Seleção poupa Vinícius Júnior e corre risco com rodada pré-Copa
Vinícius Júnior está liberado pelo Real Madrid e se apresenta descansado à seleção brasileira na quarta-feira (27), na Granja Comary. Enquanto o principal nome do ataque chega preservado, parte do elenco encara uma última rodada tensa por clubes, com risco de lesão às vésperas da Copa do Mundo de 2026.
Comissão divide o grupo entre preservados e expostos
A estratégia da comissão técnica passa a impressão de time em duas velocidades. De um lado, estrelas como Vinícius Júnior e Casemiro deixam Real Madrid e Manchester United antes da hora e ganham descanso controlado até a apresentação em Teresópolis, a 91 km do Rio. Do outro, companheiros entram em campo hoje e amanhã, em jogos que valem título, vaga em torneio europeu ou simples cumprimento de tabela, mas carregam o peso de uma eventual lesão às portas do Mundial.
A preocupação se intensifica depois do edema na panturrilha direita de Neymar, detectado neste mês no Santos. O camisa 10 ainda não volta a jogar antes da convocação final e trabalha em dois períodos no CT Rei Pelé. A CBF evita previsão pública de prazo, mas, nos bastidores, dirigentes admitem apreensão. “Ninguém esquece o que aconteceu em 2014 e 2018. A palavra de ordem é controle”, diz um integrante da comissão técnica, em referência às lesões de Neymar na coluna, contra a Colômbia, e no pé direito, às vésperas da Copa da Rússia.
No cenário atual, o mapa de riscos se espalha por três fusos horários. Em Liverpool, Alisson retorna neste domingo, contra o Brentford, após cerca de dois meses fora. O jogo, marcado para as 17h (horário de Brasília), vira teste decisivo para o goleiro de 31 anos. Será a primeira oportunidade recente para a comissão observar, em alta intensidade, a resposta física do titular desde 2018.
No Brasil, o Flamengo leva à campo um bloco importante da convocação. Alex Sandro, Léo Pereira e Lucas Paquetá estão relacionados para o clássico contra o Palmeiras, hoje, às 21h, em um Maracanã esperado cheio, com mais de 60 mil ingressos vendidos. O jogo vale pontos diretos na parte alta da tabela do Campeonato Brasileiro, mas, na prática, também funciona como exame de resistência para quem se apresenta em Teresópolis em menos de 72 horas.
No mesmo sábado, Weverton deve defender o Grêmio contra o Santos, em Porto Alegre, enquanto Danilo, do Flamengo, cumpre suspensão e assiste ao clássico das tribunas, livrando-se de um último risco antes da viagem à Granja Comary. Em Turim, Bremer entra em campo no domingo, no dérbi entre Juventus e Torino, jogo de alta carga física e emocional, observado de perto pelos analistas da CBF.
Liberações, vigilância e pressão por desempenho
Outros convocados vivem realidade mais confortável. Fabinho, do Al-Ittihad, e Ibañez, do Al-Ahli, já estão liberados por seus clubes sauditas. Luiz Henrique e Douglas Santos, ambos do Zenit, chegam de férias, sem a sequência pesada do calendário russo. Endrick também desembarca descansado, após o fim da temporada no Lyon. O grupo preservado contrasta com o de quem ainda precisa provar algo, em especial os atletas que voltam de lesão ou lutam por espaço na hierarquia de Carlo Ancelotti.
Raphinha, titular no Barcelona, enfrenta o Valencia neste sábado no Camp Nou, sob atenção redobrada dos preparadores. Rayan, atacante do Bournemouth, deve jogar contra o Nottingham Forest no domingo, em uma Premier League que costuma se arrastar até o limite físico. Igor Thiago, do Brentford, cruza o caminho de Alisson em Liverpool, em duelo que pode mexer com a confiança de um e testar a solidez do outro.
Entre os goleiros, a situação é desigual. Ederson, hoje no Fenerbahce, cumpre suspensão e passa ileso pela última rodada. Alisson precisa provar que está inteiro. Weverton, aos 36 anos, tenta segurar a vaga de terceiro goleiro sob o risco permanente que acompanha qualquer partida de alto nível. “O calendário atual é desumano, tanto para clubes quanto para seleções. Qualquer decisão de liberar atleta é mais política do que técnica”, admite um dirigente de clube europeu ouvido pela reportagem, sob condição de anonimato.
