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Protestos na Bolívia fecham bancos e ampliam pressão sobre Rodrigo Paz

Um movimento nacional de protestos paralisa a Bolívia desde o início de maio e, nesta terça-feira (19), força o fechamento temporário de agências bancárias em La Paz. Sindicatos, mineiros, professores e grupos rurais pressionam o governo do presidente Rodrigo Paz a recuar nas medidas de austeridade e a ampliar o socorro econômico emergencial.

País em marcha lenta e escassez nas prateleiras

As manifestações começam com greves setoriais no início de maio e se espalham rapidamente para as estradas, que agora acumulam caminhões parados e filas de veículos em vários departamentos do país. Os bloqueios interrompem o fornecimento de alimentos, combustíveis e suprimentos médicos e transformam a crise econômica em um teste político direto para o governo centrista de Paz, no cargo desde novembro de 2025.

Moradores de regiões abastecidas por La Paz relatam prateleiras vazias, postos sem gasolina e viagens canceladas por falta de transporte. A escassez provoca contraprotestos de grupos que exigem a liberação imediata das vias e acusam os organizadores dos bloqueios de “usar a população como refém”. Autoridades de saúde admitem que pacientes deixam de chegar a hospitais por causa das interrupções nas rodovias.

A crise ganha novo patamar com o avanço das marchas sobre a capital administrativa. Na segunda-feira (18), apoiadores do ex-presidente Evo Morales cruzam La Paz em passeata, somando-se a sindicatos de transporte e professores que já cruzam os braços há quase duas semanas. A palavra de ordem nas faixas é o fim dos cortes de gastos públicos e a revogação das reformas agrárias vistas como favoráveis a grandes proprietários rurais.

Alguns grupos passam a pedir abertamente a renúncia de Paz, argumento que o Palácio do Governo classifica como tentativa de “desestabilização” e atribui a aliados de Morales. Analistas locais apontam, porém, que a insatisfação nasce menos da disputa entre lideranças políticas e mais da combinação de inflação, perda de renda e incerteza sobre o rumo da economia.

Bancos fechados e gás lacrimogêneo nas ruas

O nervosismo chega ao sistema financeiro na terça-feira (19), quando ao menos três grandes bancos – BCP, Banco Econômico e o estatal Banco Unión – fecham temporariamente suas agências na região central de La Paz. Funcionários de cinco instituições dizem à agência Reuters que as operações presenciais só voltam quando os protestos arrefecerem, embora os serviços online e caixas eletrônicos permaneçam disponíveis.

A associação bancária Asoban evita atribuir os fechamentos à onda de manifestações, mas reconhece que a rede funciona de forma parcial. A decisão reforça a sensação de paralisia em uma cidade já marcada por bloqueios de avenidas, ônibus recolhidos às garagens e comércio operando com portas entreabertas. Pequenos empresários relatam queda brusca no faturamento e receio de desabastecimento prolongado caso os bloqueios avancem para as rotas de importação.

O governo responde com um misto de negociação e força. Cerca de 3.500 agentes das forças de segurança são mobilizados para liberar estradas e escoltar comboios com alimentos, combustíveis e remédios. Em vários pontos de La Paz, a polícia lança gás lacrimogêneo para dispersar manifestantes e enfrenta barricadas erguidas com pedras e pneus em chamas. O saldo, segundo autoridades, inclui ao menos 57 prisões e três mortes associadas aos bloqueios, entre elas pacientes que não conseguem chegar a unidades de saúde.

A escalada preocupa países vizinhos. A Argentina envia uma aeronave militar com suprimentos alimentares a pedido do governo boliviano, enquanto o Chile organiza remessas de itens de primeira necessidade para regiões mais afetadas. A ajuda humanitária tenta conter o avanço da escassez, mas não reduz a pressão sobre o Palácio do Governo, que enfrenta críticas por ter demorado a reagir à deterioração do cotidiano nas cidades.

Medidas de austeridade sob cerco

No centro do impasse está o pacote de austeridade que Paz apresenta como condição para estabilizar as contas públicas. Desde que assume, em novembro, ele defende cortes de gastos, revisão de subsídios e um programa de reformas capaz de atrair investimentos em energia e infraestrutura. Entre as medidas em preparação está o fim gradual do controle de preços dos combustíveis, visto como insustentável pelos técnicos do governo, mas explosivo na base social que depende do transporte rodoviário.

Professores exigem reajustes salariais e ampliação de recursos para escolas, sob o argumento de que a inflação corrói o poder de compra desde 2024. Sindicatos de transporte entram em greve por tempo indeterminado e reclamam da falta de combustível e de garantias mínimas de abastecimento. Grupos indígenas e rurais rejeitam as reformas agrárias em discussão, que consideram desenhadas para regularizar grandes áreas em favor de poucos proprietários.

O governo tenta desarmar parte dessa bomba ao revogar, neste mês, uma lei agrária considerada das mais polêmicas. A decisão não acalma as bases rurais, que veem a mudança como tardia e insuficiente. Em paralelo, negociadores do Executivo oferecem aumentos salariais pontuais a setores estratégicos, mas enfrentam resistência de lideranças sindicais que temem acordos isolados e insistem em um plano mais amplo de auxílio emergencial.

Especialistas consultados pela imprensa boliviana apontam uma mudança de natureza nos protestos, que deixam de ser concentrados em pautas regionais para se tornar um movimento nacional contra a condução da economia. “O que se vê é a convergência de frustrações antigas com um governo que chega prometendo estabilidade e entrega mais aperto para quem já vivia no limite”, resume um analista político em La Paz.

Crise testa resistência do governo Paz

Rodrigo Paz insiste que não há alternativa fácil. Em discursos recentes, ele argumenta que os cortes de gastos e a redução gradual de subsídios são “dolorosos, mas indispensáveis” para recuperar a capacidade de investimento do Estado. Aposta em um pacote de reformas a ser enviado ao Congresso nas próximas semanas, com incentivos à produção doméstica de energia, abertura a novos investimentos privados e mecanismos de compensação social ainda pouco detalhados.

As ruas cobram pressa. Cada dia adicional de bloqueios significa mais filas por alimentos, mais ônibus parados e mais pressão sobre bancos, hospitais e comércios, em um país onde grande parte da população vive da informalidade. A oposição tenta capitalizar o desgaste e acusa o governo de apostar na repressão em vez de negociar um acordo político mais amplo para enfrentar a crise.

A estabilidade do mandato de Paz entra no radar de governos estrangeiros e investidores, atentos à possibilidade de um ciclo prolongado de instabilidade. As próximas semanas serão decisivas para medir a capacidade de o governo recompor o diálogo com sindicatos, movimentos rurais e grupos indígenas. A pergunta que permanece sem resposta é se a Bolívia consegue redesenhar seu ajuste econômico sem incendiar ainda mais as ruas.

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