Rússia lança ataque maciço com míssil Oreshnik contra Kiev
A Rússia lança na noite deste sábado (23) um ataque maciço com mísseis balísticos de médio alcance contra Kiev, capital da Ucrânia. A ofensiva, ordenada por Vladimir Putin, vem em resposta a uma série de ataques ucranianos com drones em territórios ocupados e dentro da própria Rússia.
Capital sob ataque e corrida aos abrigos
As sirenes voltam a soar em Kiev pouco depois do anoitecer. Poucos minutos depois, a Força Aérea Ucraniana emite alerta sobre o lançamento de um míssil balístico Oreshnik, um dos vetores mais poderosos do arsenal russo de médio alcance. Moradores correm para estações de metrô e abrigos improvisados enquanto explosões ecoam em diferentes pontos da cidade.
O administrador militar de Kiev, Tymur Tkachenko, afirma em publicação no Telegram que a capital enfrenta um “ataque balístico massivo” e pede que todos permaneçam em locais protegidos. O prefeito Vitaliy Klitschko relata danos causados por destroços em vários bairros e registra múltiplos pedidos de assistência médica. Equipes de emergência percorrem ruas escuras em busca de feridos e para conter incêndios em prédios residenciais atingidos por fragmentos de mísseis.
Hospitais de Kiev reforçam plantões e reorganizam alas de emergência. Ambulâncias circulam com faróis apagados em alguns trechos, para reduzir a exposição a novos ataques. Autoridades locais falam em danos significativos à infraestrutura urbana, com linhas de energia interrompidas, janelas estilhaçadas e estruturas comprometidas em edifícios de diferentes regiões da capital.
Retaliação após ataque a dormitório em área ocupada
O ataque a Kiev ocorre menos de 48 horas depois de Putin acusar a Ucrânia de um “ato terrorista” em Starobilsk, cidade ocupada na região de Luhansk. Na sexta-feira (22), drones ucranianos atingem um dormitório universitário usado como alojamento, segundo autoridades russas. A agência estatal TASS informa que o número de mortos sobe para 18, incluindo crianças, e que ao menos três pessoas seguem sob os escombros.
Em reunião com assessores militares, Putin cobra resposta imediata e ordena ao Ministério da Defesa que apresente propostas de retaliação. O ataque deste sábado, com uso do míssil Oreshnik, surge como a materialização dessa decisão. Moscou tenta enquadrar a ação como resposta proporcional a um ataque deliberado contra civis; Kiev rejeita essa narrativa e afirma que visa apenas alvos militares.
As Forças Armadas ucranianas acusam a mídia russa de divulgar “informações manipuladoras” sobre Starobilsk. Em comunicado, reiteram que seus ataques têm como alvo “infraestrutura militar e instalações usadas para fins militares”. Entre os objetivos atingidos na madrugada de sexta, os militares citam “um dos quartéis-generais da unidade ‘Rubicon’ na região de Starobilsk”, centro avançado de tecnologias de drones criado em 2024 e considerado peça-chave no desenvolvimento e direcionamento de aeronaves não tripuladas russas.
A Ucrânia intensifica nas últimas semanas o uso de drones de médio e longo alcance. Em Snizhne, também em território ocupado, uma onda de ataques atinge um campo de treinamento de pilotos de drones russos. O comandante das Forças de Sistemas Não Tripulados da Ucrânia, Robert Brovdi, afirma que pelo menos 65 cadetes e um instrutor morrem no bombardeio de um complexo de 2.484 metros quadrados, que abrigaria drones, explosivos e um posto de comando. As cifras, incomuns pela escala, não são verificadas de forma independente.
Outra série de ataques, segundo o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, atinge um quartel-general do serviço de segurança russo e um sistema de defesa aérea na região ocupada de Kherson. Ele fala em quase 100 militares russos mortos ou feridos. Ao mesmo tempo, Kiev passa a mirar mais fundo no território russo. Zelensky afirma ainda que serviços de segurança ucranianos atacam “uma importante empresa do complexo militar-industrial da Rússia”, uma fábrica de produtos químicos no Krai de Perm, a cerca de 1.700 quilômetros da fronteira, ligada ao fornecimento de insumos para as Forças Armadas russas.
Escalada militar e pressão internacional
A sucessão de ataques e contra-ataques empurra o conflito para um novo patamar. O uso de mísseis balísticos Oreshnik contra a capital ucraniana reforça a percepção de escalada e amplia o risco para civis longe da linha de frente. Autoridades ucranianas relatam que parte dos mísseis é interceptada, mas não divulgam números. O impacto psicológico, porém, é imediato: famílias voltam a dormir em corredores, banheiros e estações subterrâneas, revivendo cenas dos primeiros meses da invasão em 2022.
O governo ucraniano alerta desde as primeiras horas do dia para a possibilidade de um ataque russo de grande porte. Zelensky diz na rede X que serviços de inteligência recebem dados de parceiros americanos e europeus sobre a preparação de um ataque com o míssil Oreshnik. “Estamos verificando essas informações”, afirma. Ele reforça o apelo a aliados: “Contamos com uma resposta do mundo – e com uma resposta que não seja posterior ao fato, mas preventiva. É preciso pressionar Moscou para que não amplie a guerra”.
O Departamento de Estado dos EUA informa que a embaixada americana em Kiev recebe avisos de que um ataque com mísseis pode ocorrer “a qualquer momento” nas horas seguintes. O recado acelera planos de contingência e reforça pedidos de que os cidadãos americanos evitem deslocamentos desnecessários. Capitais europeias discutem novas sanções e avaliam se ampliam o envio de sistemas de defesa aérea e munições para a Ucrânia, em um momento em que o chefe de uma importante agência de espionagem do continente admite que “o tempo joga contra a Rússia e pressiona Putin”.
A ofensiva sobre Kiev também expõe o dilema estratégico de Moscou. A Rússia tenta mostrar capacidade de infligir danos severos à infraestrutura ucraniana e de punir ataques em profundidade, como o de Perm. Ao mesmo tempo, o uso de armamento de alto impacto contra uma capital populosa aprofunda o isolamento político do Kremlin e alimenta debates sobre possíveis crimes de guerra envolvendo alvos civis e proporcionalidade no uso da força.
O que pode vir depois do ataque a Kiev
O ataque desta noite adiciona uma camada de incerteza ao campo de batalha e à diplomacia. A Ucrânia promete manter a pressão com drones e mísseis de longo alcance contra bases, depósitos de munição e usinas ligadas ao esforço de guerra russo. A Rússia, por sua vez, indica que está disposta a ampliar o uso de mísseis balísticos de médio alcance para tentar desorganizar a logística ucraniana e testar os limites da paciência ocidental.
Autoridades em Kiev esperam que a destruição e o medo gerados pelo ataque acelerem decisões sobre o envio de novos lotes de armamento, especialmente sistemas de defesa aérea capazes de lidar com projéteis como o Oreshnik. O governo de Zelensky aposta que a sensação de que “ninguém está completamente seguro” na capital reforça o argumento de que uma resposta firme e coordenada é necessária antes que a guerra se expanda ainda mais. A pergunta que permanece aberta é se aliados ocidentais vão agir de forma preventiva, como pedem os ucranianos, ou se seguirão reagindo ataque a ataque, enquanto sirenes continuam a marcar o ritmo da vida em Kiev.
