Rovers da Nasa revelam panoramas inéditos de duas faces de Marte
Os rovers Curiosity e Perseverance registram, até janeiro de 2026, panoramas de 360 graus em duas regiões distantes de Marte. As imagens expõem, em detalhe, a história geológica do planeta e reabrem a disputa científica sobre a existência de vida passada no vizinho vermelho.
Duas janelas para um mesmo planeta
Curiosity e Perseverance atuam a 3.775 quilômetros de distância um do outro, mas contam partes complementares da mesma história. Um sobe o Monte Sharp, no interior da cratera Gale, e observa como Marte se transforma ao longo de bilhões de anos. O outro percorre Lac de Charmes, na cratera Jezero, em busca das marcas mais antigas de água e de possíveis sinais de microrganismos extintos.
O novo conjunto de imagens, divulgado nesta sexta-feira (1º/5), consolida seis anos de trabalho do Perseverance em Jezero e mais de uma década do Curiosity em Gale. O panorama do Perseverance reúne 980 fotografias feitas entre 18 de dezembro de 2025 e 25 de janeiro de 2026. O resultado é um mosaico em 360 graus que reconstrói a borda de um lago seco, alimentado por rios que corriam ali há mais de 3 bilhões de anos.
Na outra ponta do planeta, o Curiosity escala um monte de 4,8 quilômetros formado por camadas rochosas empilhadas como arquivos geológicos. As rochas da base registram períodos mais antigos; as do topo, fases mais recentes. Cada metro vencido pelo robô move os cientistas alguns milhões de anos para frente no tempo, enquanto a câmera mapeia o entorno em esferas completas.
Marte entre rios, minerais e moléculas orgânicas
Os panoramas não são apenas belas imagens. Eles funcionam como mapas de trabalho que guiam perfurações e análises químicas. À medida que o Curiosity avança por terrenos mais altos, os instrumentos encontram minerais que não apareciam com frequência nas regiões inferiores. Um deles, a siderita, guarda dióxido de carbono preso em sua estrutura e indica uma atmosfera marciana mais densa e antiga. É uma pista direta de que o planeta teve um clima diferente, mais favorável à presença de água líquida.
O rover também identifica moléculas orgânicas complexas em rochas da cratera Gale. São cadeias longas de carbono, parecidas com blocos básicos de ácidos graxos. Em uma amostra perfurada em 2020, a equipe registra 21 compostos contendo carbono, sete deles inéditos em Marte. Os cientistas evitam qualquer euforia, mas reconhecem o peso desse achado. Esses compostos não provam que houve vida, mas demonstram que ingredientes químicos essenciais estavam disponíveis em algum momento do passado marciano.
Em Jezero, o Perseverance segue caminho inverso. Desde 2021, o robô deixa para trás rochas jovens e mergulha em terrenos cada vez mais antigos, considerados alguns dos solos expostos mais velhos do Sistema Solar. Ali, ele investiga deltas fluviais fossilizados e sedimentos que um dia ficaram no fundo de um lago. Esses depósitos podem ter funcionado como cofres naturais, capazes de preservar sinais de micróbios que viveram, cresceram e desapareceram há bilhões de anos.
O robô encontra, em 2024, uma rocha batizada de Cheyava Falls, marcada por pequenos pontos escuros. Na Terra, marcas semelhantes costumam estar ligadas a reações químicas impulsionadas por microrganismos. Em Marte, a equipe mantém cautela. As manchas não são prova de vida, mas se encaixam no tipo de evidência que astrônomos e geólogos buscam há décadas.
Impacto científico e corrida por amostras
As estratégias dos dois rovers se complementam em laboratório. O Curiosity tritura a maior parte das amostras e faz análises no próprio veículo, que roda desde 2012. O Perseverance, ativo desde fevereiro de 2021, opera com mais ambição. Em vez de pulverizar todo o material, ele perfura cilindros de rocha com o tamanho de um pedaço de giz escolar e os sela em tubos metálicos. Até o início de 2026, acumula 23 amostras que aguardam um plano de retorno à Terra.
As equipes do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa e da Caltech defendem que essa dupla abordagem fecha lacunas importantes. Um robô observa o que Marte se torna depois que rios secam, lagos evaporam e o clima fica mais frio e árido. O outro tenta reconstruir as origens, quando água líquida cobre crateras inteiras e o planeta oferece condições mínimas para o surgimento de organismos simples. Em conjunto, esses dados alimentam modelos climáticos, redesenham linhas do tempo geológicas e influenciam o desenho de futuras missões tripuladas.
Os panoramas também mostram um Marte em constante interação com o espaço ao redor. Microfones do Perseverance gravam, pela primeira vez em outro planeta, faíscas elétricas dentro de redemoinhos de poeira. O fenômeno, antes apenas teórico, passa a integrar o cálculo de riscos para robôs e futuros astronautas. Câmeras do rover ainda flagram auroras visíveis no céu fino marciano, um brilho discreto que revela como o planeta responde a rajadas de partículas solares mesmo sem um campo magnético robusto como o da Terra.
O Curiosity, por sua vez, deixa para trás um campo de saliências rochosas em forma de teia e entra em regiões ricas em sulfatos, minerais que se formam em ambientes mais secos. Essa transição marca uma virada no clima de Marte. Ao comparar esses registros com as paisagens úmidas reconstruídas em Jezero, pesquisadores conseguem desenhar, com mais precisão, quando e como o planeta perde água, calor e, possivelmente, habitabilidade.
Próximos passos na busca por vida marciana
Os novos panoramas chegam a um público que acompanha a exploração marciana com interesse crescente. As imagens reforçam a percepção de que o planeta já foi muito diferente do deserto congelado de hoje. Houve rios, lagos extensos e ciclos químicos complexos que alteraram a superfície ao longo de bilhões de anos. Esse retrato mais nítido ajuda a justificar investimentos em tecnologia espacial e mantém viva a discussão sobre a prioridade de missões a Marte frente a outros destinos, como a Lua ou luas geladas de Júpiter.
O Perseverance segue em direção a terrenos ainda mais antigos, como a região batizada de Singing Canyon, onde cada novo afloramento pode esconder outra peça desse quebra-cabeça. O Curiosity continua a escalar o Monte Sharp e a atravessar camadas de sulfatos que fixam a transição para um Marte mais seco. As amostras guardadas em tubos metálicos aguardam uma missão de retorno, que ainda depende de orçamento, cronograma e acordos internacionais. Quando esses cilindros finalmente chegarem a laboratórios terrestres, microscópios e aceleradores de partículas poderão responder, com mais segurança, à pergunta que move essas máquinas há anos: Marte já teve vida ou continua apenas a guardar, em silêncio, os ingredientes que nunca chegaram a se organizar em algo vivo?
