Pacheco descarta STF e foca disputa pelo governo de Minas
O senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG) descarta, nesta semana, qualquer chance de indicação ao Supremo Tribunal Federal após a rejeição de Jorge Messias pelo Senado. O presidente do Senado reafirma a aliados e em entrevistas que a “página” do STF está virada e concentra suas energias na provável candidatura ao governo de Minas Gerais em 2026.
Página virada para o Supremo em meio a derrota histórica
A negativa de Pacheco acontece dias depois de o Senado rejeitar, por 42 votos a 34, o nome de Jorge Messias, advogado-geral da União, para a vaga aberta com a aposentadoria de Luís Roberto Barroso. A derrota, a primeira de um presidente da República em indicação ao STF desde a Constituição de 1988, expõe o desgaste do governo Lula com parte da base aliada e reforça o peso do Senado na recomposição da Corte.
Nos bastidores, líderes do Congresso avaliavam que, após a queda de Messias, apenas Pacheco teria força para emplacar o próprio nome. O senador mineiro, porém, faz questão de encerrar o assunto. Em entrevista ao jornal O Globo, ele é categórico: “É bom deixar claro que não há a mínima possibilidade de isso acontecer. Essa página está realmente virada para mim e eu afirmei isso desde o primeiro momento. Esse tempo passou, se algum dia existiu. Melhor nem especular sobre isso”.
A declaração ecoa o que o parlamentar já dizia desde 2023, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) escolhe Messias para a cadeira de Barroso. Naquele momento, o nome de Pacheco circula com força no Congresso e em setores do governo, impulsionado pelo apoio de figuras como Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), presidente da Comissão de Constituição e Justiça. Lula, porém, decide manter o plano de projetar o mineiro para a disputa ao governo de Minas, segundo maior colégio eleitoral do país, com cerca de 16 milhões de eleitores.
Durante a sabatina de Messias, Pacheco adota um gesto discreto, evita protagonismo e tenta preservar a instituição em meio à tensão. O silêncio calculado, registrado em imagens do Senado, contrasta com a movimentação intensa de aliados e adversários do advogado-geral, que vêem na rejeição um recado direto ao Planalto e à forma como o Palácio do Planalto conduz as nomeações para a Corte.
Estratégia em Minas e rearranjo de forças em Brasília
A recusa em disputar o posto de ministro fortalece a leitura de que Pacheco mira o Palácio Tiradentes em 2026. O senador tem até o início de agosto, prazo oficial para o registro de candidaturas, para bater o martelo sobre o próprio futuro político. Até lá, dedica-se a costurar apoios com partidos de centro e centro-esquerda e a consolidar um palanque robusto para Lula em Minas, estado decisivo em eleições presidenciais recentes.
O movimento ganha força após a saída de Pacheco do PSD, seu partido desde 2017. O rompimento ocorre com a filiação do atual governador Mateus Simões, que deixa o Novo para disputar a reeleição após assumir o comando do estado com a renúncia de Romeu Zema, hoje pré-candidato à Presidência. Ao migrar para o PSB, sigla do vice-presidente Geraldo Alckmin, Pacheco se aproxima ainda mais do núcleo político do governo federal e se posiciona como o nome preferencial da centro-esquerda mineira.
Pesquisas recentes mostram que o desafio é relevante. Levantamento Quaest divulgado em 28 de abril coloca Pacheco em terceiro lugar em todos os cenários, atrás do senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) e do ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PDT). O resultado reforça a necessidade de ampla aliança partidária e de uma narrativa capaz de dialogar com eleitorados distintos, do empresariado ao funcionalismo público.
Em Brasília, a decisão do senador redesenha o jogo em torno da vaga no STF. Sem Pacheco na mesa, o Planalto perde uma solução considerada segura e vê crescer a pressão para que Lula indique uma mulher para a Corte. Entidades ligadas à igualdade de gênero reativam uma campanha lançada antes da escolha de Messias, que apresentava uma lista com 13 nomes femininos, e cobram que o governo corrija a sub-representação histórica no tribunal.
O debate ocorre em meio a um histórico de proximidade entre Pacheco e o Planalto nas sabatinas. Sob sua presidência no Senado, foram aprovadas as indicações de Cristiano Zanin, ex-advogado de Lula na Lava Jato, e de Flávio Dino, ex-ministro da Justiça. Ambos enfrentam resistência de parte da oposição, mas passam com o apoio firme do mineiro na interlocução com líderes partidários, o que torna ainda mais simbólica sua recusa em ocupar uma cadeira no Supremo.
Vaga em aberto, pressão por mulheres e incerteza no calendário
Com a cadeira de Barroso ainda vazia e a negativa de Pacheco, o Planalto volta à estaca zero na busca por um nome viável. A decisão de Lula sobre o próximo indicado passa a considerar não apenas o perfil jurídico, mas o desgaste recente com o Senado e o clamor público por maior diversidade. Em 132 anos de história, o STF conta com apenas duas ministras: Ellen Gracie, hoje aposentada, e Cármen Lúcia, que segue em atividade.
A pressão por uma indicação feminina ganha voz dentro do próprio PT. A deputada Gleisi Hoffmann, ex-ministra das Relações Institucionais, defende publicamente que Lula escolha uma mulher para a vaga. A leitura de parte do governo é que essa seria uma resposta política forte à derrota de Messias e um sinal de sintonia com movimentos feministas, mas o risco de nova rejeição em ano eleitoral pesa na balança.
Davi Alcolumbre, que comanda a CCJ e controla a porta de entrada das indicações ao Supremo, já indica que prefere só pautar um novo nome após as eleições municipais. A avaliação nos corredores do Senado é de que, hoje, não há ambiente para uma nova votação tão cedo. Em caso de clima adverso ou de derrota de Lula em 2026, a escolha do futuro ministro pode acabar nas mãos do próximo presidente da República.
A definição do calendário se cruza com o destino de Pacheco. Se ele confirmar a candidatura ao governo de Minas e perder a corrida pelo quarto mandato de senador, seu peso na sucessão do STF tende a diminuir. Se vencer e se firmar como governador e aliado central do Planalto, seu papel nas conversas sobre futuras vagas na Corte permanece relevante, ainda que distante da toga.
A recusa ao STF, nesse contexto, não encerra o enredo. Reposiciona o protagonista e abre espaço para uma nova disputa, agora em duas frentes: a do comando político em Minas Gerais e a da recomposição do Supremo em um país que chega às eleições de 2026 com mais dúvidas do que respostas sobre o equilíbrio entre Congresso, Planalto e Judiciário.
