Flávio e Tarcísio usam Agrishow para lançar eixo bolsonarista em 2026
A seis meses da eleição, Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas transformam a abertura da Agrishow 2026, nesta segunda-feira, 27, em vitrine de pré-campanha. Diante do setor do agronegócio em Ribeirão Preto, o senador é tratado como “próximo presidente” e o legado de Jair Bolsonaro volta ao centro do palanque da direita.
Bolsonarismo se organiza em torno do agro
O gramado da maior feira agrícola do País vira cenário político. Flávio, senador pelo PL do Rio, e Tarcísio, governador de São Paulo pelo Republicanos, fazem ali a primeira agenda conjunta desde o lançamento informal da pré-candidatura presidencial. O encontro sela, na prática, a estratégia de usar o agronegócio como eixo da reconstrução do campo bolsonarista em 2026.
Tarcísio não esconde a moldura em que pretende enquadrar a campanha. Ao lado do senador, afirma que mantém “vivo o legado do ex-presidente Jair Bolsonaro”, a quem credita sua projeção nacional. Lembra que, em 2022, entra na Agrishow montado a cavalo com o então presidente e diz que caminha agora pela mesma feira ao lado de quem, segundo ele, “herdou os valores” de Bolsonaro.
O governador trata Flávio como sucessor direto do ex-presidente diante de uma plateia de produtores e lideranças do setor. Chama o aliado de “próximo presidente do País” e fala em “exército” reunido em Ribeirão Preto, numa referência ao público que lota o pavilhão da abertura oficial. A Agrishow, que tradicionalmente mistura negócios bilionários e articulação política, se converte em palco simbólico da tentativa de reunificação da direita em torno de uma única candidatura nacional.
No discurso, Tarcísio explora o desgaste de parte do agro com o governo Lula. Aponta aumento de carga tributária a partir de abril e crédito “cada vez mais caro” como sinais de distanciamento entre Brasília e o campo. “O agro vem sendo, sim, maltratado, e a gente precisa ter orgulho. Não ter orgulho do agro é ter raiva do sucesso do agro”, afirma, ao elogiar a camisa usada por Flávio, estampada com a frase “orgulho do nosso agro”.
Críticas a Lula, disputa por centro e disputa por crédito
O roteiro preparado pelas campanhas se ancora na defesa da propriedade privada e na crítica frontal à esquerda. Tarcísio promete que, em São Paulo, não haverá “carnaval vermelho” e repete que o Estado “preza pelo direito de propriedade”. Ataca ações no Supremo Tribunal Federal contra a lei paulista de regularização fundiária e diz que partidos de esquerda questionam o texto “sem estudar o tema”.
O governador apresenta números para reforçar o discurso de eficiência. Afirma que a legislação estadual já regulariza cerca de 70% das propriedades rurais paulistas e que o governo está “acabando com a farra da invasão de terra em São Paulo”. O recado mira diretamente movimentos de ocupação de áreas produtivas e busca aproximar ainda mais o Palácio dos Bandeirantes dos grandes produtores e arrendatários.
Flávio Bolsonaro atua em outra frente, voltada à costura partidária. Diante do presidente nacional do MDB, Baleia Rossi, sentado na plateia, o senador afirma ter “certeza” de que o partido está “muito mais perto de cá do que de lá”, numa referência ao Palácio do Planalto. Cita o prefeito paulistano Ricardo Nunes e o vice-governador Felício Ramuth, ambos emedebistas, como exemplos de parceria com o campo conservador.
A fala ocorre enquanto o pré-candidato tenta aproximar siglas de centro, vista como decisivas para furar o teto do eleitorado bolsonarista. O MDB, porém, mantém a prática de liberar seus diretórios estaduais na disputa presidencial, o que torna mais complexo qualquer alinhamento formal. Flávio insiste que MDB e bolsonarismo “vão fazer muito pelo nosso País juntos”, mas evita mencionar abertamente um acordo nacional.
O evento também serve de vitrine para quadros da aliança em São Paulo. Além de Ramuth, aparecem o presidente da Assembleia Legislativa, André do Prado, que sonha disputar o Senado na chapa bolsonarista, e o deputado Guilherme Derrite, cotado para papéis de destaque em eventual governo federal. O líder da Frente Parlamentar da Agropecuária, Pedro Lupion, reforça o coro e aponta o governo Lula como responsável por um “momento difícil” do campo.
Lupion fala em “tempestade perfeita”, somando impacto de guerras e disputas geopolíticas a fatores internos, como insegurança jurídica e incerteza sobre acesso à terra e ao crédito. Ele afirma que menos de 20% do financiamento da última safra vem de recursos subsidiados pelo governo federal e que mais de 80% depende de instrumentos privados criados nas Leis do Agro 1 e 2, aprovadas durante a gestão Bolsonaro.
O deputado critica ainda a forma como o Planalto trata o seguro rural. Diz que, nas safras 2024/2025 e 2025/2026, o governo coloca “zero” em subvenção ao programa e acusa o uso de recursos do seguro para pagar emendas parlamentares em Mato Grosso, alvo de investigação no Tribunal de Contas da União. Também reclama de um corte de cerca de 60% no Proagro, voltado à agricultura familiar, o que, segundo ele, eleva o risco de pequenos produtores e pressiona o custo do crédito.
Disputa de narrativas e cálculo eleitoral para 2026
A ausência de Lula na abertura, já esperada pelo entorno presidencial, reforça o contraste explorado pelos aliados de Bolsonaro. A estratégia é clara: enquanto o Planalto tenta ampliar pontes com o agro por meio de crédito público e programas de compra de alimentos, a oposição ocupa o principal palco do setor e associa diretamente a piora das condições de financiamento ao atual governo.
Na prática, o gesto de Flávio e Tarcísio em Ribeirão Preto reorganiza o bolsonarismo em torno de dois centros de poder. Um, instalado no Senado, tenta costurar acordos com MDB e outros partidos de centro. Outro, no governo paulista, oferece uma vitrine de gestão pró-mercado, com promessas de segurança jurídica, regularização de terras e combate a invasões.
O movimento tem impacto imediato sobre a sucessão presidencial. Ao tratar Flávio como “próximo presidente” e reafirmar gratidão a Jair Bolsonaro, Tarcísio, que até 2024 era apontado como possível nome nacional, sinaliza disposição de permanecer em São Paulo e disputar a reeleição. A mensagem busca reduzir a dispersão de candidaturas no campo da direita e consolidar o senador como candidato único do grupo, ainda sob a influência direta do ex-presidente.
A incógnita, agora, está na reação dos demais atores. O MDB resiste a um alinhamento integral, governadores de centro observam o movimento e partidos da esquerda preparam discursos para rebater o diagnóstico de abandono do campo. No agro, entidades empresariais tentam equilibrar críticas ao Planalto com a necessidade de manter canais abertos com o governo, que continua responsável por políticas de seguro, garantias e parte relevante do crédito rural.
A Agrishow 2026 marca, assim, mais do que o início de uma feira de máquinas e tecnologia. O evento inaugura um ciclo em que cada anúncio de linha de crédito, cada disputa judicial por terra e cada gesto de Lula ou Bolsonaro em direção ao campo tende a ser lido como aceno eleitoral. O próximo passo, para todos os lados, será mostrar ao produtor qual projeto oferece mais previsibilidade num setor cada vez mais exposto a crises internas e choques internacionais.
