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EUA retiram 5 mil soldados da Alemanha após críticas sobre guerra no Irã

O Departamento de Guerra dos Estados Unidos anuncia a retirada de 5.000 soldados da Alemanha a partir de maio de 2026. A operação se estende por um período de seis a 12 meses e redistribui militares para bases em território americano e outros postos no exterior, em meio a um atrito aberto com o primeiro-ministro alemão, Friedrich Merz, sobre a guerra no Irã.

Retirada recoloca presença americana no patamar pré-guerra da Ucrânia

A decisão é tornada pública em comunicado do Pentágono e, segundo autoridades ouvidas pelo jornal The New York Times, reduz o contingente americano na Europa para o nível de 2022, antes da invasão russa à Ucrânia. A manobra marca um recuo na expansão militar iniciada após fevereiro de 2022, quando Washington reforça posições no leste europeu para conter Moscou. Na prática, a Alemanha continua como principal polo das forças dos EUA na região, mas com menor densidade e margem de manobra.

Os 5.000 militares deixam gradualmente o território alemão e seguem para diferentes destinos. Parte retorna diretamente aos Estados Unidos, distribuída por bases de treinamento e de prontidão, enquanto outra parcela migra para instalações americanas em países aliados. O plano não prevê envio de tropas de substituição para a Alemanha, o que esvazia, ainda que de forma parcial, a estrutura montada ao longo de décadas desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

Críticas de Merz ao papel dos EUA na guerra do Irã acirram tensão

A cúpula do Departamento de Guerra discute há meses uma redução da presença militar na Alemanha. Fontes citadas pelo NYT afirmam, porém, que o gatilho recente vem de declarações de Friedrich Merz sobre a atuação americana na guerra no Irã, iniciada em 28 de fevereiro. Na semana anterior ao anúncio, o primeiro-ministro afirma que o Irã “humilha” os Estados Unidos e questiona a condução do conflito. “Os americanos claramente não têm estratégia”, diz Merz, ao cobrar do presidente Donald Trump um plano para encerrar os combates.

Trump reage nas redes sociais poucas horas depois. Ele escreve que os Estados Unidos “estão estudando e avaliando uma possível redução de tropas na Alemanha, com uma decisão a ser tomada em um curto período de tempo”. Dias mais tarde, o presidente volta ao tema, desta vez em tom mais agressivo. “O chanceler da Alemanha deveria dedicar mais tempo a acabar com a guerra entre Rússia e Ucrânia (onde tem sido totalmente ineficaz!) e a resolver os problemas de seu país, especialmente imigração e energia, e menos tempo a interferir com aqueles que estão eliminando a ameaça nuclear iraniana”, afirma. A crítica expõe a irritação da Casa Branca com o que vê como ingerência de Berlim e falta de apoio concreto na campanha contra Teerã.

Frustração com falta de apoio alemão na guerra do Irã pesa na decisão

Ao anunciar internamente o plano de retirada, um alto funcionário do Pentágono admite ao NYT que a falta de contribuição da Alemanha na guerra contra o Irã frustra Washington. O governo americano esperava maior engajamento político e operacional de Berlim, tanto em sanções quanto em apoio logístico, mas encontra resistência do governo Merz, preocupado com a dependência energética e o risco de novos fluxos migratórios. A decisão de cortar 5.000 militares funciona, assim, como sinal público de descontentamento e instrumento de pressão em uma relação já marcada por divergências sobre gastos em defesa e sanções contra adversários comuns.

A Alemanha abriga hoje cerca de 35 mil militares americanos na ativa, além de uma extensa rede de quartéis, centros de comando e campos de treinamento. Em escala global, o país reúne o segundo maior contingente de tropas dos EUA no exterior, atrás apenas do Japão. Mesmo com a retirada anunciada, Berlim preserva o posto de principal hub militar americano na Europa, com bases usadas para operações no Oriente Médio, no próprio continente europeu e na África.

Impacto na segurança europeia e na guerra no Irã

A saída de 5.000 soldados ocorre em um momento em que a Europa encara ao mesmo tempo a guerra da Rússia na Ucrânia, em curso desde 2022, e a escalada da violência no Oriente Médio. O recuo simbólico dos EUA na Alemanha pode alimentar dúvidas entre aliados do leste europeu, que veem o território alemão como retaguarda essencial para reforços rápidos. Ao mesmo tempo, a redistribuição interna das tropas permite a Washington concentrar recursos em missões diretamente ligadas à guerra no Irã, sem depender tanto da logística europeia.

Analistas ouvidos pela imprensa americana avaliam que o movimento preserva a capacidade operacional dos EUA, mas reduz a flexibilidade na Europa. A ausência de tropas de substituição significa menos soldados disponíveis para exercícios conjuntos, treinamentos com forças da Otan e presença visível em território europeu. Para Berlim, a mensagem é dupla: a Alemanha mantém um papel central na infraestrutura militar americana, mas perde parte do peso numérico que reforça sua relevância política dentro da aliança ocidental.

Relação EUA-Alemanha entra em fase de teste

A decisão de Washington se soma a outros sinais de desgaste na relação bilateral. Nos últimos anos, cobranças públicas sobre o nível de gastos militares alemães, divergências em relação aos projetos energéticos com a Rússia e visões distintas sobre a abordagem ao Irã já criam ruído. A nova retirada de tropas, programada para se estender até, no máximo, o primeiro semestre de 2027, abre espaço para renegociações sobre o papel de Berlim na estratégia americana.

Diplomatas em capitais europeias acompanham o processo com atenção. Países do leste, como Polônia e Romênia, que já recebem parte das forças deslocadas da Alemanha em anos recentes, podem tentar atrair novos contingentes em troca de concessões políticas e militares. A questão central permanece aberta: até que ponto os Estados Unidos estão dispostos a reconfigurar sua presença na Europa em função de disputas políticas pontuais, enquanto a guerra na Ucrânia continua e o conflito no Irã adiciona mais uma frente de tensão ao tabuleiro global?

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