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Congresso põe em xeque veto de Lula a projeto que reduz penas do STF

O Congresso Nacional inicia nesta quinta-feira (30) a análise do veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao chamado PL da Dosimetria, em sessão conjunta em Brasília. O texto abre caminho para a redução de penas aplicadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), com potencial impacto sobre condenações de grande repercussão, incluindo a do ex-presidente Jair Bolsonaro. A votação, prevista para se estender pela noite, opõe o Palácio do Planalto a uma base parlamentar fragmentada às vésperas do novo ciclo eleitoral municipal.

Disputa aberta entre Planalto, Congresso e STF

O veto presidencial é publicado no Diário Oficial no início de abril e desde então se torna o principal foco das negociações entre Executivo e Legislativo. O governo argumenta, em mensagem enviada ao Congresso, que o projeto interfere diretamente em decisões do STF e cria “risco de instabilidade jurídica” ao permitir a revisão em massa de sentenças já proferidas. Parlamentares da base aliada admitem reservadamente que o Planalto teme o desgaste público de ser associado à flexibilização de punições ligadas a corrupção e ataques à ordem democrática.

Na outra ponta, lideranças do centrão e da oposição tratam o PL da Dosimetria como uma correção de rumo. Deputados e senadores repetem, em conversas de bastidor, que o Supremo “extrapola” ao fixar penas que consideram desproporcionais em casos políticos. Um senador ligado à cúpula do Congresso resume o clima: “Não se trata de perdoar ninguém, mas de impedir que a Corte vire instância única em assuntos penais de alta carga política”. A frase circula em reuniões fechadas no anexo do Senado desde a semana passada.

O texto aprovado em março por ampla maioria na Câmara e no Senado estabelece parâmetros mais rígidos para a dosimetria de penas, isto é, para o cálculo final da condenação. O projeto limita a soma de delitos conexos, restringe o uso de agravantes genéricos, como liderança de organização criminosa, e reduz margens de aumento em frações que hoje chegam a dois terços. Técnicos do Legislativo calculam, em nota técnica interna, que algumas sentenças podem cair pela metade se a nova regra for aplicada de forma retroativa, como defendem advogados de condenados no STF.

Entre eles está o ex-presidente Jair Bolsonaro, alvo de ações na Corte por ataques ao sistema eleitoral e por suposto envolvimento em articulações golpistas após as eleições de 2022. Embora ainda não haja trânsito em julgado em todos os processos, aliados do ex-mandatário veem no projeto uma espécie de seguro político para o grupo mais próximo. Um deputado da oposição descreve, em conversa com a reportagem, o projeto como “a primeira oportunidade concreta de reequilibrar o jogo” desde os atos de 8 de janeiro de 2023.

Impacto direto em penas e no xadrez político

A análise do veto mobiliza bancadas inteiras. Lideranças calculam que mais de 350 dos 513 deputados e ao menos 60 dos 81 senadores participam ativamente das negociações. O número é superior ao quórum mínimo de 257 deputados e 41 senadores exigido para derrubar o veto. Aliados de Lula admitem que a contagem é apertada e que bastam cerca de 30 votos fora do script, somando as duas Casas, para impor uma derrota simbólica ao Planalto e ao STF. “Se o veto cair, a mensagem política é forte: o Congresso não aceita mais ser espectador das grandes decisões penais”, afirma um líder governista, sob reserva.

Para juristas próximos ao Supremo, o projeto pode desencadear uma revisão em efeito cascata. Ao menos 200 condenações em ações penais originárias e inquéritos ligados a corrupção, caixa dois e ataques às instituições entram no radar imediato de escritórios de advocacia em Brasília. Um ex-ministro de tribunal superior, ouvido pela reportagem, vê risco institucional: “Ao mexer na dosimetria de forma ampla e retroativa, o Congresso sinaliza que a cada onda política haverá um novo código penal informal”.

A discussão reacende memórias da Lava Jato, quando mudanças pontuais em leis penais e processuais, entre 2016 e 2019, já haviam reduzido a margem de atuação de procuradores e juízes. Na época, a reversão de prisões em segunda instância e a revisão de delações premiadas produziram quedas concretas de penas e solturas de condenados emblemáticos. Agora, a novidade está no foco: o alvo explícito são punições definidas pelo STF, que desde 2019 assume protagonismo em casos penais de alta repercussão envolvendo políticos com foro privilegiado e lideranças de movimentos extremistas.

O embate expõe ainda a fragilidade da base de Lula no terceiro mandato. Em pouco mais de um ano e meio de governo, o Planalto já cedeu em temas como o novo arcabouço fiscal, o marco do saneamento e a desoneração da folha de pagamento, sempre após pressão do Congresso. Uma derrota agora, em matéria diretamente ligada ao STF, tende a ser lida como novo sinal de que a articulação política não alcança 40% do Parlamento com fidelidade estável. “Quem ganha é o Congresso, que mostra força. Quem perde é a ideia de um Judiciário imune ao humor político”, resume um consultor legislativo.

O que está em jogo e os próximos passos

Se o veto for derrubado por maioria absoluta nas duas Casas, o texto original do PL da Dosimetria volta a valer integralmente. Advogados de condenados já preparam uma enxurrada de pedidos de revisão de pena, muitos deles dirigidos ao próprio STF. A Corte, por sua vez, pode ser chamada a definir se a nova regra alcança sentenças já transitadas em julgado, ou seja, decisões definitivas, o que abre uma frente de disputa jurídica que pode se arrastar por anos. A Procuradoria-Geral da República estuda acionar o Supremo para questionar a retroatividade caso o Congresso imponha derrota ao Planalto.

Em cenário alternativo, se o Congresso mantiver o veto de Lula, o governo tenta capitalizar a vitória como demonstração de autoridade em temas sensíveis da agenda institucional. A aposta palaciana é empacotar o resultado como defesa da “segurança jurídica” e da “independência do Judiciário”, expressões já presentes em notas oficiais recentes. Mesmo assim, a mera exposição do assunto, com foco em possíveis benefícios a condenados de alta visibilidade, como Bolsonaro e réus do 8 de Janeiro, tende a alimentar o discurso oposicionista de perseguição política e de favorecimento seletivo.

O desfecho da sessão desta quinta influencia o tom das próximas iniciativas legislativas voltadas ao Judiciário. Projetos que tratam de mandato fixo para ministros do STF, limites para decisões individuais e regras para investigações contra autoridades aguardam espaço na pauta. Presidentes da Câmara e do Senado, pressionados por suas bases, já sinalizam que a relação com a Corte entra numa nova fase, marcada por maior confrontação pública e tentativas de redefinir fronteiras entre os poderes.

A votação do veto ao PL da Dosimetria abre, assim, um capítulo decisivo da disputa institucional em Brasília. Em jogo não está apenas a duração de penas de políticos e aliados, mas o próprio alcance do Supremo na arbitragem de conflitos que definem rumos da República. A pergunta que paira ao fim do dia é simples e incômoda: quem estabelece o limite do STF, e com que custo para a estabilidade democrática do país?

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