EUA e Irã trocam novos ataques e elevam risco em Ormuz
Estados Unidos e Irã realizam novos ataques e disparos de advertência no Estreito de Ormuz nesta quarta-feira (28), reacendendo o temor de uma escalada militar na principal rota de petróleo do mundo. A ofensiva envolve drones, navios e bases militares em uma região já pressionada por um cessar-fogo frágil e negociações de paz sem acordo definitivo.
Confronto em rota estratégica do petróleo
No fim da noite, fontes militares americanas e veículos estatais iranianos descrevem uma sequência de ações que transforma o estreito em palco de confronto direto. Um oficial dos EUA, ouvido pela Reuters sob condição de anonimato, afirma que forças americanas atacam uma instalação militar iraniana em Bandar Abbas, cidade portuária estratégica próxima a Ormuz, considerada ameaça às tropas dos EUA e ao tráfego marítimo comercial.
O mesmo oficial relata que militares americanos derrubam ao menos quatro drones iranianos, classificados como risco imediato para navios militares e cargueiros que cruzam o estreito. A região concentra cerca de 20% do petróleo transportado por mar no planeta e qualquer interrupção no fluxo tem potencial de mexer com preços globais em poucos dias.
Agências semioficiais iranianas descrevem um quadro diferente, mas igualmente tenso. A Fars informa que três explosões são ouvidas em Bandar Abbas, levando à ativação breve de sistemas de defesa aérea. Autoridades locais dizem que as causas ainda estão em investigação, mas não detalham danos ou vítimas.
Horas depois, a mídia estatal iraniana afirma que quatro embarcações tentam cruzar o Estreito de Ormuz sem coordenação com as forças de segurança do país. Segundo os iranianos, militares disparam tiros de advertência e obrigam os navios a recuar. A Tasnim, outra agência semioficial, vai além e diz que a Guarda Revolucionária Islâmica atira contra um “petroleiro americano”, forçando a embarcação a se afastar.
Em resposta, ainda de acordo com a Tasnim, os Estados Unidos realizam disparos contra uma área deserta próxima a Bandar Abbas, numa tentativa de enviar recado militar sem atingir alvos civis. Washington não confirma oficialmente esse ponto, mas um oficial americano já havia dito à CNN que forças dos EUA atacam uma estação iraniana de controle de drones na região e neutralizam quatro aparelhos não tripulados.
Guerra prolongada, pressão interna e impasse diplomático
A troca de ataques ocorre três dias depois de os EUA anunciarem, na segunda-feira (25), “ataques defensivos” contra embarcações iranianas e locais de lançamento de mísseis nas proximidades de Ormuz. O Pentágono argumenta que age para proteger tropas e garantir a liberdade de navegação, princípio central da política de segurança americana no Golfo Pérsico desde os anos 1980.
Teerã apresenta outra narrativa. A Guarda Revolucionária afirma ter lançado um ataque contra uma base aérea americana, que, segundo o grupo, serve de origem para as ofensivas dos EUA contra alvos iranianos. O comunicado, divulgado pela mídia estatal, não especifica o país em que a base está localizada. Os EUA mantêm instalações militares em vários pontos do Oriente Médio, como Catar, Bahrein, Kuwait e Emirados Árabes.
O episódio expõe o desgaste de um cessar-fogo firmado no início de maio e vendido como passo inicial rumo a um acordo mais amplo de paz. Paquistão tenta mediar as conversas, mas os encontros não produzem, até agora, um documento capaz de encerrar a guerra iniciada no fim de fevereiro. A duração do conflito ultrapassa, com folga, a previsão inicial do presidente dos EUA, Donald Trump, que fala em “quatro a seis semanas” nos primeiros dias da ofensiva e em outros momentos sugere um desfecho em “poucos dias”.
Na quarta-feira, antes da nova rodada de ataques, Trump volta a minimizar o impacto político de uma guerra longa com o Irã, apesar das eleições legislativas de meio de mandato marcadas para novembro. Em reunião de gabinete na Casa Branca, o presidente diz que a liderança iraniana aposta no desgaste doméstico em Washington. “Eles achavam que iriam me vencer pelo cansaço. ‘Vamos cansá-lo. Ele tem as eleições de meio de mandato’. Eu não me importo com as eleições de meio de mandato”, declara.
As falas contrastam com a pressão crescente dentro do próprio Partido Republicano. Parlamentares cobram um plano claro de saída e alertam para o custo econômico da guerra, que já pressiona o preço da gasolina em vários estados americanos. Em algumas regiões, o galão de combustível supera com folga valores registrados antes do início do conflito, alimentando insatisfação de consumidores e preocupação de candidatos republicanos em disputa apertada.
Além do front externo, Trump enfrenta críticas por priorizar projetos de construção em Washington, como reformas na Casa Branca e planos de novos monumentos, em meio à escalada militar. Aliados reclamam, em privado, de um governo dividido entre guerra, campanha e obras simbólicas na capital.
Risco global, mercado de energia e próximos passos
A instabilidade no Estreito de Ormuz se torna o principal fator de risco imediato para a economia mundial. O canal estreito entre Irã e Omã controla o escoamento diário de dezenas de milhões de barris de petróleo e gás. Qualquer interrupção, mesmo breve, tem potencial de elevar preços em 5% a 10% em questão de dias, afetando desde a conta de luz na Europa até subsídios a combustíveis em países asiáticos.
Empresas de navegação e seguradoras já revisam rotas, contratos e prêmios de risco para embarcações que cruzam a região. Operadores de mercado monitoram com atenção cada comunicado de Washington e Teerã, na tentativa de antecipar movimentos de oferta e demanda. Países dependentes de importações de energia do Golfo, como Japão, Coreia do Sul e Índia, avaliam estoques estratégicos e alternativas de abastecimento.
Uma escalada aberta entre EUA e Irã, com ataques diretos a navios civis ou bloqueios formais da passagem, poderia forçar uma resposta mais dura de aliados ocidentais, com novas sanções e pressão diplomática coordenada. Governos europeus já defendem, nos bastidores, mecanismos de inspeção adicionais e canais de comunicação direta entre as marinhas para evitar erros de cálculo.
O fracasso, até agora, das negociações de paz amplia o receio de um conflito prolongado, fragmentado entre ataques pontuais, operações de sabotagem e avanços graduais no campo militar. Cada novo episódio em Ormuz serve de teste para a disposição das partes em voltar à mesa ou dobrar a aposta no confronto.
No curto prazo, diplomatas veem três variáveis principais: a capacidade de Paquistão e outros mediadores de manter as partes falando, o humor do Congresso americano diante da pressão econômica interna e o cálculo da liderança iraniana sobre os custos de enfrentar diretamente a maior potência militar do mundo.
O estreito segue aberto, mas cercado por navios de guerra, radares e discursos inflamados. A dúvida, agora, é se a rota continua sendo apenas um termômetro das tensões ou se se torna o epicentro de uma crise maior, com impacto duradouro sobre a segurança global e o bolso de quem depende, diariamente, do petróleo que passa por ali.
