Israel amplia ofensiva terrestre no sul do Líbano com apoio dos EUA
O governo de Israel amplia, em maio de 2026, suas operações militares terrestres no sul do Líbano, perto da fronteira. A nova fase mira a infraestrutura de drones explosivos do Hezbollah e amplia o risco de escalada regional.
Da “Linha Amarela” à expansão do front
A mudança ocorre após semanas de ataques quase diários contra comunidades israelenses na fronteira norte. Autoridades israelenses definem as ações como operações “direcionadas”, com o objetivo declarado de afastar o perigo dos drones explosivos do Hezbollah e “eliminar ameaças diretas” na região. A fronteira deixa de ser apenas uma linha de contenção e passa a ser o ponto de partida de uma ofensiva mais profunda.
No terreno, a principal referência é a chamada Linha Amarela, que se estende de leste a oeste a alguns quilômetros ao norte da divisa oficial entre Israel e Líbano, cruzando o rio Litani. Aproximadamente 55 cidades e vilarejos ao sul dessa demarcação estão sob controle das forças israelenses, em uma faixa que concentra grande parte dos combates recentes. Até as últimas semanas, o Exército de Israel evitava avançar para além dessa linha e ao norte do Litani, em resposta a pedidos diretos de Washington, que tenta mediar negociações entre Jerusalém e Beirute.
A contenção cede espaço à escalada. Com a decisão de intensificar a pressão sobre a infraestrutura de drones do Hezbollah, Israel passa a operar de forma mais assertiva em áreas que antes permaneciam apenas sob vigilância aérea e ataques pontuais. A coordenação com os Estados Unidos, segundo fontes ligadas às conversas bilaterais, envolve compartilhamento de inteligência, planejamento de alvos e alinhamento político para sustentar a operação em um momento de elevada sensibilidade diplomática.
Hezbollah reage, civis fogem e o mapa do risco muda
A resposta do Hezbollah vem rápida. O grupo afirma, nesta terça-feira (26), que ataca forças israelenses que avançam em direção à cidade de Zawtar al-Sharqiya, no sul do Líbano, com drones explosivos, foguetes e artilharia. O uso simultâneo desses armamentos sinaliza capacidade de impor custos à incursão terrestre, mesmo sob forte pressão aérea e de artilharia israelense.
Imagens recentes vindas do sul do Líbano mostram bairros arrasados, descritos por moradores como uma destruição em “padrão Gaza”, com casas demolidas, crateras abertas e infraestrutura básica colapsada. O Ministério da Defesa de Israel já havia ordenado que moradores de aldeias fronteiriças deixassem suas casas e se deslocassem para o norte, ampliando o cinturão de esvaziamento ao redor da região de combate. Em Nabatieh, uma das principais cidades do sul libanês, as Forças de Defesa de Israel emitem extensas ordens de desocupação, sinal de que novos ataques estão em preparação.
Em comunicado, os militares israelenses informam que atingem mais de 100 alvos do Hezbollah durante a noite, entre supostos depósitos de armas, centros de comando e instalações ligadas ao programa de drones. O alerta é duro: qualquer pessoa próxima a agentes ou estruturas do grupo “pode estar colocando sua vida em risco”. A mensagem reforça a ideia de que a fronteira entre combatentes e civis se torna cada vez mais difusa nas áreas onde o Hezbollah atua.
O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu prepara a opinião pública para uma campanha prolongada. Na segunda-feira (25), ele promete intensificar os ataques contra o Hezbollah, argumentando que a segurança do norte de Israel depende da neutralização da ameaça de drones e foguetes. A fala ecoa preocupações que ganharam força desde que esses equipamentos se consolidam como arma de baixo custo e alto impacto, capazes de atingir alvos militares e civis com pouca margem de reação.
Escalada regional e fronteiras da diplomacia
A expansão das operações terrestres além da tradicional zona de segurança no sul do Líbano marca uma inflexão na dinâmica de confronto entre Israel e Hezbollah. Desde o fim da guerra de 2006, o equilíbrio se apoia em uma combinação de dissuasão mútua, presença da ONU e linhas vermelhas tácitas. Avançar além da Linha Amarela e aproximar-se do rio Litani rompe parte desse entendimento e amplia o risco de um confronto mais amplo.
Na prática, o avanço militar redesenha o mapa do medo para as populações civis de ambos os lados. Comunidades libanesas ao sul do Litani veem a rotina se desfazer em poucas horas, com estradas congestionadas por famílias que tentam alcançar o norte e bombardeios que se aproximam de áreas urbanas densas. No lado israelense, moradores de cidades fronteiriças convivem com o som recorrente de sirenes e ordens de abrigo, enquanto o governo aposta que a ofensiva restrinja o alcance dos drones e reduza o número de ataques transfronteiriços.
O apoio dos Estados Unidos, embora não se traduza em tropas em campo, confere à operação um peso internacional adicional. Washington tenta equilibrar o suporte ao aliado israelense com a preocupação de evitar uma guerra aberta que envolva outros atores regionais, como Irã e Síria. A mesma mesa em que se desenham as novas operações militares serve também de palco para conversas de bastidor sobre possíveis cessar-fogos, garantias de segurança na fronteira e limites para a presença armada do Hezbollah ao sul do Litani.
Diplomatas na região avaliam que cada novo ataque amplia o custo político de um eventual recuo, tanto para Israel quanto para o Hezbollah. Uma ofensiva bem-sucedida contra drones e infraestrutura militar pode fortalecer a posição israelense em negociações futuras, mas também empurrar o grupo libanês a responder com maior intensidade para preservar sua imagem de resistência. Entre esses movimentos, a população civil permanece exposta a ciclos de fuga, destruição e reconstrução que marcam a história recente do sul do Líbano.
O que pode acontecer a seguir
A principal incógnita recai sobre o alcance real da nova fase da ofensiva terrestre. Se Israel mantiver a operação como ação “direcionada” e de curto alcance, restrita a bolsões específicos de infraestrutura do Hezbollah, a escalada pode permanecer contida em um patamar alto, mas administrável. Caso o avanço se amplie para áreas mais densamente povoadas ao norte do Litani, o conflito tende a ganhar contornos de guerra aberta, com impacto direto sobre toda a fronteira e sobre o frágil equilíbrio político em Beirute.
Nas próximas semanas, a atenção se volta às negociações mediadas pelos Estados Unidos e à capacidade das partes de impor limites à própria escalada. A ofensiva israelense contra drones e bases do Hezbollah procura responder a uma ameaça concreta, visível nos céus da fronteira. A dúvida, agora, é se essa mesma operação abrirá caminho para algum tipo de arranjo de segurança mais estável ou se aprofundará um ciclo de confrontos que a diplomacia não consegue mais conter.
