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Afegãs fogem de casamento forçado e desafiam veto do Talebã à educação

Alia, 19, e a prima viajam sozinhas pelo Afeganistão no ano passado para escapar de casamentos forçados e buscar aulas de inglês em Cabul, desafiando o veto do Talebã à educação feminina após os 12 anos.

Uma fuga silenciosa em um país que fecha escolas

A madrugada ainda cobre a estrada de terra quando o táxi deixa a pequena aldeia em Daykundi, no centro do Afeganistão. No banco de trás, duas jovens se apertam sob véus que mostram apenas os olhos. A viagem, de centenas de quilômetros até Cabul, contraria uma das regras mais rígidas impostas desde a volta do Talebã ao poder, em 2021: mulheres não podem percorrer longas distâncias sem um parente homem ao lado.

Alia, nome fictício usado para preservar sua segurança, sabe o risco que corre em cada posto de controle. Ela diz à família que vai rever amigas e ex-colegas de classe na capital. “Isso não é verdade. Eles não estão aqui. O motivo real é que, se eu ficasse em Daykundi, seria forçada a me casar”, conta. A prima viaja com o mesmo medo e a mesma urgência.

O táxi passa pelas barreiras do Talebã sem ser parado. Quando o carro entra em Cabul, Alia não procura vestidos de noiva, mas uma sala de aula. Em poucos dias, ela se matricula em um curso particular de inglês, um dos poucos espaços onde meninas ainda aprendem algo além do ensino religioso. As turmas são curtas, pagas em dinheiro vivo e insuficientes para substituir a escola regular.

O gesto individual de duas jovens escapa às estatísticas, mas ocorre em um cenário que se consolida há quase cinco anos. Desde 2021, o regime talebã mantém fechadas as escolas para meninas acima da sexta série, o equivalente a 12 anos. Entre justificativas sobre segurança, moral religiosa e “condições adequadas”, a promessa de reabertura é sempre adiada. Na prática, a adolescência feminina é empurrada para o casamento precoce.

A história de Alia também revela um privilégio raro. Ela vem de uma família que consegue pagar o curso e aceita, ainda que com relutância, sua permanência em Cabul. Em um país onde cerca de 75% da população não consegue suprir necessidades básicas, segundo a ONU, poucas famílias conseguem financiar qualquer tipo de educação para as filhas. “Antes da proibição, meus pais me incentivavam com entusiasmo a ir à escola. Diziam que eu poderia realizar meu sonho de me tornar piloto. Mas agora dizem que é melhor eu me casar, porque não posso ir à escola, à universidade, nem posso trabalhar”, afirma.

Um país que troca cadernos por certidões de casamento

O veto prolongado à educação feminina remodela silenciosamente o futuro do Afeganistão. Dados das Nações Unidas indicam que, se a proibição seguir até 2030, mais de 2 milhões de meninas terão sido privadas de qualquer estudo além da escola primária em um dos países com menor taxa de alfabetização feminina do mundo. Para muitas famílias, restam duas opções concretas para as filhas adolescentes: casar cedo ou permanecer em casa, sem perspectivas de trabalho ou formação.

Na periferia oeste de Cabul, Shama vive o desfecho que Alia tenta evitar. Aos 18 anos, quatro anos atrás, ela abandona o sonho de ser médica e cede à pressão da mãe para se casar. Hoje, aos 22, é mãe de um bebê e de uma criança pequena, ambas meninas. “Se o Talebã não tivesse assumido o controle, eu já teria quase terminado a escola. Eu estaria perto do meu sonho de ser médica. Isso é o que eu queria”, diz. Os nomes da família também são alterados para proteção.

Kamila, a mãe, trabalhou como faxineira desde que ficou viúva, há seis anos. Lutou para manter as filhas na escola, mas cede diante do medo. “Eu tinha medo de que eles questionassem por que eu não estava casando minha filha”, afirma. Sem diploma e sem emprego formal, ela resume sua própria trajetória: “Sou analfabeta, então sou como uma pessoa cega. Mas queria que minhas meninas aprendessem. Ela tinha tantos sonhos. Mas isso não aconteceu para ela”.

A frustração de Shama se mistura ao cuidado com as filhas pequenas. “Ter um marido não é o único sonho de uma mulher. Ela precisa se sustentar primeiro, tornar-se independente e depois pode se casar e começar uma família. Mas entrei nessa nova vida sem nada disso. Meus sonhos continuam não realizados”, diz. Ela relata crises de ansiedade sempre que vê, em filmes, personagens femininas estudando ou trabalhando. “Sinto como se estivesse presa em casa. Eu vivo apenas para meus filhos.”

