EUA retiram 5 mil soldados da Alemanha em meio a atrito com Berlim
Os Estados Unidos iniciam, em maio de 2026, a retirada de 5 mil soldados da Alemanha, em plena escalada verbal entre Donald Trump e o chanceler Friedrich Merz. A medida reflete uma revisão da postura militar americana na Europa e expõe o desgaste na relação entre Washington e Berlim.
Diplomacia em choque e recado à Otan
A decisão vem um dia depois de Trump atacar publicamente Merz nas redes sociais. O presidente americano acusa o chanceler de “fazer um trabalho terrível” e lista “problemas de todos os tipos”, de imigração a energia. O gesto militar vira instrumento de pressão política, em meio à guerra no Irã e a críticas abertas à aliança ocidental.
No centro da disputa está a condução do conflito no Golfo. Merz afirma, em encontro com estudantes, que “os americanos claramente não têm estratégia” e diz não enxergar “qual saída” Washington pode adotar. Ele descreve os negociadores iranianos como “muito habilidosos em não negociar” e sustenta que os Estados Unidos vão a Islamabad, no Paquistão, e voltam “sem nenhum resultado”. Ao final, conclui que a “nação inteira” americana está sendo “humilhada” pela liderança iraniana.
Trump reage na plataforma Truth Social. Afirma que Merz acha “normal o Irã ter uma arma nuclear” e declara que o chanceler “não sabe do que está falando”. Em outro trecho, amplia o ataque à economia alemã: “Não admira que a Alemanha esteja indo tão mal, tanto economicamente quanto em outros aspectos”. O embate político se desdobra, na prática, em mudança concreta do mapa militar dos Estados Unidos na Europa.
O Pentágono confirma que a ordem para a retirada partiu do secretário de Defesa, Pete Hegseth, após o que chama de revisão completa da postura americana no continente. “Esta decisão segue uma revisão completa da postura das forças do Departamento na Europa e reconhece as necessidades e as condições no terreno”, afirma o porta-voz Sean Parnell, em comunicado. Ele estima que o processo seja concluído em “seis a doze meses”.
A Alemanha abriga hoje mais de 36 mil soldados americanos da ativa, de acordo com dados de dezembro de 2025. É de longe o maior destacamento dos EUA na Europa, com concentração em bases como a aérea de Ramstein, perto de Kaiserslautern, no sudoeste do país. Apenas o Japão recebe mais militares americanos no mundo.
Impacto na segurança europeia e na política alemã
Em Berlim, a decisão não surpreende o governo, mas causa desconforto. O ministro da Defesa, Boris Pistorius, tenta equilibrar o tom. Ele afirma que “a presença de soldados americanos na Europa, e particularmente na Alemanha, é do nosso interesse e do interesse dos EUA”. Em seguida, admite que a redução já era esperada. O movimento dos americanos, tanto na Europa quanto na Alemanha, “era previsível”, completa.
A retirada atinge diretamente a capacidade de resposta rápida da Otan em solo europeu. Menos soldados significam menos meios imediatos para operações de dissuasão e apoio logístico, sobretudo no flanco leste, hoje mais sensível pela desconfiança em relação à Rússia. Aliados no Leste Europeu já demonstram preocupação desde 2025, quando Washington decide reduzir a presença militar na Romênia como parte da mesma reorientação estratégica.
Naquele episódio, o ministro da Defesa romeno relata que Hegseth cobrou de Bucareste mais atenção à própria defesa. A mensagem ecoa agora em Berlim. A Alemanha acelera os investimentos militares e prevê gastar € 105,8 bilhões em defesa em 2027, o equivalente a 3,1% do PIB. O salto contrasta com a crítica antiga de Trump, que em 2020 chamava o país de “inadimplente” nas metas da Otan, fixadas em 2% do PIB.
O efeito interno também é concreto. Comunidades que dependem economicamente das bases americanas temem perda de empregos e queda de renda local. Ramstein, símbolo da presença dos EUA no pós-guerra, concentra milhares de militares e contratos civis. Cada redução de contingente significa menos consumo, menos serviços e renegociação de contratos com empresas alemãs.
A oposição em Berlim pressiona o governo Merz a dar respostas mais firmes. O chanceler tenta evitar a imagem de submissão a Washington, mas não pode ignorar o papel dos EUA na segurança do país. O equilíbrio é delicado: ao criticar a estratégia americana no Irã e falar em “humilhação” dos EUA, Merz fala para sua base doméstica, cansada de conflitos prolongados. Ao mesmo tempo, assiste a um recuo militar que pode obrigar a Alemanha a assumir ainda mais responsabilidades.
A tensão se espalha para outros aliados europeus. Questionado se também considera retirar tropas da Itália e da Espanha, Trump responde: “Provavelmente sim; veja bem, por que não faria isso?”. Ele acusa Roma de não ter ajudado “em nada” e classifica a atuação de Madri como “horrível” em relação à guerra no Irã. “Em todos os casos, disseram: ‘Não quero me envolver'”, reclama.
Reorientação estratégica e incertezas adiante
O movimento atual se soma a um histórico de ameaças de redução de tropas que não chegam a avançar. Em 2020, no primeiro mandato de Trump, uma proposta para transferir 12 mil soldados da Alemanha para outros países da Otan ou de volta aos EUA é barrada pelo Congresso e revertida durante a presidência de Joe Biden. Agora, a Casa Branca retoma a ofensiva num contexto de confronto aberto com Teerã e de pressão por maior participação europeia no esforço militar.
A Casa Branca mantém o foco na mudança de eixo estratégico para o Indo-Pacífico. A redução na Romênia e a nova retirada na Alemanha apontam na mesma direção: menos recursos permanentes na Europa, mais margem para deslocá-los para o entorno da China. Para a Otan, a mensagem é dupla. De um lado, Trump repete que aliados precisam gastar mais e se envolver em operações como a tentativa de reabrir o estreito de Ormuz. De outro, sinaliza que a garantia americana não é mais automática.
A chancelaria alemã evita ampliar a crise e não responde imediatamente às provocações de Trump. A embaixada da Alemanha em Washington também não se manifesta até a publicação deste texto. Em privado, diplomatas admitem preocupação com a possibilidade de novas retiradas ou de condicionamento explícito da presença militar americana a decisões específicas na guerra do Irã.
As próximas semanas devem mostrar se a medida ficará restrita a 5 mil soldados ou se vira o primeiro passo de uma redução mais profunda. O cronograma de seis a doze meses abre espaço para negociações políticas e técnicas dentro da Otan, que tenta preservar sua capacidade de dissuasão sem alimentar o discurso de que a Europa depende em excesso de Washington.
Merz, por sua vez, enfrenta um teste de liderança. Precisa provar que a Alemanha consegue combinar aumento de gastos militares, defesa dos interesses europeus e diálogo crítico com os Estados Unidos sem romper a parceria transatlântica. A resposta a esse desafio deve definir não apenas a relação com Trump, mas o papel de Berlim na segurança europeia nos próximos anos.
