Trump avalia rascunho de paz com Irã e ameaça retomar guerra
Donald Trump passa este sábado, 23 de maio de 2026, avaliando uma proposta preliminar de acordo de paz com o Irã enquanto ameaça retomar a guerra. O texto, mediado por Catar e Paquistão, tenta encerrar o conflito, aliviar o bloqueio naval e liberar bilhões em ativos iranianos no exterior. A decisão pode sair até domingo e redesenhar o equilíbrio de forças no Golfo Pérsico.
Guerra em suspenso e disputa por vantagem
Trump alterna tom conciliador e ameaças públicas. Em entrevista ao site Axios, ele estima em “um sólido 50 a 50” as chances de um entendimento com Teerã. Na mesma conversa, avisa que pode decidir até domingo se ordena nova ofensiva militar. “Podemos chegar a um bom acordo ou podemos explodi-los até o inferno”, afirma, resumindo o impasse em poucas palavras.
Ao longo do dia, o presidente conversa por telefone com líderes do Golfo e autoridades de Paquistão, Turquia e Egito para testar o apetite regional por um cessar-fogo duradouro. Segundo uma fonte ouvida pela CNN, o giro de ligações inclui monarquias do Golfo diretamente afetadas pelos ataques ao trânsito de petróleo. No pano de fundo, o vice-presidente JD Vance chega à Casa Branca e assessores próximos, como Jared Kushner e o enviado Steve Witkoff, entram na linha de decisão.
O secretário de Estado, Marco Rubio, evita anunciar vitória antes da hora. Em Nova Déli, ele diz a jornalistas que as conversas avançam, mas mantêm incertezas. “Pode haver notícias mais tarde hoje. Não tenho novidades neste exato momento, mas talvez haja alguma notícia um pouco mais tarde hoje. Talvez não haja. Espero que haja, mas ainda não tenho certeza”, afirma. Rubio repete que o foco de Washington continua em impedir que o Irã tenha uma arma nuclear e em lidar com o estoque de urânio enriquecido acumulado por Teerã.
Do outro lado, o Ministério das Relações Exteriores iraniano descreve um rascunho de memorando de entendimento centrado em três eixos: fim da guerra, encerramento do bloqueio naval imposto pelos EUA e liberação de ativos congelados no exterior. O porta-voz Esmail Baghaei insiste que o programa nuclear não entra nessa fase das negociações. “As sanções certamente fazem parte dos temas de negociação, mas, como não estamos discutindo a questão nuclear neste estágio, também não haverá negociação sobre os detalhes da suspensão das sanções”, diz, à agência FARS.
As conversas ganham força após a visita a Teerã do chefe militar paquistanês, marechal de campo Asim Munir. Ele deixa a capital iraniana na tarde de sábado, no horário local, rumo a Islamabad, levando um balanço que classifica como “altamente produtivo”. Em comunicado, as Forças Armadas do Paquistão afirmam que 24 horas de tratativas resultam em “avanços encorajadores rumo a um entendimento final”. Baghaei fala em prazos de 30 e 60 dias escritos no rascunho, sinal de que o acordo pode ter fases distintas de implementação.
Risco de escalada e disputa de narrativas
No terreno político, o processo enfrenta resistência dentro dos Estados Unidos e na região. Senadores republicanos próximos a Trump, como Roger Wicker e Lindsey Graham, pressionam por uma linha mais dura. Wicker, que preside a Comissão de Serviços Armados do Senado, alerta que essas negociações “definirão” o legado de Trump. Em texto divulgado na sexta-feira, ele afirma que o presidente é incentivado a concordar com “um acordo que não valeria o papel em que fosse escrito” e adverte que insistir em diálogo com “o regime islamista do Irã” pode projetar “percepção de fraqueza”.
Lindsey Graham mira o impacto regional. Em mensagem no X, ele diz que a combinação entre a capacidade iraniana de “aterrorizar o Estreito [de Hormuz] indefinidamente” e de causar “danos massivos” à infraestrutura petrolífera do Golfo representa “uma grande mudança no equilíbrio de poder da região” e, ao longo do tempo, “será um pesadelo para Israel”. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, chama para a noite deste sábado uma reunião restrita de segurança, com ministros selecionados e chefes militares, para avaliar o cenário aberto pela proposta preliminar de paz.
