Golfo e diz que o controle do Estreito de Ormuz será decidido apenas entre países da região, em meio à escalada militar nos últimos dois dias.
Irã desafia ameaça americana e se alinha a Omã
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmaeil Baqaei, usa linguagem incomum até para os padrões de Teerã. Em comunicado divulgado entre a noite de quarta (27) e a manhã desta quinta (28), ele condena o que chama de “retórica ameaçadora de autoridades americanas contra o Irã e alguns outros países da região” e presta solidariedade explícita ao “país amigo e irmão de Omã”.
A reação vem poucas horas depois de Trump declarar que o Estreito de Ormuz “estará aberto a todos” e que os Estados Unidos “o vigiarão”. O presidente também envia um recado direto a Mascate. “Omã se comportará como todos os outros ou teremos que explodi-los”, afirma, em fala que choca chancelerias do Golfo e amplia a incerteza sobre a segurança na principal rota marítima de petróleo do mundo.
O Estreito de Ormuz, com pouco mais de 50 quilômetros em seu ponto mais estreito, canaliza diariamente a saída de ao menos 6 milhões de barris de petróleo, segundo estimativas de agências da região. A maior parte dos embarques tem como destino mercados asiáticos e europeus. Um bloqueio parcial ou mesmo a simples percepção de risco costuma ser suficiente para disparar prêmios de seguro e encarecer o frete de petroleiros.
Em resposta às falas de Trump, o Itamaraty iraniano reforça que “a gestão do estreito não tem relação com os Estados Unidos” e que qualquer coordenação sobre segurança marítima será feita “em cooperação direta com Omã e demais países ribeirinhos”. O posicionamento ecoa declarações anteriores de autoridades iranianas, mas ganha novo peso ao mencionar nominalmente o vizinho alvo das ameaças da Casa Branca.
O endurecimento do discurso acontece enquanto o Irã tenta se reposicionar como peça central de um arranjo regional, em vez de simples antagonista de Washington. Ao apoiar Omã, país tradicionalmente discreto e visto como mediador em crises do Golfo, Teerã tenta forjar um eixo político capaz de limitar a margem de manobra americana na hidrovia.
Ataques em Bandar Abbas e risco ao fluxo de petróleo
O comunicado do Ministério das Relações Exteriores não se restringe ao embate retórico. Baqaei “condena veementemente” os novos ataques dos EUA à cidade portuária de Bandar Abbas, situada a poucos quilômetros do Estreito de Ormuz. Ele descreve as ações como “agressões contra a integridade territorial e a soberania nacional do Irã”.
Bandar Abbas abriga instalações navais, depósitos de combustível e estruturas de apoio ao tráfego de petroleiros. O governo não detalha o número de alvos atingidos nem oferece balanço de danos, mas fontes ligadas às forças de segurança falam em “danos limitados a estruturas militares e logísticas”. A região já registra, desde o início da semana, maior presença de embarcações de guerra e sobrevoos de drones.
Um oficial americano, citado por agências internacionais sob condição de anonimato, descreve as ações de Washington como “ponderadas, puramente defensivas e destinadas a manter o cessar-fogo”. Segundo ele, os ataques teriam mirado pontos considerados ameaça a tropas dos EUA e à navegação comercial. O governo americano tenta sustentar a narrativa de que reage a provocações iranianas, e não inicia novas frentes de confronto.
Teerã discorda. Em resposta direta aos bombardeios, a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC, na sigla em inglês) lança, entre a noite de quarta e a madrugada de quinta, um ataque contra uma base americana não identificada na região. A mídia estatal iraniana afirma que a instalação era usada como plataforma de operações dos EUA contra alvos no país. Washington não confirma a localização nem a extensão dos danos, mas admite “interações militares limitadas” nas últimas 24 horas.
A troca de golpes ameaça o delicado equilíbrio de forças ao redor do estreito. Empresas de navegação e seguradoras, sobretudo em Londres e Dubai, acompanham o quadro com atenção. Uma escalada que envolva restrições de passagem, inspeções mais rígidas ou episódios de tiros de advertência pode encarecer em até dois dígitos percentuais os custos de envio por barril, o que tende a pressionar o preço internacional do petróleo.
Países dependentes de importações de energia do Golfo, como Japão, Coreia do Sul e Índia, já calculam cenários alternativos. Mesmo um aumento moderado na volatilidade das cotações se reflete em combustível mais caro, inflação pressionada e revisões de crescimento. O impacto político recai sobre governos que, a milhares de quilômetros do Golfo, pouco controlam o desenrolar da crise.
Escalada regional e incerteza sobre próximos passos
A crise atual se insere em um histórico de disputas em torno do Estreito de Ormuz, que ganha relevância desde a década de 1980, na guerra Irã-Iraque. Ao longo dos últimos 40 anos, cada episódio de tensão entre Teerã e Washington se traduz em testes de limites nessa faixa estreita de mar que separa o Golfo Pérsico do Golfo de Omã.
Desta vez, o elemento novo é a ameaça direta a Omã, país de cerca de 5,7 milhões de habitantes e baixa projeção militar, mas posição geográfica estratégica. Ao prometer que o país “se comportará como todos os outros ou teremos que explodi-los”, Trump amplia o raio de tensão para além do confronto bilateral com o Irã e envia um recado aos demais aliados e rivais no Golfo.
O alinhamento público de Teerã a Mascate fortalece alianças regionais que, a depender da evolução dos fatos, podem servir tanto de barreira quanto de combustível para novos embates. Se Omã optar por reforçar a coordenação com o Irã na gestão do estreito, Washington pode encarar o gesto como desafio direto à sua presença naval e às patrulhas que realiza há décadas na área.
Diplomatas na região falam em movimento de bastidores para tentar conter a escalada. Países com canais abertos tanto com Washington quanto com Teerã, como Catar e Turquia, sondam possibilidades de retomada de conversas indiretas. Até o momento, porém, não há anúncio de iniciativa formal de mediação nem indicação de encontro de alto nível entre as partes.
A cada novo ataque ou ameaça pública, o espaço político para concessões se estreita. Lideranças iranianas enfrentam pressão interna para reagir com firmeza às ações dos EUA, enquanto Trump calcula os custos domésticos de um conflito prolongado em pleno calendário eleitoral. O risco é que decisões militares tomadas em horas de tensão definam, por anos, a forma como o mundo acessa parte essencial do petróleo que consome.
Os próximos dias devem mostrar se prevalece a lógica da dissuasão, com ataques pontuais e recados calibrados, ou se a região caminha para um confronto mais aberto. A resposta de Washington à ofensiva da Guarda Revolucionária e a capacidade de países do Golfo de atuarem como amortecedores diplomáticos indicarão se o Estreito de Ormuz continuará sendo apenas um termômetro das crises do Oriente Médio ou se se transformará, de novo, em seu epicentro.
