Zelensky cobra mais sistemas Patriot dos EUA em meio a avanço russo
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, cobra dos Estados Unidos o envio urgente de mais sistemas de defesa aérea Patriot em carta enviada ao presidente e ao Congresso, no fim de maio de 2026. O apelo é reforçado em pronunciamento diário em vídeo, em que ele alerta para uma guerra que, segundo suas palavras, continua “muito sangrenta” na Europa.
Zelensky fala em escassez e mira Casa Branca e Congresso
Zelensky decide elevar o tom justamente quando a guerra na Ucrânia perde espaço nas manchetes internacionais. Em sua mensagem diária em vídeo, o presidente afirma que a atenção global se volta para outros conflitos, incluindo a guerra no Irã, mas insiste que o front europeu segue em chamas e precisa de novas garantias de proteção aérea.
O ponto central do apelo está em uma carta enviada à Casa Branca e aos parlamentares em Washington. No documento, Zelensky descreve uma “grave escassez” de meios de defesa, concentrando o foco nos sistemas Patriot, produzidos nos Estados Unidos e considerados hoje a principal barreira contra mísseis balísticos russos.
Segundo o presidente, a Ucrânia depende “quase exclusivamente” dessa plataforma como “a defesa mais eficaz” contra esse tipo de ataque. Ele afirma que os mecanismos atuais de fornecimento não acompanham mais a escala da ofensiva russa, que volta a testar, com frequência crescente, a capacidade ucraniana de proteger suas principais cidades e infraestrutura energética.
O alerta ganha força após um ataque massivo no domingo, dia 24. De acordo com a Força Aérea da Ucrânia, a Rússia lança 30 mísseis balísticos em uma única ofensiva. Apenas 11 são abatidos, um índice que escancara o esgotamento dos sistemas disponíveis e o desgaste acumulado após mais de dois anos de guerra em larga escala.
Defesa aérea sob pressão em guerra que se arrasta
A ofensiva russa por meio de mísseis se torna, desde o início da invasão em 2022, uma das principais ferramentas do Kremlin para desgastar a resistência ucraniana. Hospitais, subestações elétricas, depósitos de combustível e centros urbanos entram na mira, obrigando Kiev a gastar mísseis de defesa caros para proteger alvos civis e militares ao mesmo tempo.
Os sistemas Patriot se tornam peça-chave dessa equação. Diferentemente de baterias antiaéreas mais simples, eles conseguem rastrear e interceptar mísseis balísticos que viajam a altíssima velocidade e seguem trajetórias previsíveis apenas nos segundos finais. Cada bateria completa reúne lançadores, radares, posto de comando e uma equipe altamente treinada, o que torna o conjunto caro, complexo e difícil de repor com rapidez.
Desde 2023, os Estados Unidos e aliados europeus enviam algumas unidades do Patriot à Ucrânia, em meio a longas negociações políticas e forte pressão do Congresso americano. A cada nova onda de ataques russos, cresce a demanda por mais baterias e mais mísseis interceptores, que levam meses para sair da linha de produção e chegar à linha de frente.
O ataque de 24 de maio expõe essa fragilidade de forma numérica. Ao derrubar apenas 11 dos 30 mísseis lançados pela Rússia, a defesa ucraniana mostra que já não consegue cobrir todas as regiões críticas do país. Áreas industriais e cidades do interior ficam mais expostas, enquanto Kiev e alguns centros estratégicos continuam a ser priorizados.
O resultado é um cálculo constante de risco. Cada míssil que passa afeta a rede elétrica, interrompe serviços básicos, força evacuações e alimenta o cansaço de uma população que convive com alertas aéreos quase diários desde fevereiro de 2022. Ao mesmo tempo, cada míssil usado para interceptar um ataque consome estoques caros e escassos, o que reforça a urgência do pedido de Zelensky a Washington.
Pressão sobre Washington e incerteza para os próximos meses
O novo apelo a Joe Biden e ao Congresso americano recoloca a dependência ucraniana dos Estados Unidos no centro do tabuleiro. O governo em Kiev sabe que nenhuma outra potência ocidental consegue, hoje, repor em curto prazo o volume de baterias Patriot e mísseis interceptores que o país diz precisar para atravessar os próximos meses de ofensiva russa.
O debate em Washington não se limita ao custo financeiro. Cada lote adicional de Patriot enviado à Ucrânia precisa ser conciliado com as necessidades de defesa do próprio território americano e de aliados no Oriente Médio e na Ásia. A guerra no Irã, citada por Zelensky, disputa a mesma prateleira de sistemas avançados, o que amplia a disputa por prioridade estratégica dentro do Pentágono e do Congresso.
A carta e o pronunciamento público aumentam a pressão sobre parlamentares americanos que hesitam em ampliar cheques em branco para Kiev diante de um conflito sem prazo claro para terminar. Ao colocar números sobre a mesa, como o ataque de 30 mísseis com só 11 interceptações, o governo ucraniano tenta transformar abstrações geopolíticas em fatos militares palpáveis.
O impacto imediato do pedido se mede tanto nas decisões de envio de armamentos quanto no sinal político para Moscou. Caso Washington atenda rapidamente ao apelo, o Kremlin se depara com uma defesa mais robusta e menor margem de impacto dos ataques a longa distância. Se a resposta for lenta ou limitada, a Rússia ganha espaço para aumentar a pressão sobre cidades e linhas de suprimento ucranianas.
Os próximos meses tendem a mostrar até que ponto os Estados Unidos e seus aliados estão dispostos a sustentar, com sistemas de altíssimo custo como o Patriot, uma guerra que Zelensky descreve como “muito sangrenta” e que já redesenha o equilíbrio militar da Europa. A carta enviada a Washington funciona como aviso e teste: sem reforço na defesa aérea, a Ucrânia terá de escolher o que proteger, e o que ficará, inevitavelmente, desguarnecido.
