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Lula homenageia Milton Santos e recoloca geógrafo no centro do debate

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva homenageia neste sábado (3), em mensagem oficial, o geógrafo baiano Milton Santos, que completaria 100 anos em 2026. O governo destaca a obra do intelectual como referência para entender as desigualdades da globalização e o papel das periferias na transformação social.

Centenário reacende debate sobre globalização e desigualdade

A publicação de Lula recoloca Milton Santos no centro da disputa de ideias sobre o futuro do Brasil em um cenário de mudanças rápidas na economia e na geopolítica. O presidente sublinha que, duas décadas após a morte do geógrafo, em 24 de junho de 2001, suas análises seguem atuais diante da concentração de riqueza e do avanço da pobreza em várias regiões do planeta.

Na mensagem, Lula afirma que “Milton Santos completaria hoje seu centenário de nascimento. Sua obra é referência para entendermos as desigualdades da globalização e os potenciais de transformação que vêm das periferias”. O texto circula nas redes oficiais da Presidência e busca dialogar com um público mais amplo do que o meio acadêmico, em um momento em que o debate sobre desigualdade volta a pautar organismos internacionais e governos.

O presidente também destaca a capacidade singular do intelectual de interpretar o país em sua complexidade territorial e social. “Pouca gente conseguiu compreender o Brasil como este intelectual baiano que, não por acaso, é considerado um dos mais importantes geógrafos de nosso país – e de todo mundo”, escreve Lula. A frase ecoa avaliações de universidades europeias e latino-americanas que, desde os anos 1980, colocam o brasileiro entre os principais pensadores críticos da globalização.

Nascido em 1926, em Brotas de Macaúbas, no interior da Bahia, Milton Santos atravessa a segunda metade do século 20 analisando o impacto das grandes corporações, das finanças e das tecnologias de comunicação sobre o território. Em obras marcantes, como “Por uma outra globalização”, de 2000, o geógrafo denuncia o que chama de “globalização perversa”, que integra mercados, mas deixa milhões de pessoas fora do acesso à renda, aos serviços básicos e à cidadania plena.

Periferias como espaço de resistência e inovação

Lula aproveita o centenário para enfatizar um dos pontos mais sensíveis do pensamento de Santos para a realidade brasileira de 2026: o lugar das periferias. Ao contrário da visão que trata favelas e bairros afastados apenas como problema, o geógrafo descreve esses territórios como espaços de solidariedade, criatividade e invenção de novas formas de vida coletiva. “Os potenciais de transformação que vêm das periferias”, lembrados por Lula, dialogam com programas de urbanização, inclusão produtiva e cultura que o governo tenta fortalecer em grandes cidades.

A homenagem ocorre em um momento de reconfiguração das cadeias produtivas, da energia e da tecnologia, com disputas entre Estados Unidos, China, União Europeia e países emergentes. Nessa conjuntura, ganha peso a leitura de Santos sobre a importância da soberania e do controle do território para o desenvolvimento. Suas análises combinam mapas, fluxos econômicos e observação do cotidiano urbano para mostrar como decisões tomadas a milhares de quilômetros afetam diretamente o preço dos alimentos, o transporte e a moradia em bairros populares.

O presidente afirma que, “em tempos como o que vivemos hoje, com grandes mudanças geopolíticas, a obra de Milton Santos continua extremamente atual – e necessária”. A referência não é genérica. Em 2026, o mundo soma guerras regionais prolongadas, pressão sobre matérias-primas estratégicas e uma transição energética marcada por interesses conflitantes. No Brasil, o tema se traduz em disputas por investimentos, pela industrialização verde e pela inclusão de regiões historicamente negligenciadas, como o Semiárido e a Amazônia urbana.

Especialistas ouvidos ao longo dos últimos anos mostram que conceitos elaborados por Santos, como “meio técnico-científico-informacional”, ajudam a entender a velocidade com que aplicativos de entrega, plataformas de transporte e serviços financeiros digitais redesenham as cidades. Ao recolocar o geógrafo em destaque, o Planalto envia também um recado político: sem enfrentar desigualdades territoriais e sociais, qualquer projeto de desenvolvimento tende a reforçar a mesma geografia da exclusão.

Legado intelectual entra na agenda de governo e políticas públicas

A menção de Lula ao centenário tende a impulsionar eventos acadêmicos, seminários em universidades federais e ações em escolas públicas ao longo de 2026. Nos últimos anos, programas de extensão de instituições como a Universidade Federal da Bahia e a Universidade de São Paulo já usam textos de Milton Santos em projetos voltados a professores do ensino médio e lideranças comunitárias. A expectativa, no governo e em movimentos sociais, é ampliar esse alcance, levando a discussão sobre território, transporte e moradia para quem vive diariamente esses problemas.

O legado do geógrafo também influencia secretarias de urbanismo, planejamento e desenvolvimento regional, que buscam alternativas a modelos concentradores. Ao reforçar a ideia de que periferias são produtoras de conhecimento e soluções, a homenagem pode ajudar a mover recursos para políticas de regularização fundiária, mobilidade e equipamentos culturais em áreas de menor renda. Em um país com mais de 84% da população vivendo em cidades, segundo dados oficiais mais recentes, a leitura do espaço urbano deixa de ser tema restrito à academia e entra nas decisões de orçamento.

Movimentos de moradia, coletivos de juventude e organizações ligadas à economia solidária veem na figura de Milton Santos um aliado intelectual. A crítica à “globalização perversa” ressoa em pautas que vão da taxação de grandes fortunas à defesa de sistemas de transporte público integrado entre municípios. A lembrança presidencial, vinculada a uma data simbólica como o centenário, oferece visibilidade a essas demandas em um ano marcado por negociações orçamentárias e embates sobre prioridades de investimento.

O gesto de Lula não encerra o debate, mas contribui para recolocar perguntas incômodas sobre o modelo de desenvolvimento brasileiro. Qual projeto de país emerge quando se olha o mapa a partir das periferias, como propõe Milton Santos? Que tipo de globalização interessa a um Brasil que tenta reduzir desigualdades sem abrir mão da inserção internacional? As respostas ainda estão em disputa, mas o centenário do geógrafo mostra que, 100 anos depois de seu nascimento na Bahia, sua obra continua a oferecer ferramentas para encarar essas escolhas.

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