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Oposição usa derrotas de Lula no Congresso e PT aposta tudo no fim da jornada 6×1

A oposição transforma uma sequência de derrotas do governo Lula no Congresso, entre abril e início de maio de 2026, em plataforma política para as eleições de outubro. O PT reage com mobilização social e aposta na aprovação do fim da jornada 6×1 como principal vitrine trabalhista do presidente.

Derrotas em série abrem crise política em Brasília

A queda do veto de Lula ao projeto da dosimetria e a rejeição do nome de Messias ao Supremo Tribunal Federal marcam uma das semanas mais duras do terceiro mandato. Senadores bolsonaristas e líderes do Centrão enxergam os movimentos como demonstração de força institucional e tentam consolidar uma nova maioria em pautas sensíveis, com potencial de se estender até outubro de 2026.

No plenário, o recado é direto ao Planalto e ao STF. A articulação que derruba o veto à dosimetria é costurada com aval do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que decide fatiar a análise para preservar a Lei Antifacção, sancionada no primeiro semestre e tratada como bandeira da oposição. Ele alega que a legislação mais recente se sobrepõe aos trechos conflitantes do projeto de dosimetria, evitando benefício amplo a condenados por crimes hediondos e integrantes de facções criminosas.

A manobra quebra o entendimento tradicional de que um veto único e integral é indivisível. Aliados de Lula afirmam em reservado que o gesto inaugura uma espécie de “jurisprudência política” no Congresso, com potencial para reabrir disputas antigas sobre a forma de análise de vetos presidenciais. O governo vê uma interferência direta no equilíbrio entre os Poderes.

Vice-líder do governo na Câmara, Lindbergh Farias (PT-RJ) classifica a decisão como inconstitucional e anuncia recurso ao Supremo. “Vamos recorrer”, diz, em tom de alerta, a interlocutores. O PT prepara uma ação que questiona tanto a supressão de trechos vetados quanto a própria validade do rito adotado na sessão, que também não leu o requerimento da CPMI do banco Master. A expectativa interna é formalizar o pedido ao STF até sexta-feira, 1º de maio.

O presidente do PT, Edinho Silva, fala em “grave retrocesso” para a democracia e em “perdão a quem planejou assassinatos”. A derrubada do veto pode reduzir penas impostas a condenados pela tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, inclusive a do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), sentenciado a 27 anos e 3 meses de prisão. Juristas ouvidos nos bastidores estimam que a pena possa cair até dois terços, mas o recálculo caberá ao Supremo, caso a caso.

Base rachada e aposta na jornada 6×1 como resposta

No entorno de Lula, a leitura é de que as derrotas escancaram falhas graves na articulação política. Parlamentares relatam descuidos na mobilização da base, traições em partidos aliados e uma sensação de desorganização numérica em votações decisivas. O ministro da Articulação Política é cobrado em conversas reservadas, e cresce dentro do PT a pressão por uma reorganização das lideranças no Congresso ainda em maio.

Parte da bancada teme que a crise contamine outras frentes sensíveis, como uma eventual nova indicação ao STF, e fragilize o presidente na reta de construção das chapas municipais e estaduais para 2026. A preocupação imediata, porém, é outra: blindar a proposta de fim da escala 6×1, hoje tratada como uma das principais apostas eleitorais do governo.

A PEC em discussão reduz a carga para 40 horas semanais e consolida a escala 5×2, com cinco dias de trabalho e dois de descanso, alterando diretamente a Consolidação das Leis do Trabalho. O tema mexe com jornadas de comércio, serviços e setores que funcionam em turnos, como postos de gasolina, supermercados, shopping centers e parte da indústria.

No PT, três pilares sustentam a estratégia. O primeiro é a pressão popular. A avaliação é que a ideia de dois dias de descanso por semana, em vez de um, fala direto à rotina de milhões de trabalhadores. Em ano eleitoral, a legenda aposta que a defesa de uma jornada menor “pega e tem força, inclusive entre a direita”, como define uma liderança petista. O próprio Lula reforça a mensagem em inserções partidárias na TV e em pronunciamento em cadeia nacional no Dia do Trabalho, em 1º de maio.

