Sonda Psyche registra Marte em detalhe e ganha impulso rumo a asteroide
A NASA divulga nesta terça-feira (19) imagens inéditas de Marte feitas pela sonda Psyche, que sobrevoa o planeta em 15 de maio de 2026 para ganhar velocidade rumo ao asteroide metálico 16 Psyche. A manobra usa a gravidade marciana como “estilingue cósmico” e acelera a espaçonave em cerca de 1.600 km/h, reduzindo custos de combustível em uma viagem que só termina em 2029.
Marte em crescente e um ensaio geral no espaço profundo
A Psyche passa a 4.609 quilômetros da superfície de Marte, distância comparável à órbita de alguns satélites de navegação e comunicação ao redor da Terra. Nesse ponto, todos os instrumentos da missão entram em operação, em um teste completo de câmeras, magnetômetros e sensores capazes de medir radiação e partículas carregadas no ambiente marciano.
As imagens reveladas pela agência mostram Marte sob um ângulo raro. Como a sonda se aproxima por cima do plano em que o planeta orbita o Sol, a iluminação cria um disco em formato de crescente, lembrando as fases da Lua vistas da Terra. Os cientistas notam ainda que a atmosfera marciana espalha a luz do Sol com mais intensidade que o previsto, o que amplia o halo brilhante ao redor do planeta nas fotos.
Durante a máxima aproximação, a nave registra uma sequência rápida de imagens da superfície, que servem para calibrar os sistemas ópticos antes da chegada ao asteroide. A equipe trata o sobrevoo como um ensaio em condições reais. “A passagem por Marte é o nosso laboratório em movimento, onde testamos tudo exatamente como será feito em 16 Psyche”, explica Lindy Elkins-Tanton, investigadora principal da missão.
O contato com a sonda ocorre por meio da Rede de Espaço Profundo (DSN), um sistema de grandes antenas distribuídas em diferentes continentes. Esses equipamentos acompanham cada ajuste de trajetória em tempo quase real. Para os navegadores do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL), a confirmação de que a nave cruza o ponto previsto em relação a Marte representa a validação de anos de cálculos.
Asteroide de ouro e laboratório de formação planetária
A missão Psyche decola em outubro de 2023 com um objetivo ambicioso: investigar o asteroide 16 Psyche, localizado no cinturão principal de asteroides entre Marte e Júpiter. O objeto, com cerca de 280 quilômetros em sua maior largura, ganha apelido de “asteroide de ouro” pela alta concentração de metais, sobretudo ferro e níquel. Estimativas populares falam em um valor hipotético de até US$ 10 quintilhões, embora o interesse científico pese muito mais que qualquer cálculo econômico.
Pesquisadores suspeitam que o 16 Psyche seja o núcleo exposto de um antigo corpo planetário destruído por bilhões de anos de colisões. Em vez de uma rocha comum, ele poderia guardar a estrutura metálica interna que, em planetas como a Terra, permanece escondida a milhares de quilômetros de profundidade. “Se essa hipótese estiver correta, estamos diante de um registro quase intacto dos primeiros estágios de formação dos planetas rochosos”, afirma Elkins-Tanton.
Ao estudar a composição, a gravidade e o campo magnético do asteroide, a sonda pretende responder a perguntas básicas sobre como surgem e evoluem os núcleos metálicos. Esses dados ajudam a refinar modelos que descrevem o interior da Terra e de mundos como Marte, Vênus e Mercúrio. Também alimentam discussões mais recentes sobre mineração de asteroides e uso de recursos espaciais, ainda em estágio inicial, mas cada vez mais presentes em planos de longo prazo de agências e empresas.
Nesse contexto, a manobra de assistência gravitacional em Marte não é apenas um truque de navegação. Ela representa a viabilização prática de uma missão que depende de eficiência extrema. Em vez de queimar grandes quantidades de combustível químico, a Psyche aproveita a energia gravitacional de um planeta inteiro para reajustar seu caminho e ganhar impulso natural, mantendo a velocidade de cruzeiro próxima de 20 mil km/h.
Tecnologia em teste e uma viagem até 2029
Após deixar Marte para trás, a sonda retoma seu sistema de propulsão solar-elétrica, que converte energia captada por grandes painéis solares em impulso contínuo. O método não oferece arrancadas bruscas, mas garante aceleração suave e prolongada, ideal para percorrer a longa distância até o cinturão de asteroides. A estratégia combina o “empurrão” gravitacional do planeta vermelho com a eficiência dos motores elétricos para manter a missão dentro do cronograma.
Os dados coletados no entorno de Marte também interessam a outras áreas da ciência espacial. Magnetômetros da Psyche podem ter registrado a onda de choque formada pela interação entre o vento solar e a fraca atmosfera marciana. Sensores de radiação medem o ambiente pelo qual astronautas e cargas futuras provavelmente passarão, material que será comparado com séries históricas de missões anteriores. Curiosity, Perseverance e orbitadores da NASA e da Agência Espacial Europeia acompanham à distância o sobrevoo, em uma colaboração que soma dados de diferentes instrumentos.
Quando alcançar o asteroide, previsto para agosto de 2029, a nave entrará em órbita em diferentes altitudes e fases. Mapeará a superfície, medirá variações de densidade e examinará o campo magnético em busca de pistas sobre a origem do objeto. Cada órbita funciona como uma camada de detalhamento, aproximando gradualmente a visão que hoje se limita a pontos de luz em telescópios.
Para a NASA, o sucesso do sobrevoo marciano reforça a confiança na rota traçada. “O impulso gravitacional fornecido por Marte é essencial para que a espaçonave sustente sua longa jornada pelo Sistema Solar”, resume Elkins-Tanton. A partir de agora, a Psyche segue sozinha, entre Marte e Júpiter, carregando instrumentos que podem esclarecer como se montam e se desfazem mundos rochosos como o nosso. A resposta, se vier, estará escondida em um bloco metálico de algumas centenas de quilômetros, à espera da visita de uma única nave.