Na defesa, Marquinhos, pilar do Paris Saint-Germain, ainda disputa a final da Liga dos Campeões em 30 de maio. Gabriel Magalhães e Gabriel Martinelli, do Arsenal, vivem a mesma situação e só se juntam à delegação já nos Estados Unidos, a partir de 2 de junho. Até lá, a seleção treina sem três nomes que, em condições normais, seriam titulares ou primeiras opções no banco. A comissão vê a ausência como preço inevitável por contar com jogadores protagonistas em clubes de ponta.
O meio-campo mistura alívio e tensão. Casemiro está liberado em Manchester e chega à Granja com minutos controlados, assim como Fabinho. Bruno Guimarães ainda deve enfrentar o Fulham, no domingo, em Londres, enquanto Danilo, do Botafogo, vive situação distinta: afastado pelo clube carioca, não encara o São Paulo e entra na lista de convocados em ritmo competitivo abaixo do ideal.
No ataque, a fotografia é fragmentada. Vinícius Júnior, hoje principal referência ofensiva da seleção, preserva músculos e articulações em Madri antes de viajar. Matheus Cunha aguarda liberação do Manchester United, em negociação que se arrasta até a reta final da temporada inglesa. Martinelli encara a decisão continental, Luiz Henrique, Endrick e Neymar aparecem em estágios distintos de descanso ou recuperação. O grupo ofensivo reflete o dilema da comissão: proteger ativos ou aceitar o risco em nome da forma de jogo.
Granja Comary, Estados Unidos e o medo de uma notícia ruim
A partir de quarta-feira, 27 de maio, a Granja Comary volta a ser o centro do futebol brasileiro. A maior parte dos 26 convocados se apresenta em Teresópolis para duas semanas de treinos antes do embarque aos Estados Unidos. A seleção vai usar solo norte-americano como base final de preparação, com amistosos previstos no começo de junho, ainda sem todos os jogadores liberados pelos clubes.
A rotina no centro de treinamento será marcada por exames diários, controles de carga e conversas individuais. O histórico das últimas Copas orienta a prudência. Em 2014, o Brasil perde Neymar por fratura na vértebra nas quartas de final. Em 2018, o camisa 10 chega à Rússia em recuperação de cirurgia no pé direito. Em 2022, uma entorse no tornozelo, logo na estreia, limita o desempenho do craque no Catar. Cada episódio alimenta o medo de uma notícia médica às vésperas da bola rolar novamente.
Nas redes sociais, torcedores acompanham escalações e substituições do fim de semana como se fossem parte direta da convocação. Qualquer entrada mais forte em Vinícius Júnior, Neymar ou nas demais estrelas costuma gerar ondas de comentários, cobranças a dirigentes e discussões sobre o peso dos clubes nas decisões da CBF. A relação entre seleções e equipes europeias volta ao centro do debate internacional a cada ciclo de Copa, com pressões comerciais e esportivas em jogo.
Carlo Ancelotti, que assume o comando da seleção no ciclo americano, aposta em um elenco fisicamente inteiro para impor a ideia de jogo que o consagrou na Europa. O plano começa com a gestão desses últimos 90 minutos por clube, espalhados por Brasil, Inglaterra, Itália, França, Rússia e Turquia. Uma torção mais grave ou um estiramento fora de hora pode obrigar a comissão a refazer a lista de 26 nomes e reescrever a estratégia às pressas.
Até o apito final dos jogos de sábado e domingo, ninguém no entorno da seleção considera o grupo fechado. A lista oficial está publicada, mas ainda depende, na prática, do que acontece em gramados espalhados pelo mundo. O Brasil entra na semana decisiva antes da Copa do Mundo com Vinícius Júnior resguardado, Neymar em observação e uma pergunta que ecoa na CBF, nos clubes e nas arquibancadas: quem vai chegar inteiro ao primeiro jogo do Mundial?
