Narges Mohammadi é internada às pressas após colapso na prisão no Irã
A ativista iraniana Narges Mohammadi, Nobel da Paz de 2023, é internada às pressas em um hospital de Zanjan nesta sexta-feira (1º), após perder a consciência e sofrer uma crise cardíaca grave depois de 140 dias de negligência médica na prisão.
Deterioração súbita expõe pressão sobre regime iraniano
A transferência de Narges interrompe uma rotina de recusa sistemática de atendimento especializado desde 12 de dezembro, quando ela volta a ser detida pelo regime iraniano. Aos 51 anos, uma das vozes mais conhecidas contra a repressão no Irã chega ao hospital depois de dois episódios de perda total de consciência e um infarto sofrido no fim de abril, dentro da prisão de Zanjan, no noroeste do país.
A Fundação Narges Mohammadi descreve a situação como uma “deterioração catastrófica” da saúde da ativista. Segundo a organização, ela perde cerca de 20 quilos desde a nova prisão e tem o quadro cardíaco agravado pela ausência de exames e medicamentos indicados por sua equipe em Teerã. Os médicos da penitenciária atestam, nesta semana, que já não é possível tratar a paciente ali, o que força as autoridades a autorizar a remoção de emergência.
O diagnóstico interno confronta diretamente a estratégia adotada pelos serviços de segurança iranianos: retardar ao máximo qualquer deslocamento para fora do complexo prisional. A fundação afirma que, por meses, relatórios médicos que recomendam sua avaliação por especialistas em Teerã circulam sem resposta entre autoridades judiciais e de segurança. “Esta transferência foi inevitável, depois que os médicos da prisão determinaram que sua condição não poderia ser tratada no local — apesar das recomendações médicas vigentes de que ela fosse atendida por sua equipe de especialistas em Teerã”, afirma a entidade, em comunicado.
A família denuncia que o regime tenta, até o limite, manter a laureada com o Nobel longe da capital, onde a visibilidade é maior e o acesso à imprensa estrangeira, mais provável. O hospital de Zanjan, cidade de cerca de 430 mil habitantes, a 300 quilômetros de Teerã, é apresentado como solução emergencial, mas parentes temem que o socorro chegue tarde demais. “Estamos lutando pela vida dela”, diz o irmão, Hamidreza Mohammadi, que vive em Oslo, em mensagem de áudio divulgada pela Associated Press.
Negligência médica, repressão política e alerta internacional
A crise atual se acumula a um histórico de prisões, sentenças e campanhas de intimidação contra Narges desde o início dos anos 2000. Engenheira de formação, ela se torna conhecida por denunciar execuções, tortura e a obrigatoriedade do véu para mulheres iranianas. Em 2023, recebe o Prêmio Nobel da Paz justamente pelo papel em expor abusos sistemáticos, em especial após a morte de Mahsa Amini, em 2022, sob custódia da polícia da moral.
A nova detenção ocorre em 12 de dezembro, quando ela é levada para a prisão de Zanjan, a cerca de dois meses de receber o Nobel em cerimônia à qual não pode comparecer. Desde então, a fundação relata pelo menos 140 dias de recusa de tratamento adequado, mesmo diante de queixas insistentes de dor no peito, falta de ar e tonturas. Em fevereiro, já debilitada, a ativista inicia uma greve de fome para protestar contra as condições de encarceramento e a proibição de acesso à equipe médica de confiança.
No período em que permanece sob custódia, Narges também é condenada a mais sete anos de prisão por “propaganda contra o sistema”, acusação recorrente usada pela Justiça iraniana contra dissidentes. O acúmulo de penas a mantém, na prática, em regime de encarceramento indefinido. Para organizações de direitos humanos, o uso deliberado da privação de atendimento médico configura forma de tortura. O caso de Narges passa a ser tratado como símbolo dessa prática, descrita pela fundação como “negligência médica sistemática”.
Governos europeus e organismos internacionais acompanham a escalada de risco. A cada boletim de deterioração, cresce a pressão para que o Irã permita acesso irrestrito de especialistas independentes e, em última instância, autorize sua libertação por razões humanitárias. A permanência da ativista sob custódia, mesmo após receber o Nobel e sofrer um infarto documentado, alimenta a percepção de que o regime busca transformar a prisão em instrumento de intimidação pública. O caso reforça denúncias de que o sistema penitenciário funciona como parte da engrenagem de repressão política.
Disputa por sobrevivência e próximos passos sob vigilância
A internação de emergência em Zanjan não encerra a disputa sobre o destino de Narges, apenas desloca o campo de batalha da cela para o leito hospitalar. Familiares e apoiadores temem que o tratamento seja limitado ao estritamente necessário para afastar o risco imediato de morte, sem garantir acompanhamento contínuo e independente. A transferência é descrita pela própria fundação como “uma ação desesperada de última hora, que pode ser tardia demais para suprir suas necessidades críticas”.
Organizações de direitos humanos pressionam por uma investigação internacional sobre as condições de detenção da ativista e de outros prisioneiros políticos no país. Entidades defendem o envio urgente de missões da ONU para monitorar hospitais penitenciários e visitar presos em risco de vida. A família insiste em duas exigências básicas: acesso a especialistas de confiança em Teerã e garantia de que ela não será devolvida à prisão sem plena recuperação. “A cada dia de atraso, o custo humano aumenta”, resume um comunicado recente da fundação.
A forma como o Irã lida com o caso tende a influenciar a relação do país com parceiros europeus e a moldar o discurso de governos que já falam em sanções adicionais ligadas a violações de direitos humanos. O desfecho também serve de termômetro para o espaço restante de dissenso interno num regime que responde com prisões e espancamentos a protestos de rua desde 2022. Enquanto médicos tentam estabilizar o quadro cardíaco de Narges, a pergunta que ecoa entre familiares, diplomatas e ativistas permanece sem resposta: o Estado iraniano está disposto a salvar a vida de sua principal crítica dentro das prisões que ele próprio controla?
