Chefe do Parlamento do Irã ironiza plano de bloqueio dos EUA
O presidente do Parlamento do Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf, ironiza nesta quinta-feira (30) a ideia de um bloqueio total ao país. Em publicação nas redes sociais, ele usa comparações com muros hipotéticos nos Estados Unidos para afirmar que é inviável cercar as fronteiras iranianas.
Irã responde à pressão militar e diplomática
Ghalibaf reage às discussões em Washington e entre aliados sobre novas formas de estrangular o regime iraniano após a escalada do conflito no Oriente Médio. Desde 28 de fevereiro, Estados Unidos e Israel mantêm uma campanha militar contra o Irã, detonada pelo ataque que matou o então líder supremo Ali Khamenei em Teerã.
O parlamentar recorre ao X, antiga rede Twitter, para transformar números em provocação. “Se você construir dois muros, um de Nova York até a Costa Oeste e outro de Los Angeles até a Costa Leste, o comprimento total será de 7.755 km, o que ainda fica cerca de 1.000 km aquém das fronteiras totais do Irã”, escreve. Em seguida, conclui: “Boa sorte bloqueando um país com essas fronteiras”.
No mesmo texto, ele faz um comentário direto ao secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth. “P.S. Para Pete Hegseth: 1 km = 0,62 mi”, diz, em tom de deboche. A referência mira a audiência doméstica americana, acostumada à unidade de milhas, e reforça o caráter performático da mensagem.
A fala surge em meio a relatos de que o ex-presidente Donald Trump recebe do Pentágono opções atualizadas para lidar com o Irã, que vão de novas sanções econômicas a um bloqueio naval ampliado no Golfo Pérsico. O governo americano afirma ter destruído dezenas de navios iranianos, sistemas de defesa aérea, aviões e outras instalações militares desde o fim de fevereiro.
Guerra se espalha e pressiona fronteiras
A disputa já custa caro em vidas humanas. Segundo a Agência de Notícias de Ativistas de Direitos Humanos, com sede nos EUA, mais de 1.900 civis morrem no Irã desde o início da guerra. A Casa Branca reconhece ao menos 13 militares americanos mortos em ataques atribuídos a forças iranianas.
O confronto rompe as divisas iranianas e arrasta países vizinhos. O regime dos aiatolás lança mísseis e drones contra alvos em Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Catar, Bahrein, Kuwait, Jordânia, Iraque e Omã, alegando mirar apenas instalações ligadas a Estados Unidos e Israel. No Líbano, o Hezbollah, grupo armado apoiado por Teerã, dispara contra o território israelense em resposta à morte de Ali Khamenei. A retaliação de Israel, com bombardeios a posições que diz pertencerem ao Hezbollah, deixa mais de 2.500 mortos em solo libanês.
Nesse cenário, a fronteira deixa de ser apenas linha no mapa e vira fator estratégico central. O Irã soma mais de 8.700 km de limites terrestres com ao menos sete países, além de longa faixa costeira no Golfo Pérsico e no mar Cáspio. Para o comando em Teerã, esse traço geográfico vira argumento político: cercar o país por terra, mar e ar exigiria um esforço militar massivo, custoso e prolongado.
Enquanto militares dos EUA discutem a extensão de um bloqueio naval, Ghalibaf tenta inverter o foco. Ao comparar fronteiras com supostos “muros” cruzando os Estados Unidos, ele apresenta o bloqueio como fantasia impraticável, destinada mais a consumo interno americano do que à realidade do campo de batalha. A mensagem serve também para reforçar a narrativa de resistência adotada pelo novo líder supremo, Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei.
Mojtaba assume após a morte de parte importante da cúpula iraniana no ataque de fevereiro, escolhido por um conselho interno do regime. Analistas veem continuidade quase total em relação ao pai, com manutenção da repressão interna e da confrontação externa. Donald Trump já classifica a escolha como “grande erro” e diz que Mojtaba é “inaceitável” para comandar o país, em mais um sinal de que a relação tende a se agravar.
Impacto sobre bloqueios e sanções
O comentário de Ghalibaf mira a credibilidade das ferramentas tradicionais de pressão contra Teerã. Sanções econômicas severas e restrições ao comércio de petróleo se intensificam desde o início da guerra, mas o Irã explora brechas, rotas alternativas e apoio de parceiros como Rússia e China. Ao ironizar o bloqueio, o presidente do Parlamento tenta mostrar que qualquer cerco terá furos inevitáveis.
A declaração ecoa entre diplomatas e mercados, que avaliam a viabilidade de uma escalada marítima. Um bloqueio total à exportação de petróleo iraniano, que gira em torno de 1,5 milhão a 2 milhões de barris por dia em tempos de menor pressão, poderia empurrar para cima os preços globais de energia. Países importadores no Oriente Médio, na Ásia e até na Europa teriam de redesenhar rotas e contratos.
Para o Irã, a retórica desafiante funciona como amortecedor político interno. Num país em que mais de 1.900 civis morrem em dois meses de conflito, a mensagem de que o inimigo não consegue fechar o cerco ajuda a conter descontentamentos. Líderes militares e religiosos vendem a ideia de que o país suporta o peso das bombas sem se curvar.
Nos Estados Unidos e em Israel, a fala é lida como sinal de que Teerã não pretende recuar. Ela fortalece setores que defendem respostas mais duras, como novos ataques a alvos estratégicos e possível ampliação do bloqueio naval, tratado no próprio Irã como “extensão de ação militar”. Cada movimento nesse sentido amplia o risco de acidentes, erros de cálculo e choques diretos entre forças americanas, iranianas e de aliados regionais.
Próximos passos em um tabuleiro volátil
A disputa em torno das fronteiras do Irã entra agora em uma fase decisiva. Militares dos EUA, assessores de Trump e aliados próximos avaliam quanto estão dispostos a investir em um cerco prolongado e quão preparados estão para lidar com um contra-ataque assimétrico, que use milícias e ataques de mísseis em vários países ao mesmo tempo.
Teerã, por sua vez, aposta em uma combinação de ataques calibrados, pressão retórica e uso da geografia como arma política. Enquanto Ghalibaf ironiza “muros” imaginários e Mojtaba Khamenei consolida o poder, civis em Teerã, Beirute e nas cidades costeiras do Golfo tentam ler nos comunicados oficiais o que virá a seguir: um cessar-fogo negociado, um bloqueio ainda mais rígido ou uma guerra aberta em várias frentes. A resposta, mais do que o comprimento das fronteiras, deve definir o rumo do Oriente Médio nos próximos meses.
