Ciencia e Tecnologia

Relógio brasileiro da Condor monitora sono de astronautas da Nasa

Um relógio desenvolvido por uma startup paulista acompanha, em tempo real, o sono, a atividade física e a exposição à luz dos tripulantes da missão Artemis 2, prevista para 2026. O mesmo dispositivo já roda há dois anos em testes no espaço, em parceria com a Nasa, e ajuda a entender como o corpo humano se adapta a viagens cada vez mais longas e distantes da Terra.

Do CEPID ao espaço profundo

A confirmação de que o actígrafo da Condor Instruments voa com a Nasa chega por e-mail, de forma seca, em meio à rotina de laboratório. A mensagem informa que o primeiro voo tripulado ao redor da Lua em meio século leva a bordo um aparelho criado em São Paulo, lapidado com apoio da USP e do programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da Fapesp. A equipe descobre depois que os astronautas já usam o dispositivo em testes há pelo menos dois anos, na Estação Espacial Internacional (ISS) e em outras missões.

O equipamento parece um relógio comum, mas concentra sensores dignos de laboratório. Acelerômetros registram cada movimento de braço. Detectores de luz medem, em diferentes cores, quanto de claridade atinge os olhos do astronauta ao longo do dia. Termômetros acompanham oscilações de temperatura corporal, que caem entre 1 ºC e 2 ºC durante o sono. Juntos, esses dados desenham, minuto a minuto, o relógio biológico da tripulação em um ambiente que desafia qualquer noção de dia e noite.

O projeto nasce em outro contexto, bem distante da Lua. No Centro de Estudos do Sono, da Universidade Federal de São Paulo, o cronobiólogo Mario Pedrazzoli precisa de uma ferramenta confiável para acompanhar voluntários em pesquisas sobre o impacto do horário de verão. As opções importadas são caras e pouco adaptáveis. Surge o primeiro protótipo de actígrafo nacional, ainda com peças usinadas, pensado para uso acadêmico.

O salto de um protótipo de bancada para um produto de alta precisão vem com a aproximação de dois engenheiros da Escola Politécnica da USP, Luis Okamoto e Luis Filipe Rossi, interessados em abrir uma startup de tecnologia. Com financiamento inicial do PIPE-Fapesp, eles refinam o desenho, escalam a produção e criam a Condor Instruments. A empresa começa atendendo laboratórios de sono, depois universidades e centros de pesquisa. Em poucos anos, passa a exportar entre 200 e 300 dispositivos por mês, para mais de 40 países.

A disputa pelo sono dos astronautas

No espaço, dormir bem é questão de segurança de voo. Na ISS, a cada 24 horas, os astronautas assistem a 16 amanheceres e entardeceres. Em cápsulas como a Orion, usada na campanha Artemis, o ambiente é ainda mais extremo: pouco espaço, isolamento prolongado, exposição à radiação e uma rotina submetida a agendas rígidas de experimentos e manobras. A tendência é a privação de sono crônica, que compromete reflexos, atenção e tomada de decisão.

Pedrazzoli resume o dilema: o cérebro humano se orienta pelo ciclo claro-escuro gerado pela rotação da Terra. É essa alternância que sinaliza a hora de dormir e acordar. Quando a luz deixa de obedecer a esse ritmo, o relógio interno se desregula. A cronobiologia, área que estuda esses ritmos, nasce justamente de pesquisas financiadas pela Nasa, interessada em saber como o corpo reage fora do planeta.

Para tentar compensar o caos de luz, a ISS já usa sistemas de iluminação por LED programados para imitar o amanhecer e o anoitecer terrestres. Ainda assim, a agência espacial acumula relatos de fadiga, cochilos involuntários e erros operacionais associados à falta de descanso. O actígrafo brasileiro entra nesse cenário como um sensor-chave do projeto Archer, a frente de pesquisa da Nasa para acompanhar saúde, prontidão e bem-estar da tripulação da Artemis.

