Vídeo de ministro israelense humilhando ativistas agrava crise com Brasil
O ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben-Gvir, divulga nesta quarta-feira (20) vídeos de ativistas da Flotilha Global Sumud algemados, vendados e ajoelhados em um armazém no porto de Ashdod. Entre eles estão quatro brasileiros detidos dois dias antes, em uma interceptação classificada pelo governo brasileiro como ilegal, em águas internacionais próximas à Faixa de Gaza.
Da abordagem em alto-mar à exposição diante das câmeras
A crise começa na segunda-feira (18), quando embarcações da Marinha israelense cercam parte da flotilha humanitária que deixa a Turquia rumo a Gaza. Segundo os organizadores, cerca de 50 barcos tentam entregar mantimentos e suprimentos básicos à população palestina, rompendo o bloqueio naval mantido por Israel há anos sobre a Faixa de Gaza. As detenções ocorrem em águas internacionais, perto de Chipre, ponto que se torna o eixo da disputa jurídica e diplomática.
Entre os centenas de ativistas levados para Israel estão quatro brasileiros: a advogada de direitos humanos Ariadne Teles, coordenadora da flotilha no Brasil; Beatriz Moreira, militante do Movimento dos Atingidos por Barragens; a desenvolvedora de software Thainara Rogério, brasileira com cidadania espanhola; e o pediatra Cássio Pelegrini. As três mulheres são presas juntas. Pelegrini está em um dos últimos barcos interceptados, que, segundo a Agência Brasil, chega a menos de 100 milhas náuticas da costa de Gaza antes de ser abordado.
Os detidos são levados ao porto israelense de Ashdod e, em seguida, ao centro de detenção de Ktzi’ot, no sul do país. A Embaixada do Brasil em Tel Aviv informa que os quatro brasileiros seguem incomunicáveis, sem acesso consular nem advogados, situação que se mantém até esta quarta-feira. Familiares e colegas de militância relatam não saber em que condições de saúde eles se encontram e dizem não ter recebido qualquer telefonema ou mensagem desde a interceptação.
As primeiras descrições do que ocorre no porto aparecem na imprensa israelense. O jornal Haaretz relata que os ativistas passam horas em um armazém, ajoelhados em filas, com as mãos presas por abraçadeiras plásticas. Segundo o relato, agentes de segurança circulam entre os detidos, enquanto ordens em voz alta determinam que todos mantenham a cabeça baixa.
É esse cenário que Ben-Gvir decide transformar em peça de propaganda política. Em vídeo gravado durante visita ao porto de Ashdod, o ministro caminha entre dezenas de pessoas algemadas, vendadas e ajoelhadas, enquanto o hino nacional israelense ecoa em alto-falantes. Em um dos trechos, uma ativista grita “Palestina livre” e é empurrada ao chão por um agente mascarado. Na legenda, o ministro escreve: “É assim que recebemos apoiadores do terrorismo. Bem-vindos a Israel”. Olhando para os presos, provoca: “Somos os donos da casa”.
Tratamento degradante expõe fissuras diplomáticas e internas
A publicação do vídeo dispara uma reação em cadeia. Em Brasília, o Itamaraty confirma a detenção dos quatro brasileiros e divulga nota em tom incomum. “O governo brasileiro deplora o tratamento degradante e humilhante dispensado por autoridades israelenses, em particular pelo Ministro da Segurança Interna de Israel, Itamar Ben Gvir, aos participantes da Flotilha Global Sumud”, afirma o texto. O comunicado exige a libertação imediata dos cidadãos brasileiros, repudia a interceptação em águas internacionais e cobra “pleno respeito” aos direitos e à dignidade dos detidos, citando a Convenção da ONU contra a Tortura como parâmetro que vincula Israel.
A nota chancela a avaliação dos organizadores da flotilha, que falam em sequestro marítimo. A ONG Adalah, que acompanha juridicamente os detidos, acusa Israel de violar o direito internacional ao conduzir os ativistas para seu território contra a vontade deles, após uma abordagem fora de suas águas territoriais. Israel sustenta a versão oposta: afirma que age para impedir apoio ao Hamas e diz ter “o direito de proteger suas águas territoriais”, expressão contestada por governos estrangeiros, exatamente porque a operação ocorre em área internacional.