Nora, irmã mais nova de Shama, tem 18 anos e teme repetir a trajetória da irmã. “Sou muito jovem para me casar. Eu quero continuar meus estudos. É como estar na prisão. Tenho medo de sair por causa do governo e, em casa, minha mãe me diz que eu preciso me casar”, afirma. Ela ainda sonha em voltar à escola, mas não vê essa possibilidade sob o atual regime. “O governo disse que as escolas estão fechadas para meninas até novo aviso. Mas já faz quatro anos e meio. Estamos esperando por essa mensagem todos os dias.”

Questionado ao longo desses anos, o Talebã altera o discurso, mas não a política. Em 2021, um porta-voz afirma que as escolas para meninas abririam quando a “situação de segurança melhorasse”. Em 2022, líderes religiosos passam a invocar preocupações com o trajeto até as aulas. Em 2024, o vice-porta-voz do governo, Hamdullah Fitrat, diz à BBC que o país “aguarda a decisão da liderança”. Na entrevista mais recente, ele se recusa a ser fotografado ao lado de uma repórter mulher e evita responder sobre o ensino médio e universitário feminino. Aponta apenas que “cerca de sete milhões de meninos e cinco milhões de meninas estão estudando atualmente”, sem mencionar que, para elas, o acesso vai só até os 11 ou 12 anos.

Direitos em retrocesso e um futuro em suspenso

As consequências dessa política se espalham para além dos muros das escolas fechadas. Mulheres praticamente somem da vida pública em várias regiões do país, retirada reforçada por uma sucessão de decretos que limitam trabalho, circulação e participação social. O próprio Talebã tenta exibir uma face mais moderada ao divulgar números: Fitrat afirma que o governo concedeu “milhares de licenças para mulheres administrarem negócios” e que a polícia moral teria resolvido mais de 2 mil casos de negação de herança e ajudado 2,5 mil mulheres forçadas a se casar ou menores de idade.

A retórica oficial contrasta com a legislação recém-aprovada. Na semana passada, o governo transforma em lei regras que, na prática, legalizam o casamento infantil e permitem interpretar o silêncio de uma menina como consentimento. Organizações afegãs e internacionais descrevem esse movimento como um aval estatal aos casamentos forçados e uma consequência direta da exclusão escolar: quanto menos se estuda, mais cedo se casa. Nas casas visitadas pela reportagem, o sinal é o mesmo. Propostas de casamento chegam antes do diploma, e a pressão familiar cresce a cada ano longe da sala de aula.

Alia sente essa pressão mesmo a quilômetros de Daykundi. Ela já recebe propostas de casamento e teme não conseguir recusá-las para sempre. “Algumas famílias podem ser muito restritivas. É possível que me digam para esquecer meus sonhos. Não me sinto nada bem em relação a isso”, diz. A jovem insiste, porém, na decisão de adiar qualquer compromisso. “Se minha família não me obrigar a me casar, vou esperar. Eu vou resistir até meu último suspiro.”

Entre as meninas e mulheres ouvidas, há um sentimento comum de abandono internacional. O fechamento das escolas completa quase cinco anos sem que apelos de governos e organismos multilaterais produzam mudança concreta. “Se não tivéssemos sido esquecidas, algo certamente já teria sido feito”, afirma Alia. Nora ecoa a revolta: “Muitas vezes penso: por que nascemos no Afeganistão?”. Kamila, que um dia sonhou ver as filhas em uma universidade, envia um recado simples para mães de outros países: “Em um mundo em que suas filhas podem estudar e trabalhar, deixe-as fazer isso. Deixe que elas se tornem independentes. Aqui no Afeganistão, acabou para nós”.

O desfecho dessa política ainda não está escrito. As divisões internas no Talebã sobre a educação feminina são conhecidas, mas o líder supremo endurece a posição ano após ano. Se nada muda, uma geração inteira de meninas afegãs chegará a 2030 sem ter visto uma sala de aula desde os 12 anos. Enquanto isso, fugas discretas como a de Alia se multiplicam nas estradas de terra e becos do país. São tentativas individuais de driblar uma proibição que, a cada ano, parece menos uma medida temporária e mais um projeto de futuro sem mulheres educadas.

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