Raquel Lyra cobra obras estruturais após novas mortes por chuva em PE
A governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSDB), afirma neste domingo (3) que as mortes e desabrigados provocados pelos temporais no estado se repetem ano após ano por falta de investimento em infraestrutura. Ela defende obras estruturais, remoção de famílias de áreas de risco e ação conjunta com o governo federal e prefeituras para evitar novas tragédias.
Chuvas expõem ciclo de tragédias no Grande Recife
Os temporais que atingem o Grande Recife desde sexta-feira deixam pelo menos seis mortos e mais de 2 mil pessoas fora de casa. As chuvas fortes provocam deslizamentos em encostas, alagamentos em vias principais e rompem a rotina de bairros inteiros em Olinda, Recife e cidades vizinhas.
Equipes de resgate retiram 807 moradores de áreas inundadas e em risco de desabamento. Em vários pontos, a água avança por dentro das casas, arrasta móveis e deixa para trás um rastro de lama, esgoto e improviso. Em Olinda, máquinas pesadas operam no Canal do Fragoso, corredor histórico de alagamentos, enquanto moradores observam de cima de pontes e sacadas o resultado de mais uma madrugada de chuva intensa.
Em meio ao cenário de emergência, a governadora vai à imprensa para apontar o que considera um problema antigo e conhecido. “Não adianta a gente dizer que isso foi um desastre natural. Aqui absolutamente, de ano em ano, a gente vê as mesmas coisas acontecerem e muitas vezes em razão de omissão de investimentos permanentes, que pudessem tornar as nossas cidades mais seguras para a população poder viver onde elas vivem, onde há essas áreas de maior risco”, diz.
A fala ocorre no momento em que 27 municípios entram em estado de emergência e disputam, ao mesmo tempo, apoio financeiro e estrutura para socorrer vítimas. No Grande Recife, sirenes, viaturas e escavadeiras dividem espaço com colchões molhados estendidos em calçadas e escolas adaptadas às pressas como abrigos.
Governadora defende obras e remoção de famílias
Raquel Lyra insiste que o estado não pode tratar as enchentes como fatalidade inevitável. Segundo ela, os episódios recentes confirmam que a combinação de urbanização precária, ocupação de encostas e demora em obras de drenagem transforma cada frente fria em ameaça de morte. “Ou a gente investe em obras ou a população precisa ser retirada de lá, lhes dando moradia”, afirma.
A declaração coloca no centro do debate a política de habitação e a realocação de famílias que vivem em morros, margens de canais e áreas sujeitas a deslizamento. Técnicos da Defesa Civil apontam há anos os mesmos pontos críticos, onde novas casas continuam surgindo, muitas vezes sem licença, em ruas que não constam em mapas oficiais. Na prática, a falta de infraestrutura básica converte a chuva de algumas horas em desespero e luto.
A governadora sustenta que sua gestão tenta romper essa lógica desde o primeiro dia de mandato. “A gente tem atuado de maneira muito firme desde o primeiro dia do nosso mandato nesse sentido e o governo federal tem sido parceiro nesse aspecto”, diz. Ela cita obras de drenagem, canalização e contenção de encostas em curso, sem detalhar prazos ou valores, e reforça a necessidade de manter a articulação com Brasília para garantir recursos.
O trabalho com as prefeituras também entra no discurso. “Da mesma forma que nós estamos dando as mãos aos municípios, como também não era visto antes, já com todas as ações integradas no território”, afirma. Na prática, o governo estadual coordena uma força-tarefa com Defesa Civil, secretarias e gestões municipais para mapear danos, desobstruir vias e acolher desabrigados.
Nos últimos dias, o estado envia 1.354 colchões, 2.158 lençóis, 504 kits de limpeza e 404 kits de higiene para os municípios em emergência. O número de itens distribuídos mostra a dimensão imediata da crise, mas também expõe o limite da resposta emergencial. A cada novo volume de chuva classificado por meteorologistas como “problemático”, a estrutura de assistência social volta a ser testada.
Pressão por planejamento urbano e adaptação ao clima
A repetição de desastres em Pernambuco não é um episódio isolado no Nordeste. Cidades de diferentes estados enfrentam, ano após ano, o mesmo roteiro de sirenes, buscas em escombros e filas por cesta básica. Meteorologistas alertam que eventos extremos tendem a ficar mais frequentes e concentrados, o que aumenta a pressão por planejamento urbano e obras de drenagem capazes de suportar grandes volumes em poucas horas.
Em Recife, bairros conhecidos por alagamentos, como aqueles às margens de canais e rios urbanos, voltam a ser notícia. No Canal do Fragoso, em Olinda, o repórter Paulo de Tarso, da CNN Brasil, mostra ao vivo retroescavadeiras abrindo caminho em meio à água barrenta. Ao fundo, ruas transformadas em canais improvisados, com carros parcialmente submersos e comerciantes improvisando barreiras de tijolos nas portas.
Moradores relatam sensação de abandono histórico e prometem cobrar mais transparência no uso de recursos para obras estruturais. Entidades urbanísticas defendem que planos diretores deixem de ser documentos formais e passem a guiar, de fato, onde se pode construir e onde é preciso remover casas com indenização justa. Cada nova tragédia reforça o dilema entre manter comunidades em áreas consolidadas e retirar famílias para conjuntos habitacionais em regiões mais distantes.
No governo estadual, a ordem é manter as equipes nas ruas até a normalização mínima da rotina. “Só vamos sair deles a partir do momento em que a gente conseguir, junto aos municípios, restabelecer a normalidade da vida das pessoas”, afirma Raquel Lyra. Técnicos de defesa civil avaliam encostas, pontes e galerias para identificar pontos de risco imediato e locais que exigem intervenção permanente.
Reconstrução, cobrança e incertezas
Os próximos dias devem ser marcados por vistorias, anúncios de novas frentes de obra e, também, por disputa política em torno de responsabilidades. A governadora sinaliza que não pretende concentrar a culpa no chamado “desastre natural” e fala abertamente em omissão histórica de investimentos. Ao mesmo tempo, assume o compromisso de acelerar projetos que ainda estão no papel ou em fase inicial.
No curto prazo, a prioridade é garantir abrigo para as mais de 2 mil pessoas que não podem voltar para casa e reforçar a atuação em morros e canais mais vulneráveis. No médio prazo, o governo promete ampliar obras de drenagem, contenção e habitação, em parceria com o Planalto e prefeituras. O desafio é transformar o discurso de ruptura do ciclo de tragédias em obras entregues, ruas seguras e encostas estabilizadas.
As famílias que passam a noite em escolas e ginásios querem respostas mais objetivas do que protocolos e planos. Querem saber se continuarão morando nas mesmas vielas cortadas por barreiras de terra ou se terão acesso a casas em áreas seguras. A forma como o estado lida com essa escolha, entre investir pesadamente em infraestrutura ou optar pela realocação em massa, vai definir se as próximas chuvas serão só um incômodo ou o anúncio de mais uma temporada de luto.
