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Onda de calor histórica em maio expõe nova face da crise climática na Europa

Uma onda de calor histórica atinge a Europa Ocidental em maio de 2026 e quebra sucessivos recordes de temperatura. Reino Unido, França e Espanha enfrentam mortes, incêndios, falta de água e um alerta renovado sobre a aceleração da crise climática.

Recordes quebrados em plena primavera europeia

O calor foge ao padrão até para um continente que se acostuma a ver recordes caírem ano após ano. Desde domingo (24), uma poderosa cúpula de calor se instala sobre a Europa Ocidental e transforma o fim de maio em um verão fora de época. O sistema de alta pressão age como uma tampa, aprisiona o ar quente sobre a região e mantém as temperaturas em patamar excepcional por vários dias seguidos.

No Reino Unido, o impacto é imediato. Na segunda-feira (25), o país registra o dia mais quente de maio de sua história, com 34,8 °C nos Jardins Botânicos Reais de Kew, em Londres, dois graus acima do recorde anterior. Vinte e quatro horas depois, o marco já está superado: na terça-feira (26), os termômetros chegam a 35 °C, em uma cidade acostumada a ver, nessa época, máximas na casa dos 20 °C.

A escalada não se limita às tardes. O país atravessa uma “noite tropical”, quando as temperaturas não caem abaixo de 20 °C, condição rara na climatologia britânica e especialmente incômoda em um cenário em que só cerca de 5% das casas têm ar-condicionado. A combinação de calor persistente, pouca ventilação e construções preparadas para reter calor, e não para dispersá-lo, cria um ambiente perigoso para idosos, crianças e pessoas com doenças crônicas.

Um relatório divulgado na semana passada pelo Comitê de Mudanças Climáticas do Reino Unido soa quase premonitório. O documento afirma que o país foi “construído para um clima que não existe mais”. Agora, a frase ganha contornos concretos, enquanto autoridades tentam orientar a população a hidratar-se, evitar exercícios físicos intensos e procurar locais mais frescos durante as horas de maior calor.

O próprio serviço meteorológico britânico, o Met Office, admite o caráter excepcional do episódio. “Embora ocasionalmente tenhamos períodos de calor em maio, o que estamos vendo agora é sem precedentes”, diz Stephen Dixon, porta-voz da agência. Ele ressalta que as mudanças climáticas aumentam a probabilidade de novos recordes, mesmo em meses tradicionalmente amenos. “O que antes era um evento que ocorria cerca de uma vez a cada 100 anos, agora ocorre cerca de uma vez a cada 33 anos”, afirma.

Mortes na França, incêndios na Escócia e tensão na Espanha

A onda de calor não respeita fronteiras. Grande parte da Europa Ocidental enfrenta, nesta semana, temperaturas entre 10 °C e 15 °C acima da média para o período. Na Escócia, um incêndio florestal se espalha perto de Arthur’s Seat, colina emblemática em Edimburgo, em plena primavera. No sudeste da Inglaterra, centenas de propriedades ficam sem água após um pico repentino de demanda por causa do calor.

Na França, o calor assume contornos mais trágicos. O serviço meteorológico Météo France classifica as temperaturas como “sem precedentes” para maio. A segunda-feira se torna o dia de maio mais quente desde o início dos registros, e as primeiras estatísticas apontam para consequências fatais. Segundo a porta-voz do governo francês, Maud Bregeon, ao menos sete mortes têm ligação com o calor, cinco delas por afogamento, além de casos associados a eventos esportivos.

No domingo (24), um homem de 53 anos morre durante uma corrida em Paris, e uma mulher perde a vida em uma competição da Hyrox em Lyon. As autoridades ainda investigam as causas exatas, mas a ministra dos Esportes, Marina Ferrari, associa o cenário ao clima extremo. Para ela, as mortes são “um forte lembrete de que a prática de esportes em calor extremo exige vigilância absoluta”. As declarações reacendem o debate sobre protocolos de segurança em maratonas, provas de rua e torneios ao ar livre em dias de alta temperatura.

