Acordo Mercosul‑UE entra em vigor após 26 anos e redesenha comércio
O acordo comercial entre Mercosul e União Europeia entra em vigor nesta sexta-feira (1º), após 26 anos de negociação. Ursula von der Leyen e os presidentes de Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai celebram a aplicação provisória, que começa a derrubar tarifas e a abrir mercados entre os dois blocos.
Mensagem de abertura em um mundo em disputa
Ursula von der Leyen escolhe a palavra “mensagem” para marcar o dia. A presidente da Comissão Europeia afirma que o início da aplicação do acordo envia um recado político e econômico em meio à fragmentação global. “Juntos, enviamos uma mensagem poderosa ao mundo. De que a abertura e a parceria criam prosperidade para todos”, escreve na rede X, em agradecimento direto a Luiz Inácio Lula da Silva, Santiago Peña, Javier Milei, Yamandu Orsi e ao presidente do Conselho Europeu, António Costa.
A assinatura do tratado ocorre em janeiro de 2026, em Assunção, depois de 26 anos de idas e vindas. No papel, o pacto cria, ao longo de pouco mais de uma década, a maior área de livre comércio já negociada pelo Mercosul, com impacto sobre um mercado combinado de mais de 700 milhões de pessoas e um PIB somado superior a 16 trilhões de dólares. A entrada em vigor provisória nesta sexta-feira marca a virada concreta: tarifas começam a cair e cláusulas até então abstratas passam a valer no despacho de cargas, na assinatura de contratos e no planejamento de investimentos.
Von der Leyen destaca, em outra publicação, o caráter imediato da mudança. “Hoje, o acordo UE-Mercosul começa a ser aplicado provisoriamente. Os benefícios são reais e visíveis a partir de agora. As tarifas começam a cair. As empresas estão ganhando acesso a novos mercados. Os investidores têm a previsibilidade de que necessitam”, escreve. O recado é dirigido tanto a exportadores europeus quanto a governos sul-americanos que, por décadas, tratam o entendimento como promessa distante.
O que muda na prática para empresas e trabalhadores
A aplicação provisória não cobre todo o texto do acordo, mas libera o coração comercial do tratado. A partir deste 1º de maio de 2026, uma primeira leva de tarifas de importação começa a ser reduzida ou zerada, em prazos que variam de imediato até 10 anos, a depender do setor. Para o agronegócio do Mercosul, isso significa mais cotas para carne bovina, aves, açúcar, etanol e outros produtos hoje limitados por barreiras tarifárias na Europa. Para a indústria europeia, abre-se um corredor mais barato para máquinas, produtos químicos, medicamentos e automóveis.
Na prática, frigoríficos brasileiros e argentinos ganham espaço em supermercados europeus, enquanto fábricas de autopeças no Sul e Sudeste do Brasil passam a competir com componentes vindos da Alemanha, da França e da Itália com menos impostos. A promessa de Bruxelas e das capitais do Mercosul é que o barateamento de insumos ajude a modernizar a indústria sul-americana e a aumentar a produtividade, com reflexo em empregos mais qualificados. O temor de setores industriais locais, porém, é de que a competição com multinacionais europeias pressione empresas menos eficientes e force fusões, fechamentos e reestruturações.
Economistas ouvidos por governos dos dois lados estimam que, no médio prazo, o fluxo comercial bilateral pode crescer de 20% a 30%, com aumento gradual de investimentos diretos, hoje na casa de dezenas de bilhões de dólares anuais. A previsibilidade citada por Von der Leyen interessa especialmente a fundos de pensão, bancos de desenvolvimento e grandes grupos empresariais, que passam a operar com regras mais estáveis para compras governamentais, solução de controvérsias e proteção a investimentos.
O acordo inclui capítulos sobre meio ambiente, normas sanitárias e padrões técnicos, que funcionam como espécie de trilho regulatório. Exportadores de alimentos no Brasil, na Argentina, no Paraguai e no Uruguai terão de se adaptar, com prazos definidos, a exigências mais rígidas de rastreabilidade, desmatamento e bem-estar animal. Em troca, ganham segurança para manter acesso ao mercado europeu, que concentra consumidores com maior poder de compra e disposição para pagar por produtos de maior valor agregado.
Supervisão política e próxima rodada de disputas
Von der Leyen faz questão de frisar que a abertura vem acompanhada de controle político. “Conferimos ao Parlamento Europeu e aos Estados-membros da UE a prerrogativa de exercerem a sua supervisão democrática” sobre a aplicação do acordo, afirma. Na prática, isso significa que eurodeputados e governos nacionais podem convocar debates, exigir relatórios, pressionar por ajustes e, em casos extremos, travar a ratificação plena do tratado ou suspender partes de sua execução.
O movimento não é apenas formal. A resistência de agricultores europeus, sindicatos e grupos ambientais marca as etapas finais da negociação. Em paralelo, setores industriais do Mercosul cobram contrapartidas e medidas de proteção. A fase que se abre agora, com a aplicação provisória, funciona como teste de estresse para o texto firmado em Assunção. Governos prometem monitorar efeitos sobre emprego, inflação e balança comercial, enquanto empresas avaliam se o novo desenho de tarifas compensa investimentos em plantas, tecnologia e inovação.
A partir de 2026, o calendário fica mais apertado. Cada parlamento europeu precisa se posicionar sobre a ratificação integral, ao mesmo tempo em que governos do Mercosul lidam com eleições, pressões domésticas e ciclos econômicos distintos. Lula administra, em Brasília, o desafio de conciliar o entusiasmo com novos mercados com demandas de proteção à indústria nacional e à floresta amazônica, sob escrutínio permanente de ONGs internacionais. Javier Milei tenta traduzir o acordo em vitrine de abertura econômica argentina. Santiago Peña e Yamandu Orsi buscam reforçar a relevância de Paraguai e Uruguai como plataformas de exportação e logística regional.
Os próximos anos dirão se o pacto de 26 anos de gestação se converte em mudança estrutural para o Mercosul ou se permanecerá como um grande marco simbólico em tempos de fragmentação global. A velocidade com que tarifas caem, empresas se adaptam e parlamentos mantêm o apoio ao texto ajuda a responder a pergunta que ronda investidores e trabalhadores de ambos os lados do Atlântico: quem, de fato, vai colher os frutos da maior abertura entre América do Sul e Europa nas próximas décadas.
