Alerj reage e cobra respeito de Lula após fala sobre milícia
A Assembleia Legislativa do Rio reage publicamente a uma fala de Luiz Inácio Lula da Silva que associa uma eventual indicação da Casa ao governo estadual a milicianos. Em nota divulgada entre os dias 23 e 24 de maio de 2026, o Legislativo fluminense classifica a declaração do presidente como inaceitável e um desrespeito ao povo do estado.
Lula cita milícia ao falar sobre sucessão no Rio
O episódio começa no sábado, 23 de maio, durante a inauguração da nova sede do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde da Fiocruz, no Rio de Janeiro. Diante de autoridades federais, estaduais e municipais, Lula comenta o processo de definição do nome que pode suceder o governador Cláudio Castro em 2026 e faz uma ligação direta entre a Alerj e milícias.
“Quando começou esse processo, eu falei: ‘Se a Assembleia indicar, vai vir o mesmo’. Se a Assembleia tivesse que indicar, ia vir um miliciano”, afirma o presidente, em tom crítico à composição política do estado. A declaração, feita em um dos principais centros de pesquisa em saúde do país, rompe a liturgia do evento e desloca o foco das obras da Fiocruz para o embate político fluminense.
A frase ecoa num Rio marcado há décadas pela presença de grupos armados, que controlam territórios, exploram serviços clandestinos e influenciam eleições em bairros inteiros. Ao vincular de forma genérica o Parlamento estadual à milícia, Lula atinge uma instituição que reúne 70 deputados eleitos em 2022 e ampliou sua influência sobre o governo local em meio à fragilidade do Executivo fluminense.
Alerj reage e fala em “ataques generalizados”
A resposta da Alerj sai em nota oficial, divulgada em seguida, e é reforçada pelo presidente da Casa, deputado Douglas Ruas, do PL. O texto afirma que a Assembleia “respeita as instituições e espera o mesmo respeito por parte de todas as autoridades do País, inclusive do presidente da República”. Também diz ser “inaceitável qualquer tentativa de generalizar ou criminalizar o Parlamento fluminense e seus representantes eleitos”.
Ruas adota tom ainda mais duro e transforma o episódio em disputa aberta com o Planalto. “Lula veio ao Rio e, mais uma vez, desrespeitou o nosso povo, fazendo ataques generalizados. Lula e o seu amigo Eduardo Paes não têm moral para dar lição sobre o combate ao crime organizado”, afirma o deputado, citando o prefeito do Rio, aliado do presidente.
O confronto ocorre num Rio que se prepara para uma campanha estadual decisiva em 2026, com ao menos três blocos em disputa: o campo alinhado a Lula, o grupo de Cláudio Castro, ligado ao PL, e setores conservadores que ainda orbitam o bolsonarismo. A Alerj tenta se blindar de uma associação ampla com milícias que, na prática, poderia atingir deputados de diferentes partidos, inclusive siglas da base federal.
Nos bastidores, líderes estaduais avaliam que a fala de Lula reforça o discurso de que a política fluminense é capturada pelo crime organizado, argumento explorado nas últimas eleições por candidatos de direita e extrema direita. A nota da Alerj busca conter esse desgaste e marcar posição institucional diante do eleitorado de cerca de 12,8 milhões de habitantes do estado.
Disputa política às vésperas de 2026
A tensão entre o governo federal e a Alerj se soma a um cenário nacional em que Lula tenta consolidar alianças para enfrentar a direita nas eleições municipais de 2024 e, na sequência, nas disputas estaduais de 2026. No Rio, a associação entre Parlamento e milícia atinge um ponto sensível do debate público: a responsabilidade do Estado no avanço desses grupos.
Milícias assumem controle de áreas inteiras na capital e na Baixada Fluminense desde os anos 2000, vendendo gás, internet, transporte alternativo e segurança privada ilegal. Investigações do Ministério Público do Rio, da Polícia Civil e da CPI das Milícias, instalada em 2008, já apontam conexões de políticos locais com esses grupos, mas não há, até agora, decisão judicial que criminalize o conjunto da Alerj como instituição.
Nesse contexto, a fala do presidente em um ato público é usada por adversários como evidência de que o Planalto mira o Legislativo estadual como foco de desconfiança. Para aliados de Lula, por outro lado, a frase expõe a dificuldade histórica de romper com estruturas políticas associadas ao crime organizado, que atravessam diferentes governos e partidos.
O episódio também pressiona o prefeito Eduardo Paes, citado por Ruas, que busca manter a ponte com o governo federal sem afastar setores moderados do centro e da direita carioca. Em ano de pré-campanha, qualquer gesto público ganha peso na negociação de apoios para 2026, quando estarão em jogo o Palácio Guanabara, 70 cadeiras da Alerj e três vagas no Senado em todo o país.
O que pode acontecer a partir de agora
A nota da Alerj indica que a relação entre o Parlamento fluminense e o governo Lula tende a atravessar um período de desconfiança. Deputados da oposição federal exploram o episódio para acusar o presidente de atacar o Rio, enquanto parlamentares aliados tentam reduzir o dano e atribuir a fala a um “desabafo” político.
Nos próximos meses, o embate deve reaparecer em votações de interesse do estado no Congresso, em negociações de emendas e em discussões sobre segurança pública e combate ao crime organizado. A pressão recai sobre o Planalto, que precisa de apoio local para projetos de infraestrutura e para manter canais de diálogo com a base fluminense, e sobre a própria Alerj, que busca provar ao eleitor que não se confunde com os grupos que diz combater.
A controvérsia abre espaço para uma pergunta que atravessa campanhas eleitorais há pelo menos 20 anos no Rio: até que ponto as instituições políticas conseguem se desvincular, na prática, da influência de milícias e outros grupos armados que ainda moldam o mapa do poder no estado?
