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Ex-assessora acusa Mário Frias de rachadinha e repasses à família

A ex-assessora Gardênia Morais afirma que devolve parte do salário ao gabinete do deputado federal Mário Frias (PL-SP) entre fevereiro de 2023 e maio de 2024. Comprovantes de transferências, saques e pagamentos de boletos indicam repasses ao então chefe de gabinete e a familiares do parlamentar. O caso envolve ao menos R$ 35 mil em despesas quitadas com recursos da servidora.

Comprovantes expõem rotina de repasses no gabinete

Os documentos vêm a público em meio à disputa por espaço da direita no Congresso e reacendem o debate sobre o uso privado de recursos ligados a cargos públicos. Gardênia trabalhou no gabinete de Mário Frias, em Brasília, por 15 meses. Nesse período, relata que parte relevante da remuneração oficial não fica com ela, mas retorna, mês a mês, para o núcleo mais próximo do deputado.

O site g1 divulga cópias de comprovantes de Pix, pagamentos de boletos, registros de saques em espécie e contratos de empréstimos consignados em nome da ex-servidora. Os papéis mostram uma cadeia de repasses que, segundo Gardênia, financia despesas pessoais da família do parlamentar e da própria estrutura política de Frias. “Eu devolvia todos os meses, de acordo com o meu ‘step’”, diz ela ao portal.

Na Câmara, salários de servidores variam em faixas conhecidas como steps. Gardênia conta que, com as progressões, o vencimento bruto chega a cerca de R$ 20 mil. Depois dos repasses, sobraria para ela algo entre R$ 6 mil e R$ 7 mil. O restante circula por transferências eletrônicas, pagamentos dirigidos e saques em dinheiro, sempre atrelados ao que, na prática, funciona como uma taxa obrigatória para permanecer no cargo.

Em transações feitas por Pix, a ex-assessora envia valores ao então chefe de gabinete, Raphael Azevedo, que ocupa o posto entre 2023 e 2024. Segundo o g1, ao menos R$ 35 mil saem da conta de Gardênia para cobrir gastos de pessoas ligadas ao gabinete. A ex-funcionária afirma que tanto Azevedo quanto o próprio deputado sabem do esquema e acompanham a rotina dos pagamentos.

Os comprovantes também indicam transferências diretas para familiares de Frias. Em 29 de janeiro de 2024, Gardênia transfere R$ 1.000, por Pix, para Maria Lucia Frias, mãe do parlamentar. Um mês antes, em dezembro de 2023, quita a fatura do cartão de crédito de Juliana Frias, mulher do deputado, no valor de R$ 4.832,32. Os gastos não têm relação com a atividade de gabinete e incluem despesas pessoais da família.

Outro documento mostra uma manobra em espécie. Gardênia recebe R$ 50 mil de uma conta salário no Banco do Brasil, transfere a quantia para uma conta no Itaú no mesmo dia e, no dia seguinte, saca R$ 49.999. Ela não revela quem recebe o dinheiro vivo, mas admite que o valor não permanece em seu poder. O padrão reforça o que investigadores chamam de tentativa de dificultar o rastreio do destino final dos recursos.

A ex-servidora também firma cinco empréstimos consignados, somando R$ 174.886. Os contratos comprometem parte do salário futuro, descontado diretamente na folha. Documentos obtidos pelo g1 mostram que parcelas desses valores chegam, em datas próximas às liberações, à conta de Raphael Azevedo. Gardênia afirma que apenas um dos empréstimos, de R$ 35 mil, é usado para despesas próprias; o restante, segundo ela, serve para bancar custos de campanha e não é quitado.

Gardênia relata ainda que não atua sozinha. De acordo com seu depoimento ao site, outros servidores do gabinete também devolvem parte do salário. O relato sugere um modelo organizado de arrecadação interna, em que cargos oficiais funcionam como fonte de caixa para interesses políticos e pessoais, não apenas como postos de trabalho técnico.

Esquema reacende debate sobre ética e uso do dinheiro público

O caso estoura em um ambiente político ainda marcado pelas denúncias de rachadinha em gabinetes ligados ao entorno do ex-presidente Jair Bolsonaro. A prática, termo popularizado nos últimos anos, descreve o repasse de parte do salário de assessores a quem os nomeia. Embora antiga, a engrenagem ganha novo peso quando envolve um parlamentar que se projeta como voz da direita bolsonarista e defensor de pautas anticorrupção.

