Ciencia e Tecnologia

Tim Cook alerta para crise global de chips de memória até 2026

A Apple alerta para uma crise global de chips de memória que ameaça smartphones e computadores. O aviso é dado por Tim Cook nesta quinta-feira (30), na teleconferência de resultados trimestrais da empresa.

Alta demanda de IA esgota memória para celulares e PCs

O alerta de Cook vem no momento em que a Apple divulga seus números trimestrais e admite enfrentar, há pelo menos um trimestre, “restrições de fornecimento” de memória. A crise não atinge apenas a empresa, mas se espalha por todo o setor de tecnologia, à medida que chips usados em inteligência artificial e grandes centros de dados passam a consumir a maior parte da produção mundial.

Os fabricantes de memória priorizam contratos mais lucrativos com provedores de nuvem e projetos de IA generativa, que exigem volumes gigantescos de dados circulando o tempo todo. O resultado é menos oferta para componentes usados em smartphones, computadores pessoais e outros dispositivos de consumo, justamente a base da vida digital de bilhões de pessoas. “Acreditamos que os custos de memória terão um impacto cada vez maior em nossos negócios”, afirma Cook, na sessão de perguntas e respostas com analistas.

Pressão da Bolsa acelera corrida por contratos de longo prazo

O recado do CEO ecoa num mercado já em ebulição. Fabricantes como Samsung, SK Hynix, Micron e SanDisk correm para ampliar fábricas e garantir contratos extensos com gigantes de hardware e de nuvem. A Micron vê suas ações acumularem alta de 570% em um ano, reflexo de uma demanda que parece não dar trégua. Investidores apostam que a escassez de memória, em especial DRAM e NAND, se prolonga pelo menos até 2026.

Do outro lado da mesa, empresas como Apple e Dell tentam blindar suas cadeias de suprimentos. Elas negociam acordos de vários anos para assegurar volume e preço em um cenário de custos em alta e competição feroz pelos mesmos chips. Cook evita falar em repasses imediatos para o consumidor, mas admite que a conta precisa fechar. O mercado financeiro pressiona por margens estáveis, e a pergunta, entre analistas, é direta: quem vai pagar a fatura, fabricantes ou usuários finais.

Risco de aparelhos mais caros e lançamentos atrasados

O impacto da crise de memória aparece primeiro na linha de montagem. Componentes mais caros e escassos elevam o custo de produção de cada smartphone e computador, e qualquer atraso na entrega de chips pode segurar o lançamento de novos modelos. Em ciclos tradicionais, grandes fabricantes planejam estoques com meses de antecedência; agora, trabalham com margens menores de segurança e maior dependência de contratos firmes com poucos fornecedores.

Consumidores sentem o efeito no bolso e no prazo. Modelos de entrada, que costumam depender de negociações mais apertadas de custo, correm maior risco de reajustes de preço ou chega tardia às prateleiras. Lojas online e varejistas físicos podem enfrentar falta de alguns modelos específicos, sobretudo versões com mais memória, hoje padrão em celulares e notebooks usados para trabalho remoto, estudo e jogos. Uma eventual alta de 10% a 20% no custo dos chips, estimada por analistas para os próximos trimestres, tende a pressionar o preço final dos aparelhos.

Apple corre para mitigar danos em meio a corrida por IA

Dentro da Apple, a discussão vai além dos próximos trimestres. A empresa disputa a mesma memória que alimenta serviços em nuvem, treinamentos de modelos de IA e data centers gigantes, enquanto prepara sua própria estratégia para inteligência artificial embarcada em iPhones, iPads e Macs. Cada avanço nessa área demanda mais capacidade de armazenamento e processamento, tanto no aparelho quanto nos servidores. “Continuaremos avaliando a situação”, diz Cook, indicando que a companhia analisa alternativas para mitigar os impactos.

Uma parte das soluções passa por contratos mais longos e diversificação de fornecedores. Outra envolve decisões de design, como ajustes nas configurações padrão de memória oferecidas em novos dispositivos e otimizações de software para reduzir o consumo de espaço. A pressão é grande para não repetir a crise de semicondutores vista entre 2020 e 2022, quando a falta de componentes atrasou linhas inteiras de produtos em vários setores.

Indústria aposta em novas fábricas, mas alívio leva anos

Fabricantes de memória anunciam planos bilionários para erguer novas plantas e modernizar linhas já existentes, em especial na Ásia e nos Estados Unidos. Esse movimento, porém, não traz resposta imediata: a construção de uma fábrica de chips, da licença ao início da produção em volume, leva de dois a três anos, em cenários otimistas. A capacidade que entra em operação até 2026 já nasce praticamente contratada pelos grandes compradores de serviços de nuvem e IA.

Nos bastidores, governos acompanham o tema com atenção, preocupados com a dependência de poucos países na produção de componentes críticos. Há expectativa de subsídios e programas de incentivo que acelerem a abertura de novas unidades e estimulem cadeias regionais de fornecimento. Enquanto isso, fabricantes de equipamentos precisam decidir quanto dessa incerteza repassar ao consumidor. Tim Cook sinaliza prudência, mas admite que a “crise de memória prolongada” pode redesenhar a dinâmica de preço e disponibilidade de celulares e computadores nos próximos anos. A resposta da indústria, nos meses seguintes, mostrará se o alerta se converte em escassez visível nas prateleiras ou se fica restrito às planilhas das fabricantes.

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