O dispositivo da Condor vence a disputa com concorrentes internacionais por oferecer um pacote completo de monitoramento. Além dos movimentos e da temperatura, mede a chamada luz melanópica, radiação na faixa azul-ciano, em torno de 490 nanômetros. Esse tipo de luz ativa células especiais da retina que não formam imagens, mas falam diretamente com o centro de regulação do sono no cérebro. Quando a exposição é intensa, a melatonina, hormônio que induz o sono, é inibida. O recado interno é simples: ainda é dia, permaneça alerta.

A mesma lógica vale para o uso de celulares à noite. As telas emitem justamente nesse comprimento de onda e empurram para frente o horário de dormir. No espaço, onde não há janela confiável para saber se é manhã ou madrugada, entender quanta luz melanópica atinge o astronauta em cada momento ajuda a ajustar horários de cochilo, turnos de trabalho e períodos de maior concentração de tarefas críticas.

O actígrafo também traz um botão de eventos. A tripulação o aciona de forma sincronizada em momentos específicos da missão. Em 6 de abril, quando a Orion atinge 406.777 quilômetros de distância da Terra, o ponto mais distante já alcançado por humanos, o clique registra um marco fisiológico e operacional. Depois, os pesquisadores conseguem cruzar esse registro com testes de coordenação motora, questionários de humor e desempenho em tarefas, antes e depois do voo.

Da soberania tecnológica ao próximo pouso lunar

A Nasa começa a testar o dispositivo da Condor em 2023, com uma compra inicial modesta para as áreas de ciência e engenharia. A startup participa de reuniões técnicas, envia lotes para calibração, responde a exigências de segurança e confiabilidade típicas da indústria aeroespacial. Sinais de que o aparelho pode voar na Artemis 2 aparecem no fim de 2025, mas a confirmação formal chega apenas no dia do lançamento. A equipe brasileira só tem certeza de que a tecnologia está a bordo quando vê a cápsula decolar.

Os dados coletados em órbita alimentam um objetivo maior: redesenhar espaçonaves para missões de longa duração, incluindo viagens ao polo sul da Lua, previstas para 2028, e futuras incursões rumo a Marte. A Nasa informa que vai comparar os registros do actígrafo com baterias de testes cognitivos e avaliações de saúde aplicadas antes e depois do voo. A meta é definir limites seguros de jornada, parâmetros de iluminação interna e protocolos de descanso para que astronautas consigam permanecer produtivos e saudáveis mais longe da Terra.

Fora do espaço, o caminho aberto pela Condor reforça um movimento de soberania tecnológica. Para Rodolfo Azevedo, coordenador de Tecnologias e Parcerias de Inovação da Fapesp, a presença do actígrafo na Artemis 2 simboliza o que o PIPE se propõe a fazer: transformar pesquisa de laboratório em produto competitivo no mundo. Ele lembra que o dinheiro público entra justamente na fase de maior risco, quando o capital privado ainda hesita em apostar em ideias inéditas.

A empresa hoje aplica a mesma tecnologia em temas bem terrenos. O actígrafo está em estudos sobre a epidemia de miopia em países asiáticos, em protocolos de recuperação de bebês prematuros em UTIs neonatais e em pesquisas de sono em populações expostas a trabalho noturno e telas brilhantes. Em todos esses casos, o princípio é o mesmo: medir com precisão como luz, atividade e temperatura reprogramam, dia após dia, o relógio interno.

Azevedo vê na trajetória da Condor uma prova de que inovação disruptiva não se mede em trimestres. Entre os primeiros protótipos, apoiados há mais de uma década, e o anúncio de que uma tecnologia brasileira monitora astronautas no espaço profundo, há anos de refinamento silencioso. O desafio agora é sustentar essa curva, manter a parceria com a Nasa nas próximas etapas da campanha Artemis e garantir que novos projetos sigam o mesmo caminho, do laboratório ao espaço. A pergunta que fica é se o país terá fôlego político e financeiro para transformar mais protótipos discretos em ferramentas capazes de guiar humanos além da órbita da Terra.

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