Mário Frias, ex-secretário especial de Cultura no governo Bolsonaro, volta ao centro do noticiário pouco depois de se associar ao filme “Dark Horse”, que narra a trajetória do ex-presidente. Ele atua como produtor executivo e mantém interlocução com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Mensagens reveladas pelo site Intercept Brasil mostram o deputado agradecendo a ajuda do empresário em 11 de dezembro de 2024 e prometendo um filme que vai “mexer com o coração de muita gente”.

Questionado na época, Frias nega que haja dinheiro de Vorcaro no projeto. “Não há um único centavo do sr. Daniel Vorcaro”, diz. Depois, ajusta o discurso e afirma que não vê contradição, porque o banqueiro “não é e nunca foi signatário de relacionamento jurídico, assim como o Banco Master nunca figurou como empresa investidora”. Os repasses, segundo reportagens, chegam à produtora do filme por meio da Entre Investimentos e Participações, ligada a negócios de Vorcaro.

As revelações sobre o gabinete em Brasília ampliam a pressão sobre o deputado. A suspeita de que uma ex-assessora financia, com salário público e dívidas consignadas, despesas privadas da família Frias contrasta com o discurso de moralização que move parte do eleitorado do PL. A comparação com o caso de Flávio Bolsonaro, hoje pré-candidato à Presidência, surge de imediato, tanto pelo mecanismo descrito como pelo vínculo político entre ambos.

No plano institucional, o episódio levanta dúvidas sobre a eficácia dos controles internos da Câmara para coibir arranjos ilícitos. Operações por Pix, saques fracionados e empréstimos consignados não escapam da burocracia bancária, mas só se tornam visíveis quando alguém, como Gardênia, decide expor os bastidores. A narrativa dela coloca em xeque o quanto a Casa conhece e tolera esquemas que drenam recursos de salários formais para caixas paralelos de campanha e benefícios pessoais.

Investigações, cenário político e o que pode vir pela frente

As informações reveladas tendem a provocar pedidos de apuração formal em órgãos de controle e no próprio Congresso. O Ministério Público Federal pode ser acionado para investigar peculato, que é o uso indevido de dinheiro público, e associação criminosa, caso fique comprovada uma estrutura organizada de captação e repasse. A Corregedoria da Câmara também passa a ser pressionada a abrir procedimento disciplinar contra Frias e a ouvir servidores citados pela ex-assessora.

No campo político, o desgaste atinge não só o deputado, mas o PL e o bloco bolsonarista, que tentam consolidar candidaturas nacionais e estaduais em 2026 com discurso anticorrupção. O caso alimenta adversários, fortalece narrativas de hipocrisia e pode pesar em futuras alianças regionais. A ausência, até aqui, de uma resposta detalhada do parlamentar sobre os repasses narrados por Gardênia deixa espaço para especulações e amplia o custo da crise de imagem.

Gardênia admite que parte dos empréstimos consignados contratados em seu nome não é paga e associa o calote às despesas de campanha que afirma ter bancado. A dívida, hoje em R$ 174.886, pode se transformar em novo flanco judicial, com ações civis e criminais envolvendo responsabilidade pelo endividamento. Se o Ministério Público entender que houve indução ou coação para a contratação, o caso pode extrapolar o campo ético e alcançar crimes contra a ordem financeira.

A comparação com o escândalo que envolve Flávio Bolsonaro, a quem Frias se refere como “irmão” e “brother” em mensagens a Vorcaro, reforça a dimensão simbólica do episódio. O tema da rachadinha já derruba auxiliares, alimenta investigações e molda a percepção pública sobre o bolsonarismo. Um novo caso, dentro do mesmo campo político, tem potencial para influenciar debates sobre reformas de transparência, regras de contratação em gabinetes e limites à gestão de verbas de pessoal.

Ainda não há cronograma oficial de apurações nem detalhamento de eventuais representações formais contra o deputado. A sucessão de denúncias, porém, torna improvável que o caso permaneça restrito ao noticiário de um fim de semana. A forma como Congresso, órgãos de controle e o próprio Mário Frias respondem a Gardênia Morais deve indicar se a prática da rachadinha segue como rotina silenciosa ou encontra, enfim, um freio institucional mais duro.

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