Flávio Bolsonaro discute com Marco Rubio rotular facções como terroristas
O senador Flávio Bolsonaro se reúne nesta quarta-feira (27), nos Estados Unidos, com Marco Rubio, vice de Donald Trump e secretário de Estado. Os dois discutem a possível classificação de facções criminosas brasileiras como grupos terroristas e temas ligados à liberdade de expressão.
Reunião em meio a tensão política e disputa por narrativa
O encontro ocorre em um momento de sensibilidade nas relações entre Brasília e Washington. A pauta cruza duas áreas que hoje concentram atritos nos dois países: combate ao crime organizado e limites da atuação do Estado sobre discursos na internet e na política. A reunião integra a agenda oficial da visita de Flávio aos EUA e é apresentada por aliados como gesto para “recolocar o Brasil no centro da cooperação de segurança” com o governo Trump.
Do lado americano, Marco Rubio tenta consolidar sua imagem de articulador de uma política externa mais dura com o crime transnacional no hemisfério. Interlocutores nos dois governos afirmam que a discussão sobre rotular facções brasileiras como grupos terroristas responde à pressão de órgãos de segurança dos EUA, que apontam a atuação dessas organizações em fronteiras, rotas de drogas e lavagem de dinheiro em dólares. A conversa, porém, entra em área delicada ao tocar também em alegadas restrições à liberdade de expressão no ambiente político brasileiro após 2023.
O que está em jogo com o rótulo de terrorismo
A eventual designação de facções como organizações terroristas, no modelo usado pelos EUA desde a década de 1990, abriria espaço para congelar ativos em bancos americanos, interditar transações em dólar e ampliar a cooperação de inteligência. Na prática, permitiria que agências como o Departamento do Tesouro e o FBI tratassem lideranças do crime organizado brasileiro com o mesmo enquadramento jurídico aplicado hoje a células ligadas a grupos como Hezbollah ou Estado Islâmico. A mudança afetaria diretamente operações de tráfico que utilizam portos brasileiros e americanos e empresas de fachada para escoar recursos ilícitos.
No Brasil, o tema pressiona Congresso, Itamaraty e forças de segurança. Uma eventual decisão dos EUA tende a acelerar projetos de lei que tentam aproximar o conceito jurídico de terrorismo da realidade das facções, hoje enquadradas principalmente em leis de organização criminosa e lavagem de dinheiro. Integrantes do Ministério da Justiça avaliam, em reservado, que um rótulo externo de terrorismo pode reforçar pedidos de extradição, acordos de delação e ações conjuntas em ao menos três frentes: bloqueio de bens, cooperação de polícia judiciária e controle de fronteiras na tríplice divisa entre Brasil, Paraguai e Argentina.
Liberdade de expressão entra na pauta bilateral
A inclusão da liberdade de expressão na agenda amplia o alcance político da reunião. Aliados de Flávio Bolsonaro cobram dos EUA uma sinalização sobre decisões judiciais brasileiras que restringem contas em redes sociais, removem perfis e investigam parlamentares por discursos considerados antidemocráticos. A interlocutores, o senador afirma querer “sensibilizar” o governo Trump para o que chama de “clima de intimidação contra vozes conservadoras” no Brasil. A conversa interessa também à campanha republicana, que sustenta, desde 2020, o discurso de que grandes plataformas digitais e parte do Judiciário atuam para silenciar apoiadores de Trump.
O governo americano, porém, trata o tema com cautela. A tradição diplomática dos EUA evita intervenções diretas em decisões de cortes estrangeiras, mas o debate sobre regulação de conteúdo online também avança internamente. Projetos no Congresso americano tentam limitar o poder de empresas de tecnologia sobre o alcance de publicações políticas. Em relatórios recentes, entidades civis nos dois países alertam para o risco de que o argumento da segurança nacional sirva tanto para perseguir opositores quanto para blindar discursos de ódio e desinformação. É nesse equilíbrio instável que a reunião se insere.
Impacto esperado na segurança e na política interna
Especialistas em segurança calculam que uma designação formal de grupos brasileiros como terroristas pelos EUA poderia dobrar, em poucos anos, o volume de investigações financeiras cruzadas entre os dois países. Hoje, segundo dados da Receita Federal e de órgãos americanos, operações conjuntas de combate à lavagem de dinheiro somam centenas de milhões de reais em bens bloqueados desde 2019. Com o novo enquadramento, o cerco jurídico passaria a atingir também intermediários, operadores cambiais e empresas de fachada que atuam fora do Brasil, inclusive em paraísos fiscais.
Setores da diplomacia alertam, por outro lado, para possíveis efeitos colaterais. O uso do termo terrorismo em disputas internas brasileiras pode acirrar a polarização e alcançar movimentos sociais, sindicatos e organizações de base, caso o conceito seja alargado. Juristas lembram que a lei antiterrorismo aprovada em 2016 já nasceu sob crítica de defensores de direitos humanos, que buscaram blindar manifestações políticas e greves. Uma guinada agora, impulsionada por pressão externa, tende a reacender a disputa entre quem cobra mão mais pesada e quem teme criminalização da dissidência.
Próximos passos e sinais a observar
O desfecho do encontro não produz efeitos automáticos, mas define o tom da cooperação nos próximos meses. Caso a conversa avance para negociações formais, diplomatas esperam a criação de grupos de trabalho em até 90 dias, com metas de compartilhamento de dados, padronização de listas de suspeitos e propostas de novas convenções bilaterais. O Congresso brasileiro pode ser chamado a votar, ainda em 2026, mudanças pontuais na Lei de Organizações Criminosas e na lei antiterrorismo, para compatibilizar a legislação com exigências americanas.
No campo político, o gesto de Flávio Bolsonaro tende a ser explorado na disputa interna pela narrativa sobre segurança pública e liberdade de expressão. Aliados apostam em dividendos eleitorais ao apresentá-lo como ponte com um parceiro estratégico que responde por cerca de US$ 100 bilhões em fluxo comercial anual com o Brasil. Críticos enxergam risco de alinhamento automático à agenda de Trump e de uso seletivo da pauta do terrorismo para perseguir adversários. A reunião com Marco Rubio não encerra esses dilemas; apenas antecipa uma pergunta que deve atravessar o restante de 2026: até onde o combate ao crime e a proteção da palavra podem caminhar lado a lado sem atropelar a democracia?
