STJD rejeita pedido do Santos e mantém derrota em jogo com Neymar
O Superior Tribunal de Justiça Desportiva nega, por unanimidade, o pedido do Santos para anular a derrota por 3 a 0 para o Coritiba, em decisão tomada nesta sexta-feira (22). O clube alegava erro de direito na substituição de Neymar, ocorrida na Neo Química Arena, pela 16ª rodada do Brasileirão.
Tribunal vê falha de campo, não erro de regra
Os auditores do STJD concluem que a arbitragem comete um erro de fato, ligado à condução da partida, e não um erro de direito, quando há descumprimento explícito das regras. Essa diferença, no entendimento unânime do plenário, impede a anulação do jogo realizado em 22 de maio de 2026, em Itaquera.
O Santos entra com a ação ao sustentar que o protocolo oficial de substituições é desrespeitado no lance que tira Neymar de campo. O clube afirma que tenta defender “a instituição e o cumprimento das regras da Fifa” e sustenta que a equipe de arbitragem ignora a indicação registrada em papel pelo banco santista.
O episódio ocorre no segundo tempo, quando o Santos já perde para o Coritiba. Neymar recebe atendimento médico à beira do gramado e, enquanto é observado pelos médicos, o jovem Robinho Jr. entra em seu lugar. A troca surpreende o camisa 10, que se revolta na hora e cobra a arbitragem, em cena que alimenta a queixa formal do clube.
Na sessão desta sexta-feira, o STJD afasta a tese de que o árbitro viola o protocolo a ponto de invalidar a partida. O tribunal se apoia em súmula, testemunhos e no entendimento consolidado de que erros de avaliação ou de comunicação da arbitragem, por si só, não autorizam a anulação de um resultado.
Versões conflitantes à beira do gramado
O auxiliar técnico César Sampaio sustenta, desde o apito final, que o plano original da comissão é tirar o lateral Gonzalo Escobar e não Neymar. Ele afirma que o quarto árbitro precipita a troca, apesar do registro escrito da alteração desejada.
“No instante da substituição, o Neymar sai de campo e eu pedi para o quarto árbitro, o Bruno, para aguardar, porque poderíamos mudar a substituição. A mudança era o 7 pelo 31”, relata Sampaio, citando Robinho Jr. e Escobar. Segundo ele, o árbitro assistente já está com o papel na mão quando levanta a placa com o número 10. “Entendo que foi uma precipitação do quarto árbitro. O maior documento é o papel e ele estava com o papel na mão”, afirma.
A súmula da partida apresenta outra versão. O árbitro Paulo Cesar Zanovelli da Silva escreve que a equipe recebe autorização verbal e gestual do próprio Sampaio para a saída de Neymar, que naquele momento se encontra fora de campo, em atendimento. O delegado da partida, Guilherme Zangari da Rocha, é citado como testemunha do diálogo.
“Aos 20 minutos, o quarto árbitro foi informado verbalmente pelo assistente técnico […] de que haveria uma substituição e que esta alteração seria a saída do número 10”, registra Zanovelli. Ele acrescenta que, mesmo após a confirmação inicial, o quarto árbitro volta a consultar Sampaio antes de erguer a placa. “Recebendo nova confirmação verbal e gestual do mesmo”, escreve o juiz.
O embate de versões sustenta o debate jurídico, mas não convence o tribunal a interferir no placar. Para os auditores, trata-se de uma decisão de campo, ainda que possivelmente equivocada, protegida pelo princípio de que o árbitro é a autoridade final sobre o que acontece durante o jogo.
Durante a defesa do Coritiba, o advogado do clube recorre a uma frase do próprio técnico do Santos, Cuca, para reforçar esse raciocínio. Em entrevista coletiva após o 3 a 0, o treinador afirma: “Quanto à substituição do Neymar, não foi isso que nos acarretou a derrota. Não foi isso. Não seria justo pôr a culpa em quem apitou o jogo ou em quem estava de quarto árbitro, e dizer que perdeu por causa disso”.
Impacto na tabela e recado ao futebol brasileiro
Com a manutenção do resultado, o Coritiba preserva os três pontos da vitória e se afasta momentaneamente da parte de baixo da tabela. O Santos continua com 18 pontos, na 16ª colocação do Campeonato Brasileiro, perigosamente próximo da zona de rebaixamento.
A decisão também funciona como recado a dirigentes e torcedores que enxergam no STJD uma espécie de instância revisora de lances polêmicos. Ao classificar o caso como erro de fato, o tribunal reforça uma linha que se consolida há anos: falhas técnicas e de comunicação da arbitragem não reabrem partidas, ainda que envolvam jogadores decisivos como Neymar.
O entendimento atinge diretamente o ambiente interno do Santos. O clube tenta mostrar reação esportiva e institucional em meio a uma temporada instável, em que soma apenas 18 pontos em 16 jogos, média de 1,12 ponto por partida. A frustração pela manutenção da derrota alimenta críticas à condução da arbitragem na Neo Química Arena e expõe a tensão entre comissão técnica, elenco e direção.
Para o elenco, a confirmação do placar deixa pouco espaço para explicações externas. A equipe de Cuca, que já lida com pressão da torcida, precisa buscar pontos imediatos para afastar o risco de entrar na zona da degola. O peso simbólico de ver Neymar fora de campo, em uma derrota contundente por 3 a 0, amplia a cobrança sobre rendimento e concentração em jogos decisivos.
No plano mais amplo, o caso reabre a discussão sobre protocolos de substituição e comunicação entre bancos de reservas e arbitragem. Clubes pressionam por regras mais claras e por maior transparência nos diálogos à beira do gramado, hoje restritos à palavra dos envolvidos e ao relato em súmula.
O que vem depois do veredito
O Santos ainda pode recorrer dentro da própria Justiça Desportiva, mas a decisão unânime do plenário e o histórico de julgamentos tornam remota qualquer reversão. Internamente, a tendência é deslocar o foco para o campo e tratar o episódio como mais um capítulo de uma temporada marcada por pressão, erros e resultados abaixo do esperado.
Para Neymar, o episódio adiciona uma nova linha à relação complexa com o clube que o revelou. A imagem do camisa 10, irritado ao perceber a própria saída, deve seguir como referência em debates sobre a autoridade do árbitro e a autonomia das comissões técnicas. A pergunta que permanece, no entanto, ultrapassa a polêmica da placa levantada aos 20 minutos: até que ponto o futebol brasileiro está disposto a revisar seus protocolos sem transformar o tribunal em um novo árbitro da rodada?