No Irã, o discurso público mistura pragmatismo e desafio. O principal negociador, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirma que Teerã não recua em temas considerados vitais. “Não recuaremos dos direitos de nossa nação e de nosso país — especialmente ao lidar com uma parte que nunca demonstrou sinceridade e na qual não existe confiança”, declara, pela TV estatal. Em seguida, envia um recado direto à Casa Branca. “Nossas Forças Armadas se reconstruíram durante o cessar-fogo de tal forma que, se Trump cometer o erro de reiniciar a guerra, isso certamente será mais devastador e amargo para os Estados Unidos do que no primeiro dia da guerra.”
No núcleo das divergências permanecem três questões: o destino do estoque iraniano de urânio altamente enriquecido, o programa doméstico de enriquecimento e as regras de navegação no Estreito de Hormuz, que o Irã praticamente fecha desde o início da crise. Baghaei reforça que qualquer mecanismo para o estreito precisa ser acertado entre Irã, Omã e os países ribeirinhos, “e que os Estados Unidos não têm nada a ver com isso”. Uma fonte regional descreve o clima como de “otimismo cauteloso”. Outra diz que “o impasse acabou”, sem detalhar se isso vale para os pontos centrais ou apenas para a redação do documento.
Os impactos imediatos dessa negociação vão além do campo militar. O Estreito de Hormuz concentra cerca de um quinto do petróleo que circula por mar no mundo. Cada sinal de alívio nas tensões tende a reduzir prêmios de risco sobre o barril, enquanto qualquer ameaça de retomada dos combates pressiona preços e alimenta incerteza em economias dependentes de energia barata. Um eventual acordo que reabra plenamente a rota e desbloqueie ativos iranianos pode injetar bilhões de dólares na economia de Teerã e aliviar o temor de choques prolongados de oferta.
Janela estreita para um cessar-fogo duradouro
Dentro das chancelarias, a percepção é de que a janela para um entendimento real é curta. Rubio admite que “há uma chance” de o anúncio ocorrer “mais tarde hoje, amanhã ou em alguns dias”, mas não crava prazo. Baghaei, em Teerã, fala em “próximos três ou quatro dias” como período decisivo para consolidar o memorando. O documento, ainda em rascunho, tenta equilibrar concessões graduais com garantias de segurança para os países do Golfo e espaço de manobra política para Trump e a liderança iraniana.
Trump, por sua vez, alimenta a ambiguidade que usa como ferramenta de pressão. Em entrevista à CBS News, ele diz ter visto o rascunho da proposta iraniana e afirma que os dois lados estão “chegando muito mais perto” de um entendimento. Perguntado se pretende aceitar o texto, recusa antecipar a resposta. “Não posso contar a vocês antes de contar a eles, certo?”, responde. O cálculo político é interno e externo: qualquer gesto considerado brando demais com Teerã rende críticas de aliados republicanos, enquanto o fracasso das tratativas pode empurrar a região para uma nova rodada de ataques.
Em Teerã, integrantes da Comissão de Segurança Nacional, como Fada Hussain Maleki, também medem palavras. “Parece que estamos nos aproximando de um acordo final, mas ainda existem desafios”, diz à agência ISNA, indicando que novas conversas ocorrem ainda neste sábado. O avanço de mediadores como Catar e Paquistão reforça o papel de potências médias na diplomacia do Golfo e sugere uma redistribuição discreta de influência na região.
As próximas 48 horas tendem a mostrar se a guerra entra em um ciclo de desescalada negociada ou retorna ao confronto aberto. Um acordo preliminar pode pavimentar discussões posteriores sobre o programa nuclear, o detalhamento das sanções e a segurança da navegação, temas que seguem fora do rascunho atual. Uma decisão pela retomada dos ataques, ao contrário, deve consolidar a visão de um Golfo mais militarizado, com margens menores para compromisso e maior espaço para incidentes capazes de arrastar o mundo, de novo, para o centro de uma crise de energia e segurança.
