Alcolumbre barra leitura de requerimentos e trava CPI do Banco Master
O presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), recusa nesta quinta-feira (21) ler requerimentos para instalar a CPI do Banco Master. A decisão, tomada em sessão conjunta em Brasília, adia indefinidamente a investigação sobre suspeitas envolvendo o banco e investimentos do Rio Previdência. A negativa acirra o embate político em torno da transparência no uso de recursos públicos.
Disputa em plenário e blindagem política
Alcolumbre conduz a sessão sob pressão de deputados e senadores que cobram a leitura imediata dos requerimentos. Ele mantém a posição de priorizar a análise de vetos presidenciais enviados por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e esvazia, na prática, a tentativa de abrir a CPI. A decisão ocorre enquanto o caso Banco Master se torna um dos focos da crise política em Brasília.
O senador afirma em plenário que a leitura de pedidos de criação de comissões depende de um despacho da presidência. “Requerimentos de leituras de matérias devem ser objeto de despacho da presidência”, diz. “Portanto, o momento da leitura é um ato discricionário da presidência da mesa do Congresso Nacional.” Ao usar o termo, Alcolumbre sinaliza que não pretende se submeter à pressão dos defensores da CPI.
A recusa abre um flanco de críticas entre parlamentares que veem na CPI uma resposta necessária às suspeitas em torno da aplicação de R$ 970 milhões do Rio Previdência no Banco Master. O fundo, responsável por pagar aposentadorias e pensões de servidores do Rio de Janeiro, já carrega um histórico de operações controversas e de rombos bilionários. A associação entre dinheiro da previdência estadual e um banco alvo de questionamentos amplia a temperatura política.
Um dos defensores mais ativos da CPI em plenário é o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência em 2026. O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro tenta se colocar como voz em defesa de investigação ampla sobre o banco e o fundo. A estratégia esbarra na revelação recente de conversas entre ele e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, que empurram sua pré-campanha para uma crise precoce.
Flávio na linha de tiro e o peso de R$ 970 milhões
As mensagens divulgadas entre Flávio e Vorcaro colocam em xeque a narrativa de distanciamento. Em plenário, o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) explora essa contradição e cobra explicações diretas. Ele lembra que Vorcaro deixa a prisão com tornozeleira eletrônica e recebe, no dia seguinte, a visita de Flávio. “O senhor foi visitá-lo um dia depois que ele saiu da prisão com tornozeleira eletrônica? Quer dizer que não sabia dos envolvimentos dele?”, questiona.
Lindbergh também coloca no centro do debate a aplicação de R$ 970 milhões do Rio Previdência em operações com o Banco Master, em um período em que o fundo está sob gestão de um governo aliado ao partido de Flávio no Rio de Janeiro. “Vossa Excelência não sabia da aplicação de 970 milhões de reais do Rio Previdência, governado pelo seu partido, no seu estado?”, insiste o petista, reforçando a relação entre poder político local, gestão de recursos previdenciários e decisões financeiras de alto risco.
As cifras ajudam a dimensionar o impacto potencial da CPI. O Rio Previdência, que já enfrenta dificuldades para honrar compromissos e depende de manobras fiscais sucessivas, administra bilhões que sustentam a renda de aposentados e pensionistas. Qualquer suspeita de desvio, má gestão ou favorecimento a instituições financeiras específicas atinge diretamente a confiança de servidores e da população fluminense.
A resistência de Alcolumbre à leitura dos requerimentos gera reações cruzadas. Integrantes da base do governo Lula veem na decisão uma forma de evitar que a CPI se transforme em palanque eleitoral para a oposição em ano pré-eleitoral. Parte da oposição, por sua vez, acusa o presidente do Congresso de atuar para proteger interesses de diferentes campos políticos, inclusive setores próximos ao governo federal, que temem uma investigação mais ampla sobre negócios com o sistema financeiro.
Pressão por transparência e disputa até a eleição de 2026
A travada na CPI do Banco Master ecoa além do plenário nesta quinta-feira. Organizações que acompanham a gestão de fundos previdenciários e o uso de recursos públicos veem na decisão um mau sinal para a transparência. A manutenção de R$ 970 milhões sob suspeita, sem uma comissão formal de investigação, tende a alimentar desconfiança e teorias de proteção cruzada entre partidos.
O episódio também interfere no tabuleiro da sucessão presidencial. Flávio Bolsonaro, que tenta se consolidar como alternativa da direita em 2026, entra na sessão em posição defensiva. As denúncias sobre sua relação com Vorcaro somam-se a questionamentos antigos sobre seu patrimônio e seu papel em esquemas investigados no Rio. A recusa de Alcolumbre em avançar com a CPI pode ser lida, por adversários, como uma blindagem indireta que enfraquece o discurso de combate à corrupção no Congresso.
Nos bastidores, senadores e deputados discutem alternativas regimentais para forçar a leitura dos requerimentos em sessões futuras. Alguns cogitam recorrer ao Supremo Tribunal Federal para questionar o alcance do poder discricionário da presidência do Congresso na instalação de CPIs. Outros apostam na pressão política contínua, com novas coletivas, manifestos e discursos em plenário para manter o tema em evidência.
A sessão desta quinta termina sem data para a leitura dos pedidos da CPI do Banco Master. A incerteza abre espaço para novas negociações e trocas de apoio em votações de interesse do governo e da oposição. Enquanto isso, o caso que envolve R$ 970 milhões do Rio Previdência permanece sem apuração formal no âmbito do Congresso. A dúvida que se impõe é se o Parlamento conseguirá responder à cobrança por transparência antes que a disputa eleitoral de 2026 tome conta de vez da agenda política.
