Lula volta a liderar disputa de 2026 contra Flávio Bolsonaro, diz Datafolha
Lula reassume a dianteira em um eventual segundo turno contra Flávio Bolsonaro, segundo pesquisa Datafolha divulgada nesta sexta-feira 22. O levantamento é o primeiro a medir o efeito das mensagens reveladas entre o senador do PL e o banqueiro Daniel Vorcaro sobre repasses milionários para propaganda bolsonarista.
Datafolha capta impacto de novas denúncias
O Datafolha mostra o presidente com 47% das intenções de voto, contra 43% do senador do PL, em um cenário de segundo turno para a eleição presidencial de 2026. Outros 9% dizem que pretendem votar em branco ou nulo, enquanto 2% afirmam não saber em quem votar.
O levantamento é realizado na quarta e quinta-feira, dias 20 e 21 de maio, em 139 municípios de todas as regiões do país. Foram ouvidas 2.004 pessoas com 16 anos ou mais. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%, de acordo com o instituto. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-07489/2026.
Os números marcam uma mudança em relação à rodada anterior, divulgada no sábado 16. Naquele momento, Datafolha registrava empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro, com 45% para cada lado. A coleta de dados, então, ocorria majoritariamente antes da publicação, pelo site The Intercept Brasil, das conversas entre o senador e Vorcaro sobre repasses milionários para um filme de propaganda de Jair Bolsonaro.
A nova pesquisa reforça tendência já sinalizada por outro instituto. Na terça-feira 19, o AtlasIntel divulga um cenário semelhante, com Lula a 47,8% em um eventual segundo turno, contra 41,8% de Flávio. A convergência de resultados indica um desgaste recente do senador, em um ambiente já marcado por forte polarização.
Cenário segue polarizado, mas margem reabre para Lula
O quadro descrito pelo Datafolha confirma que a disputa pelo Planalto continua concentrada entre o presidente e o herdeiro político de Jair Bolsonaro. A diferença atual de quatro pontos, dentro do limite da margem de erro, ganha peso quando comparada ao empate registrado dias antes das denúncias. A pesquisa sugere que o episódio envolvendo Daniel Vorcaro passa a interferir de forma mais nítida na percepção do eleitorado.
As revelações trazidas pelo Intercept detalham tratativas de repasses multimilionários para financiar um filme de propaganda do ex-presidente, ainda figura central do campo bolsonarista. Ao expor bastidores de financiamento político, o caso reabre o debate sobre origem dos recursos de campanha e limites da influência de grandes financiadores privados na eleição de 2026.
Nos números do Datafolha, a frente de Lula não se restringe ao duelo com Flávio. Em outros cenários de segundo turno testados pelo instituto, o petista mantém vantagem. Contra Ronaldo Caiado, do PSD, o presidente aparece com 48%, diante de 39% do governador goiano. A proporção de brancos e nulos chega a 11%, e 2% não sabem em quem votar.
Em simulação contra Romeu Zema, do Novo, Lula também marca 48%, enquanto o governador mineiro soma 39%. O volume de eleitores que declaram voto em branco, nulo ou em nenhum dos candidatos permanece em 11%, com 2% de indecisos. No duelo com Michelle Bolsonaro, do PL, a distância diminui: o presidente registra 48%, e a ex-primeira-dama, 43%, com 8% de brancos e nulos e 1% que não sabem responder.
Os dados confirmam que o presidente mantém vantagem numérica em todos os cenários avaliados, mas exposto a um ambiente de rejeição cruzada e fadiga política. A soma de brancos, nulos e indecisos, que alcança até 13% em alguns confrontos, sinaliza um contingente expressivo de eleitores à espera de mais informações antes de se comprometer.
Disputa pelo centro e efeito Vorcaro moldam reta final
A entrada em cena das conversas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro adiciona um elemento de incerteza a um quadro já fragmentado. As mensagens tratam de repasses multimilionários para apoiar um filme de propaganda de Jair Bolsonaro, peça simbólica para manter viva a narrativa do bolsonarismo às vésperas da eleição. A associação direta entre o senador e um banqueiro que negocia valores tão altos alimenta discursos de adversários sobre transparência, caixa paralelo e abuso de poder econômico.
O Datafolha não detalha, nesta divulgação, em que segmentos o senador mais perde apoio depois dos áudios. Mas o recuo em um cenário que vinha empatado indica vulnerabilidade entre eleitores moderados, menos tolerantes a suspeitas de irregularidades financeiras. Esse grupo costuma ser decisivo em eleições presidenciais desde a redemocratização e tende a se mover com rapidez diante de denúncias de corrupção.
As campanhas de 2026 ainda não estão oficialmente nas ruas, mas as estratégias começam a se ajustar ao novo ambiente. A equipe de Lula tenta consolidar a imagem de estabilidade institucional e recuperação econômica gradual, enquanto associa o campo bolsonarista a riscos para a democracia e à zona cinzenta do financiamento político. O entorno de Flávio Bolsonaro, por sua vez, deve buscar enquadrar as revelações como perseguição, repetindo a retórica de vítima que marcou o bolsonarismo desde 2018.
A presença de nomes como Caiado, Zema e Michelle Bolsonaro nos cenários de segundo turno mostra que a direita e a extrema direita testam alternativas. A despeito desses movimentos, a fotografia atual indica que o embate central continua entre Lula e o bolsonarismo, agora representado pelo filho mais velho do ex-presidente.
Meses decisivos à frente e disputa por narrativa
Os próximos meses tendem a ser marcados por tentativa intensa de ocupação de espaço nas redes sociais, investigações sobre o financiamento das peças de propaganda e novas pesquisas de intenção de voto. Cada novo dado sobre a relação entre Flávio Bolsonaro, Daniel Vorcaro e a máquina de comunicação da família Bolsonaro pode deslocar ainda mais o eleitorado que hoje declara voto branco, nulo ou indeciso.
Tribunais eleitorais, Ministério Público e órgãos de controle acompanham com atenção as denúncias que envolvem repasses milionários para a propaganda bolsonarista. Eventuais procedimentos formais podem impor restrições jurídicas às campanhas e influenciar o tom do debate, historicamente sensível à palavra corrupção. A pesquisa desta sexta-feira não define a eleição, mas inaugura uma fase em que o financiamento político e a relação de candidatos com grandes financiadores voltam ao centro da disputa. A pergunta que permanece é se o eleitor punirá de forma duradoura os envolvidos nas novas denúncias ou se a polarização voltará a engolir qualquer escândalo até o dia da urna.
