Franclim cobra equilíbrio após Botafogo sofrer virada do Remo no Nilton Santos
O técnico Franclim Carvalho admite a insatisfação com o desempenho do Botafogo no segundo tempo da derrota por 2 a 1 para o Remo, neste sábado (2), no Nilton Santos. A equipe termina a etapa final com mais de 60% de posse de bola, mas sem acertar um único chute no gol adversário. As mudanças no intervalo, especialmente a saída de Kadir, colocam o treinador no centro das críticas.
Posse sem agressividade expõe falha do plano
O vestiário do Botafogo no intervalo indica um caminho. Com vantagem parcial e boa produção ofensiva na primeira etapa, Franclim decide ajustar o meio-campo. A ideia é ganhar controle, segurar a bola e reduzir os contra-ataques do Remo. O preço, porém, aparece rápido no segundo tempo: o time recua, perde profundidade e praticamente abandona as finalizações.
Os números traduzem a frustração do treinador. “No segundo tempo fizemos zero remate no gol. E uma equipe como o Botafogo, como o meu Botafogo, não pode fazer isso, os jogadores sabem disso”, afirma, na entrevista coletiva no Nilton Santos, por volta das 18h58. Ele destaca que, mesmo com “60 e pouco por cento de posse de bola” na etapa final, o Remo consegue em torno de dez finalizações, quase todas em transições rápidas.
A mexida mais contestada acontece no intervalo, com a saída de Kadir. O meia vinha sendo uma das válvulas de escape na ligação com o ataque. Franclim explica que busca “ter mais gente por dentro para ligar”, aproximando Matheus, Montoro e Edenílson. “Pelos números, eu diria que conseguimos, porque tivemos mais bola, em relação ao primeiro tempo. Mas os números dizem: tiramos a tal agressividade ofensiva porque fizemos menos remates”, reconhece.
O resultado é um Botafogo que circula a bola, mas pouco ameaça. A posse se concentra atrás da linha da intermediária ofensiva, longe da área do Remo. A vantagem construída no primeiro tempo se desfaz, e o time para de competir perto da área rival. O jogo, que parecia sob controle, muda de dono à medida que o Remo encontra espaço nas costas da marcação alvinegra.
Virada liga alerta e aumenta pressão sobre o comando
A derrota em casa, com virada por 2 a 1, pesa mais pelo roteiro do que pelo placar em si. O Botafogo domina a posse, mas assiste ao adversário produzir mais e melhor. “Não podemos querer controlar o jogo com a bola e sempre levar transições. Não podemos. Isso é que nós temos que mudar. Não é o jogador A, B ou C”, insiste o treinador, ao admitir que o problema é estrutural, não individual.
O discurso expõe a tensão entre duas ideias. De um lado, o desejo de controlar o jogo com a bola. De outro, a necessidade de manter a agressividade que marca o bom primeiro tempo. “Mesmo tendo o Matheus, o Montoro e o Edenílson, tenho que ser agressivo na frente. E os jogadores têm agressividade na frente”, diz Franclim, numa tentativa de afastar a leitura de que o meio-campo mais técnico implica, necessariamente, um time menos vertical.
A análise do treinador toca em um ponto sensível do futebol atual: a posse de bola como dado vazio, quando não se traduz em perigo real. “Eu não quero ter 60% de posse de bola e estar controlando o jogo no meu meio-campo. Isso a mim não me diz nada. Zero”, afirma. Na prática, o Botafogo passa boa parte do segundo tempo trocando passes longe da área, sem conseguir acelerar a ponto de criar chances claras.
O desgaste não é apenas tático. A torcida deixa o Nilton Santos com a sensação de que o time abdica de atacar na etapa final. A crítica se volta a Franclim, que vê seu plano de “controle” resultar em um Botafogo estático, vulnerável nos contra-ataques e incapaz de chutar ao gol. Analistas apontam que a equipe precisa alinhar o discurso de protagonismo com uma postura mais agressiva no terço final do campo.
Equilíbrio vira desafio central para a sequência da temporada
O próprio treinador coloca o equilíbrio como palavra-chave para os próximos jogos. “Tenho que controlar o jogo com a bola no meio-campo do adversário, mais perto da baliza do adversário do que da minha”, resume. A frase sintetiza o ajuste que ele promete trabalhar a partir desta semana: manter posse, sim, mas em zonas do campo que realmente machuquem o rival.
O calendário não oferece muito tempo para reflexão. A tendência é que a pressão aumente se o Botafogo repetir atuações como a deste sábado, com posse estéril e vulnerabilidade defensiva. Internamente, a comissão técnica se debruça sobre os vídeos das transições sofridas, ponto que o próprio Franclim admite como problema recorrente. “Nós vamos ver estas transições que vocês estão fartos de citar, mas é um fato, não me vou esconder disso, sabemos disso e temos de trabalhar sobre isso”, conclui.
O jogo contra o Remo pode virar marco de correção de rota ou sintoma de um problema mais profundo. A resposta estará nos próximos 90 minutos, quando o Botafogo precisará provar, em campo, que é capaz de transformar posse de bola em finalizações, vantagem em resultado e discurso em desempenho consistente.