O segundo pilar é o acordo com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e partidos da base. Após a admissibilidade da PEC resultado da junção das propostas de Reginaldo Lopes (PT-MG) e Erika Hilton (PSOL-SP), a cúpula petista trabalha com a perspectiva de votação no plenário da Câmara ainda em maio. Deputados dizem ver “compromisso político” de Motta com o calendário, mesmo em meio às turbulências recentes.

O terceiro eixo é o projeto de lei enviado pelo governo federal, que tramita em regime de urgência. Pela regra, se não for votado em 45 dias, o texto passa a trancar a pauta da Câmara e impede a apreciação de outras matérias. A peça funciona como espécie de trava de segurança: pressiona pela análise da PEC e pode virar alternativa, se a emenda constitucional emperrar.

Hugo Motta, porém, decide priorizar a tramitação da PEC, sob o argumento de que uma mudança constitucional reduz disputas judiciais futuras. Mesmo assim, governistas comemoram a composição da comissão especial: presidência com Alencar Santana (PT-SP) e relatoria com Léo Prates (Republicanos-BA), combinação vista como alinhada ao Planalto.

No outro lado do tabuleiro, empresários e deputados ligados ao setor produtivo falam em aumento de custo e risco de demissões. Grupos do Centrão defendem contrapartidas, como flexibilizações em regras trabalhistas e maior peso de acordos coletivos em relação à lei, em uma espécie de “reforma trabalhista 2.0”. O embate deve se intensificar à medida que o relatório da PEC se aproxima da votação.

Congresso em disputa e campanha antecipada até outubro

O uso das derrotas recentes como vitrine da oposição reorganiza o tabuleiro em Brasília. Senadores bolsonaristas e líderes do Centrão enxergam na derrubada do veto à dosimetria e na rejeição a Messias para o STF a prova de que podem formar maioria estável contra o Planalto em temas sensíveis. A partir dessa leitura, crescem as conversas sobre pressionar pela abertura de processos de impeachment contra ministros do Supremo, embora mesmo entre oposicionistas haja quem admita que a aprovação do afastamento de um magistrado ainda pareça distante.

As vitórias parlamentares funcionam como credencial para negociações regionais nas próximas semanas. Deputados e senadores usam o placar de votações para demonstrar influência e atrair aliados locais, em especial em estados do Nordeste e do Centro-Oeste, onde a base do governo mostra mais fissuras. O objetivo é construir uma frente competitiva capaz de rivalizar com o PT nas eleições de 2026 e, ao mesmo tempo, impor sucessivas derrotas que desgastem Lula até lá.

No Planalto, a leitura é oposta. Assessores defendem que a aprovação da jornada 5×2 pode virar trunfo eleitoral semelhante ao papel do Bolsa Família em campanhas anteriores. A estratégia é simples: contrastar, na propaganda, a pauta trabalhista com as manobras da oposição em benefício de réus do 8 de janeiro. Uma liderança petista resume a aposta: a população talvez não acompanhe os detalhes da dosimetria, mas entende o que significam dois dias a mais em casa por mês.

A disputa se estende ao Judiciário. O recurso do PT ao STF contra a forma como o Congresso derruba o veto à dosimetria testa o limite da relação entre os Poderes. Se a Corte considerar inconstitucional o fatiamento, o governo ganha fôlego e reverte parte do desgaste. Se referendar a manobra, reforça a ideia de um Congresso disposto a esticar o próprio poder.

Os próximos meses devem ser marcados por sessões tensas no plenário da Câmara e do Senado, com negociações de madrugada e recados públicos em discursos inflamados. O desfecho da PEC da jornada 6×1 e a resposta do Supremo ao recurso do PT vão indicar se Lula consegue retomar a iniciativa política ou se a oposição mantém o controle da agenda até outubro. A dúvida, por enquanto, é se a promessa de dois dias de descanso por semana será suficiente para reequilibrar um jogo que hoje pende para o outro lado da Praça dos Três Poderes.

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