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Dorival tenta recolocar São Paulo nos trilhos em duelo com Botafogo

Dorival Júnior estreia no Brasileirão à frente do São Paulo neste sábado, 23 de maio de 2026, no Morumbi, pressionado por uma sequência de sete jogos sem vitória. O duelo com o Botafogo ganha contornos de decisão para manter o time no G4 e estancar a pior fase tricolor na competição.

Morumbi vive clima de final em maio

O São Paulo chega ao jogo encurralado pelos próprios números. Depois de dividir a liderança do Campeonato Brasileiro nas primeiras rodadas e rivalizar com o Palmeiras ponto a ponto, o time desaba em desempenho e resultados. São três rodadas sem vencer, duas derrotas seguidas para Corinthians e Fluminense e um empate que acentua a sensação de paralisia.

O último triunfo no torneio nacional acontece em 25 de abril, contra o Mirassol. Quase um mês depois, o calendário aponta uma equipe ainda no G4, em quarto lugar, com 24 pontos, mas cercada de ameaças. Athletico-PR tem a mesma pontuação, e o Bragantino aparece logo atrás, com apenas um ponto a menos. Uma combinação simples de resultados basta para empurrar o São Paulo, pela primeira vez no campeonato, para fora da zona de classificação direta à Libertadores.

O clima no CT da Barra Funda reflete a tabela. Jogadores admitem, nos bastidores, o peso da sequência negativa e a perda gradual de confiança. O discurso público, porém, evita dramatização excessiva. Artur, um dos símbolos dessa travessia, verbaliza a tensão após o empate com o Millonarios, na competição continental, em frase que ecoa pelo elenco. “A gente fica bastante incomodado, triste pelo momento, mas não conhecemos outro caminho além do trabalho. O Dorival fala muito isso também: dedicação no dia a dia. Independentemente de tudo, precisamos manter a cabeça boa, seguir em frente e pensar sempre no próximo jogo, que para nós virou uma grande final”, diz.

O Morumbi se prepara, portanto, para receber um time que precisa resgatar algo básico: a capacidade de transformar atuação em resultado. A sequência sem vitórias se iguala à pior dos últimos anos, registrada em 2021, quando o São Paulo também passa sete partidas em branco no Brasileirão. Um novo tropeço empurra a marca para oito jogos, algo que a diretoria tenta evitar a qualquer custo neste momento da temporada.

Dorival assume em meio à pressão e tenta reorganizar o time

O retorno de Dorival Júnior ao clube acontece sob expectativa dupla. De um lado, a memória recente de títulos e de um ambiente mais estável sob seu comando. De outro, a urgência de resultados imediatos, agora em cenário diferente. O treinador encontra um elenco desgastado pela maratona, exposto a críticas e sob cobrança crescente da arquibancada, que vê o G4 ameaçado depois de um início promissor.

O Botafogo chega ao Morumbi com problemas próprios. O time carioca lida com desfalques importantes, mas, na véspera, clubes e federações entram em acordo para liberar Artur e Ferraresi para o confronto. A presença do atacante, que reencontra a ex-equipe, adiciona um componente emocional à partida. Em campo, a expectativa é de um São Paulo mais intenso sem a bola, tentando encurtar espaços, e mais simples na construção ofensiva, para reduzir erros que custaram pontos nas últimas rodadas.

O histórico entre São Paulo e Botafogo não oferece zona de conforto. Em 113 jogos, segundo dados do Sofascore, o Tricolor soma 44 vitórias, contra 41 do adversário, além de 28 empates. O aproveitamento é praticamente espelhado: 47% para os paulistas, 45% para os cariocas. Nos gols, a diferença é pequena, mas revela leve superioridade tricolor, com 181 bolas na rede, média de 1,6 por partida, contra 160 do Botafogo, média de 1,4.

Os números reforçam a sensação de equilíbrio e ajudam a dimensionar o risco. Não se trata de um duelo em que a lógica aponta para domínio claro de um lado. A margem de erro é curta para um São Paulo pressionado, ainda que jogue em casa. Dorival tenta usar essa pressão como combustível, insistindo em treinos fechados, conversas individuais e ajustes de posicionamento para reduzir espaços entre as linhas e proteger melhor a defesa, vulnerável nos últimos jogos.

No vestiário, o discurso interno gira em torno de um objetivo simples: transformar o jogo contra o Botafogo em divisor de águas. A comissão técnica insiste na ideia de que uma vitória, mesmo mínima, pode redesenhar o ambiente e destravar o time. Jogadores mais experientes assumem papel de escudo, tentando blindar os mais jovens da impaciência das arquibancadas e da leitura implacável da tabela.

G4 em risco e temporada em jogo

A importância da partida vai além de uma rodada comum do Brasileirão. A vaga no G4, hoje garantida pelos mesmos 24 pontos que sustentam o São Paulo, é ativo estratégico para o clube. Significa caminho mais curto à fase de grupos da Libertadores de 2027, receita relevante em premiações e bilheteria, e argumento decisivo em negociações de reforços e renovações. Perder esse lugar neste momento não é apenas questão de vaidade esportiva; é também cálculo financeiro.

O Athletico-PR, que empata em pontos, e o Bragantino, um ponto atrás, acompanham a oscilação tricolor com atenção. Um tropeço no Morumbi abre espaço para ultrapassagem imediata, dependendo do que acontece em seus jogos. A tabela passa a ser observada com lupa pela diretoria são-paulina, que sabe que uma queda prolongada pode alterar planos de investimento e obrigar o clube a rever metas de temporada.

A torcida também sente o peso dessa encruzilhada. Nas primeiras rodadas, o discurso na arquibancada e nas redes sociais orbitava em torno da disputa pelo topo com o Palmeiras. Um mês e sete jogos sem vitória depois, o vocabulário muda. Saem as projeções de título, entra a preocupação em não desperdiçar o bom início e aceitar, na prática, que a prioridade passa a ser consolidar presença entre os quatro primeiros.

Dorival se torna, rapidamente, o rosto dessa tentativa de reconstrução em marcha. Seu trabalho é medido em curto prazo, jogo a jogo. Uma atuação convincente contra o Botafogo, mesmo que sem goleada, reduz o ruído e oferece margem para ajustes mais profundos. Uma nova noite de frustração, porém, tende a amplificar dúvidas sobre elenco, comando e direção, reacendendo debates internos sobre possíveis mudanças mais drásticas ao longo do campeonato.

Próximo capítulo começa contra o Botafogo

O duelo deste sábado condensa, em 90 minutos, uma série de questões que o São Paulo arrasta há semanas. A oscilação de rendimento, a dificuldade de reagir após sofrer o primeiro gol, a pressão sobre jogadores-chave e a necessidade de provar que o bom começo de Brasileirão não foi acidente. O Botafogo, mesmo com desfalques e em busca de afirmação, surge como adversário incômodo, capaz de explorar qualquer hesitação.

Dorival aposta no que descreve como resposta emocional e técnica combinadas: um time compacto, competitivo e disposto a disputar cada bola como se fosse mata-mata. O Morumbi, que já viu o clube sair de cenários piores, volta a ser chamado a participar. A pergunta que paira é simples e, ao mesmo tempo, decisiva: o duelo com o Botafogo marca apenas mais um capítulo da crise ou o início de uma nova trajetória de vitórias no Brasileirão?

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