A Espanha enfrenta, na mesma semana, “temperaturas extraordinariamente altas para esta época do ano”, segundo a agência meteorológica AEMET. A previsão indica máximas próximas de 40 °C no sul do país na segunda metade da semana, patamar típico de julho e agosto. Governos regionais reforçam orientações a turistas e moradores, enquanto hospitais se preparam para uma possível alta de internações por insolação, desidratação e agravamento de doenças cardiovasculares.

Os números recentes ajudam a dimensionar o risco. Em 2024, ano mais quente já registrado no planeta, mais de 62 mil pessoas morrem na Europa por causas relacionadas ao calor, segundo estudos acadêmicos. A lembrança dessa estatística ronda gestores públicos e serviços de saúde em 2026, à medida que a atual onda de calor se intensifica e se soma a um sistema de alerta ainda em adaptação.

Europa na linha de frente da crise climática

O fenômeno meteorológico que sustenta a cúpula de calor é conhecido, mas ganha novas dimensões em um mundo mais quente. Sistemas de alta pressão persistentes comprimem o ar e o empurram para baixo, aquecendo-o e formando uma espécie de domo que impede a dispersão. Em um planeta com maior concentração de gases de efeito estufa, episódios assim se tornam mais prováveis, mais duradouros e mais intensos.

Os cientistas descrevem o calor atual como um dos sinais mais claros da crise climática. A queima de combustíveis fósseis — carvão, petróleo e gás — cobre a Terra com uma espécie de cobertor invisível que retém parte do calor que deveria escapar para o espaço. A Europa, segundo estudos recentes, é o continente que mais rapidamente se aquece, com taxas superiores à média global.

“Sabemos, sem sombra de dúvida, que ondas de calor como esta se tornaram mais prováveis e mais severas devido às mudanças climáticas”, afirma Peter Thorne, diretor do Centro de Pesquisa Climática ICARUS, da Universidade de Maynooth, na Irlanda. Ele reconhece, porém, que mesmo diante da teoria climática consolidada, os números ainda surpreendem. “Muitos dos recordes que estão sendo batidos, principalmente no Reino Unido e na França, são inacreditavelmente absurdos”, diz.

O cenário atual se soma à influência do El Niño, fenômeno natural que aquece as águas do Pacífico e costuma elevar a temperatura média do planeta. Com o evento ainda repercutindo em 2026, climatologistas projetam que 2026 e 2027 podem figurar entre os anos mais quentes já medidos. Mesmo assim, muitos alertam que o período poderá ser visto, no futuro, como “um dos anos mais frios” do século, à medida que o aquecimento global avança.

Governos locais começam a tratar o calor extremo como um problema de infraestrutura, e não apenas de previsão do tempo. Autoridades de saúde reforçam planos de emergência, cidades avaliam mudanças em horários escolares, transporte público e eventos esportivos, e empresas de energia se preparam para picos de consumo em meses historicamente mais suaves.

Próximos verões, novos riscos

A onda de calor de maio funciona como um ensaio duro para o verão que se aproxima e para os próximos anos. Especialistas alertam que episódios como o atual tendem a se repetir com maior frequência e impacto. Sem cortes profundos nas emissões de gases de efeito estufa, modelos climáticos apontam para verões cada vez mais longos, com mais “noites tropicais” e mais dias acima de 35 °C em regiões que antes mal conheciam esse patamar.

Governos europeus aceleram planos de adaptação, mas a resposta ainda é desigual. Cidades discutem desde a ampliação de áreas verdes e “ilhas de frescor” até reformas em prédios públicos para melhorar o isolamento térmico. Planos de emergência buscam proteger moradores de rua, idosos isolados e trabalhadores ao ar livre, que figuram entre os mais vulneráveis. A urgência climática, porém, extrapola fronteiras nacionais. Enquanto a cúpula de calor se mantém sobre parte da Europa, a pergunta nas mesas de negociação, nos parlamentos e nas casas é a mesma: o continente conseguirá adaptar-se a um clima que muda mais rápido do que suas políticas?

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