Negociações EUA-Irã ignoram mísseis e aliados e ampliam risco no Golfo
Estados Unidos e Irã retomam nesta quinta-feira (26) as negociações nucleares, após Donald Trump rejeitar a última proposta de Teerã. As conversas voltam à mesa sem qualquer limite para mísseis balísticos iranianos nem exigência de redução do apoio a aliados armados no Oriente Médio.
Negociação reaberta, mas com temas sensíveis fora do texto
O novo esforço diplomático nasce capenga. Washington e Teerã voltam a falar depois de o presidente americano rechaçar, na quarta-feira (29), a oferta anterior do Irã, considerada “fora da realidade e injustificável” por autoridades iranianas. O impasse gira em torno do nível de enriquecimento de urânio, hoje acima de 60% em parte das instalações iranianas, e da capacidade de o país se aproximar rapidamente do patamar necessário para uso militar.
Enquanto a Casa Branca insiste em frear esse avanço, outro flanco da agenda permanece intocado. “Não estamos falando em limitar os mísseis balísticos… (ou) fazer o Irã reduzir seu apoio ou acabar com seus aliados na região”, afirma Firas Maksad, analista do Eurasia Group, consultoria política que acompanha de perto o dossiê. A declaração, dada no dia 30 de abril de 2026, cristaliza a moldura das conversas atuais: um acordo possível sobre o programa nuclear, mas sem mexer na arquitetura de poder que o Irã constrói há décadas no Oriente Médio.
Na entrevista ao programa “Connect the World”, da CNN, a âncora Becky Anderson reforça o recorte. Segundo ela, “essas questões vão ficar a cargo dos países da região do Golfo para lidar com elas”. Em outras palavras, Washington tenta separar o dossiê atômico da disputa por influência regional, enquanto aliados árabes e Israel seguem expostos ao alcance dos mísseis e das milícias apoiadas por Teerã.
O cálculo diplomático é pragmático. Ao isolar o tema nuclear, negociadores americanos esperam reduzir a complexidade da equação e destravar algum tipo de entendimento parcial. Teerã, por sua vez, exige concessões claras, como a suspensão de sanções financeiras e petrolíferas impostas desde a saída dos EUA do acordo de 2015, o JCPOA, há quase uma década. Só assim, avaliam autoridades iranianas, faria sentido rever o ritmo de enriquecimento de urânio e aceitar inspeções mais intrusivas da Agência Internacional de Energia Atômica.
Mísseis intocados e aliados armados mantêm pressão no Oriente Médio
O recorte estreito das conversas tem efeito imediato sobre a segurança na região do Golfo. Sem qualquer menção a mísseis balísticos, o Irã preserva um arsenal capaz de alcançar bases americanas, cidades no Golfo e o próprio território israelense. Testes anteriores indicam alcances que ultrapassam 1.000 quilômetros, o suficiente para redesenhar cálculos militares de Arábia Saudita, Emirados Árabes e outros vizinhos.
A ausência de compromissos também vale para aliados regionais de Teerã. Entre eles estão os rebeldes Houthi, no Iêmen, que já atacam embarcações no Mar Vermelho e lançam drones e mísseis contra a Arábia Saudita e Israel. Cada novo ciclo de ataques obriga marinhas ocidentais a reforçar patrulhas e seguros de transporte a subir, com impacto direto no custo de rotas que movimentam, por dia, milhões de barris de petróleo e bilhões de dólares em mercadorias.
Ao manter esse tabuleiro fora da mesa nuclear, a comunidade internacional aceita, na prática, uma negociação fatiada. Especialistas veem espaço para um acordo técnico que limite estoques de urânio enriquecido, estabeleça inspeções adicionais e crie prazos para a reversão de partes do programa iraniano. Nada disso, porém, impede que o país continue a operar como pivô militar de grupos armados do Líbano ao Iêmen, passando pelo Iraque e pela Síria.
O resultado é um paradoxo estratégico. Um eventual entendimento sobre o átomo pode reduzir o risco imediato de uma corrida nuclear regional, mas mantém vivos conflitos por procuração entre Irã e rivais. Quem ganha, nesse cenário, é Teerã, que preserva ferramentas de pressão sobre adversários sem abrir mão de negociações que podem aliviar sanções. Quem perde são governos do Golfo, que seguem arcando com orçamentos crescentes de defesa, e populações civis que vivem sob risco constante de novos ataques.
Próxima proposta de Teerã define rumo da crise
O próximo movimento está em Teerã. Espera-se que o governo iraniano apresente, nos próximos dias, uma proposta revisada capaz de recolocar a negociação nos trilhos. Interlocutores acreditam que um eventual gesto virá acompanhado de exigências concretas, como a liberação gradual de ativos iranianos congelados no exterior e cronogramas claros para o alívio de sanções sobre petróleo e bancos.
Em Washington, assessores de Trump trabalham com a hipótese de uma série de rodadas até o fim do ano, sem garantia de desfecho. Cada fracasso amplia o risco de escalada. Israel já sinaliza que não descarta ações unilaterais se concluir que o Irã cruza, de forma irreversível, o limiar tecnológico para produzir uma arma nuclear. Países do Golfo, por sua vez, intensificam conversas de bastidor sobre cooperação de defesa e compras de sistemas antimísseis de última geração.
A médio prazo, a escolha de manter mísseis e aliados fora do acordo pode cobrar seu preço. Sem um pacote mais amplo, que una limites atômicos e compromissos regionais, o equilíbrio de poder no Oriente Médio continua instável, sujeito a choques inesperados. As próximas semanas dirão se Washington e Teerã conseguem, ao menos, congelar a frente nuclear ou se o dossiê iraniano seguirá como uma das principais fontes de incerteza estratégica do planeta.