O vídeo de Ben-Gvir amplia o desgaste bem além do tabuleiro jurídico. Itália, Espanha, França, Bélgica, Alemanha, Reino Unido e Irlanda convocam diplomatas israelenses para explicações e divulgam notas próprias de repúdio. A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, e o chanceler Antonio Tajani consideram as imagens “inaceitáveis” e dizem que o tratamento “fere a dignidade da pessoa humana”. O chanceler espanhol, José Manuel Albares, vai além e exige um pedido formal de desculpas, classificando o que vê como “monstruoso, desumano e indigno”.
A pressão chega ao principal aliado de Israel. Mike Huckabee, embaixador dos Estados Unidos em Tel Aviv, chama os atos de Ben-Gvir de “desprezíveis” e cobra respeito a padrões mínimos de tratamento de presos, mesmo em operações de segurança. A França convoca o embaixador israelense em Paris, enquanto o ministro francês Jean-Noël Barrot define a conduta do ministro israelense como “inadmissível”. Em poucos dias, a flotilha humanitária, até então tema restrito a círculos militantes, entra no centro da agenda diplomática europeia.
O impacto político atravessa o próprio governo israelense. O chanceler Gideon Sa’ar critica publicamente Ben-Gvir e afirma que o colega “causou intencionalmente danos ao Estado” com uma “exibição vergonhosa”. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu tenta conter o prejuízo. Em declaração à imprensa, diz que o tratamento dado aos ativistas “não está de acordo com os valores e normas de Israel”, embora defenda a interceptação em alto-mar e acuse os organizadores de atuarem em favor do Hamas. O racha expõe a disputa interna em Israel sobre o custo político de alimentar a imagem de um país disposto a humilhar ativistas frente às câmeras.
Bloqueio a Gaza, pressão por libertação e disputa por narrativas
Os efeitos mais concretos recaem sobre os próprios detidos. A Embaixada do Brasil em Tel Aviv afirma esperar que visitas consulares sejam autorizadas a partir de quinta-feira (21), após dias de bloqueio imposto por Israel. Famílias e organizações brasileiras, porém, temem que a demora já tenha comprometido o acesso a remédios, alimentação adequada e acompanhamento médico, sobretudo no caso de idosos e pessoas com problemas crônicos de saúde entre os 428 a 430 ativistas que a flotilha registra como desaparecidos.
No Brasil, entidades de direitos humanos e movimentos sociais convocam atos diante do Itamaraty e de consulados israelenses. As manifestações pedem a libertação imediata dos quatro brasileiros e o fim do bloqueio a Gaza, que completa mais de uma década e meia. Organizações lembram que, segundo dados da ONU citados pela Agência Brasil, ataques aéreos israelenses matam mais de 4.400 civis palestinos em Gaza, Rafah e Khan Yunis desde 2008 e deixam mais de 165 mil feridos. É esse cenário, insistem os ativistas, que leva delegações de dezenas de países a se arriscar em alto-mar para tentar entregar ajuda diretamente à população palestina.
Israel responde que flotilhas como a Global Sumud ameaçam sua segurança, por supostamente abrirem brechas logísticas para o Hamas. Especialistas em direito internacional ouvidos por organismos da ONU lembram, porém, que o bloqueio prolongado e a interceptação de embarcações civis em águas internacionais alimentam questionamentos sobre a legalidade da estratégia israelense. O episódio desta semana reacende o debate global sobre até que ponto um país pode invocar segurança nacional para restringir a navegação e submeter civis a tratamento que beira a tortura.
Diplomatas brasileiros avaliam, reservadamente, que o caso deve reforçar iniciativas em fóruns multilaterais para responsabilizar autoridades israelenses por violações de direitos humanos. A menção explícita do Itamaraty à Convenção contra a Tortura abre espaço para que o Brasil apoie investigações em instâncias como o Conselho de Direitos Humanos da ONU e a Corte Internacional de Justiça, mesmo sem romper relações com Israel.
O desfecho imediato depende de decisões que ocorrem longe das câmeras que Ben-Gvir escolhe acionar. Israel pode optar por deportar os ativistas nas próximas horas, após tomar seus depoimentos, ou prolongar a detenção sob o argumento de apoio ao terrorismo. No Brasil e em capitais europeias, governos medem até onde vão na pressão sobre um aliado estratégico no Oriente Médio. Entre as famílias dos quatro brasileiros e de centenas de outros estrangeiros detidos, a pergunta é mais direta e urgente: quando, e em que condições, eles voltarão para casa.
