Corinthians expulsa Andrés Sanchez do quadro de sócios em votação aberta
O Corinthians expulsa o ex-presidente Andrés Sanchez do quadro de sócios em votação aberta realizada na noite desta segunda-feira (25), no Parque São Jorge, em São Paulo. A decisão atende recomendação da Comissão de Ética e ocorre em meio a investigações sobre uso indevido do cartão corporativo do clube, com gastos que passam de R$ 480 mil. A base política de Sanchez sofre seu golpe mais duro desde o fim de seu último mandato, em 2021.
Assembleia tensa e pressão das arquibancadas
A reunião começa no início da noite, no salão nobre do Parque São Jorge, com clima de julgamento. Cerca de 135 sócios se acomodam nas cadeiras enquanto, do lado de fora, a torcida organizada empurra o ambiente com gritos e faixas que pedem a expulsão. “Conselheiro, preste atenção, chegou o dia, queremos expulsão”, entoa a Fiel, em coro que invade o espaço reservado aos votantes.
A sessão se abre com a leitura da peça da Comissão de Ética, que detalha os gastos atribuídos a Sanchez entre 2018 e 2021, seu terceiro mandato como presidente. O relatório aponta despesas em relógios importados, roupas e atendimentos médicos, todas pagas com o cartão de crédito do clube e registradas em notas fiscais no nome do ex-dirigente. O Ministério Público de São Paulo calcula o total em mais de R$ 480 mil.
Após a sustentação da Comissão de Ética, as duas partes recebem 20 minutos cada para se manifestar. Conselheiros alinhados a Sanchez tentam emplacar solução intermediária, com suspensão de seis meses e perda temporária de direitos políticos. A alternativa, que manteria o ex-presidente no quadro social, não ganha tração suficiente e não vai a voto.
O plenário parte então para a decisão principal. Em votação aberta, com cada sócio declarando o posicionamento em voz alta, o placar final registra 112 votos pela expulsão, 49 pela permanência e seis abstenções. O anúncio oficial é acompanhado do lado de fora por fogos, cantos e comemoração de torcedores e de parte dos conselheiros que defendem um rompimento definitivo com o ex-mandatário.
Acusações, processo e impacto político
O caso de Andrés Sanchez extrapola as fronteiras do clube há meses. O ex-presidente é alvo de denúncia do Ministério Público por crime tributário, apropriação indébita e lavagem de dinheiro, todos ligados ao uso do cartão corporativo do Corinthians. Segundo o promotor Cássio Conserino, as despesas não têm relação com a atividade do clube e configuram desvio de recurso privado de interesse coletivo.
O cartão corporativo, instrumento criado para cobrir custos operacionais e deslocamentos da presidência, passa a ser examinado em detalhe a partir de auditorias internas e apurações conduzidas pela Comissão de Ética. Os investigadores identificam compras em lojas de luxo, clínicas e estabelecimentos no Brasil e no exterior. Cada gasto sai no extrato com o nome de Andrés Sanchez e alimenta o entendimento de que o benefício é pessoal.
O relatório da Comissão de Ética conclui que houve violação grave do estatuto e recomenda a expulsão do ex-presidente do quadro associativo, a pena mais dura prevista nas normas internas. A diretoria atual endossa o encaminhamento e argumenta que uma punição branda não seria compatível com o volume e a natureza dos gastos. Para a cúpula corintiana, a manutenção de Sanchez como sócio deixaria a mensagem de tolerância com práticas que se aproximam, nas palavras de um conselheiro, de “corrupção privada”.
A decisão também redesenha o mapa político do Parque São Jorge. Andrés Sanchez, um dos principais articuladores de bastidores desde o início dos anos 2000, perde o espaço institucional que usou para influenciar eleições e decisões estratégicas, como a construção da Neo Química Arena e contratos de patrocínio. Aliados do ex-presidente avaliam recorrer às instâncias internas do clube e insistem na tese de que os gastos seriam compensados por aportes pessoais feitos ao Corinthians ao longo de sua trajetória.
O peso simbólico da expulsão, porém, vai além dos grupos organizados. Para boa parte da torcida, a medida representa um acerto de contas com uma fase marcada por denúncias, dívidas crescentes e perda de credibilidade. Organizadas exibem faixas que vinculam ética e vitória em campo e defendem que a faxina política é condição para um clube mais competitivo e saudável financeiramente.
Risco jurídico, confiança da torcida e próximos passos
A expulsão de Andrés Sanchez não encerra o caso. No campo criminal, os processos continuam em curso no Ministério Público, que mantém as acusações de crime tributário, apropriação indébita e lavagem de dinheiro. Uma eventual condenação pode abrir espaço para ações de ressarcimento e para futuras medidas cíveis em defesa do patrimônio do Corinthians.
Dentro do clube, a assembleia desta segunda-feira serve como marco para uma agenda de controle mais rígido de gastos. Conselheiros defendem revisão de regras para o uso de cartões corporativos, exigência de prestação de contas detalhada e auditorias periódicas independentes. A diretoria sabe que qualquer sinal de afrouxamento pode afetar patrocínios, negociações comerciais e a imagem da marca em um mercado em que reputação pesa na assinatura de contratos multimilionários.
A relação com a torcida também entra em nova fase. A participação ativa de organizadas na pressão pela expulsão reforça o recado de que desvios éticos não encontram mais espaço em um clube que movimenta centenas de milhões de reais por ano e exerce forte influência social. A Fiel se vê como protagonista de um processo de limpeza institucional e cobra que o rigor de hoje se mantenha em futuras gestões.
Nos próximos meses, o Corinthians testa na prática o compromisso assumido no discurso desta noite. A forma como o clube responde a outras denúncias internas, como cuida de seus contratos e como se posiciona diante de figuras influentes de seu passado vai definir se a expulsão de Andrés Sanchez é um ponto de virada ou apenas um capítulo ruidoso em uma crise mais longa. A pergunta que fica, no Parque São Jorge e fora dele, é se o rompimento com o ex-presidente inaugura um novo padrão de transparência ou se o clube voltará a conviver com os mesmos vícios em silêncio.
