Ciencia e Tecnologia

Cientistas alertam para ameaça da poluição luminosa no Atacama

Astrônomos que trabalham no Deserto do Atacama, no Chile, soam o alerta neste 27 de abril de 2026: a poluição luminosa ameaça o céu mais famoso da astronomia mundial. A expansão urbana e novos projetos de energia alteram a escuridão que transformou a região em referência planetária para observar o Universo.

Céu que escurece menos a cada ano

No topo das montanhas secas do norte do Chile, onde a chuva mal passa de 2 milímetros por ano, o brilho do céu deixa de ser natural. Cúpulas de observatórios em Paranal, La Silla e Chajnantor registram, noite após noite, um halo alaranjado no horizonte, reflexo de cidades que crescem mais rápido do que a regulação consegue acompanhar.

Em Antofagasta, Calama e cidades menores ao redor, a população aumenta, novos bairros surgem e avenidas ganham iluminação intensa de LED. Nos últimos dez anos, o Chile mais do que dobra sua capacidade instalada de geração elétrica solar e eólica, com grandes complexos erguidos justamente no entorno do Atacama. Torres, subestações e bases operacionais permanecem acesas durante toda a noite, criando uma coroa luminosa que alcança até 200 quilômetros de distância.

O efeito chega aos telescópios. Instrumentos que medem o brilho do céu indicam aumento constante desde meados da década de 2010. “Em alguns sítios, o fundo do céu está até 20% mais claro do que há dez anos”, relata, sob condição de anonimato, um pesquisador ligado a um dos maiores consórcios internacionais na região. Essa diferença, invisível a olho nu para o turista ocasional, significa perda direta de sensibilidade para detectar objetos fracos.

O Atacama abriga projetos como o Very Large Telescope (VLT), o radiotelescópio ALMA e a construção do Extremely Large Telescope (ELT), com espelho de 39 metros de diâmetro, previsto para ter a primeira luz ainda nesta década. Juntos, esses equipamentos consomem investimentos de bilhões de dólares e concentram algumas das observações mais ambiciosas sobre galáxias distantes, buracos negros e a composição de exoplanetas.

Essa engrenagem depende de um recurso simples e raro: noites escuras, estáveis e previsíveis. A poluição luminosa quebra esse equilíbrio. A luz artificial espalhada pela atmosfera aumenta o fundo brilhante contra o qual os astrônomos tentam enxergar galáxias fracas e sinais sutis de planetas em torno de outras estrelas. O ruído visual cresce, enquanto o sinal de interesse permanece o mesmo.

Pesquisa ameaçada e turismo em risco

Perder escuridão no Atacama não é apenas uma questão estética. Observatórios planejam campanhas científicas com anos de antecedência, calculando quantas horas de céu limpo e escuro terão para cada projeto. Se o fundo do céu fica mais claro, muitos desses planejamentos deixam de fechar. Para obter a mesma qualidade de dados, equipes precisam de mais tempo de telescópio, que já é disputado no limite.

Um astrônomo brasileiro que participou de campanhas no Atacama resume a preocupação: “Quando o céu clareia, você perde as coisas mais frágeis. Deixa de ver as galáxias anãs, os objetos na borda do Sistema Solar, a assinatura fina na atmosfera de um exoplaneta”. Segundo ele, um aumento de 10% a 20% na luminosidade de fundo pode significar a perda de até um terço da profundidade planejada em certos levantamentos do céu.

Além dos grandes telescópios, a mudança afeta um setor que cresce de forma silenciosa na região: o turismo de céu escuro. Em San Pedro de Atacama e em povoados vizinhos, dezenas de pousadas, agências e guias dependem de um atrativo específico, a visão a olho nu da Via Láctea como um arco branco que corta o horizonte. Antes da pandemia, o Chile recebe, em média, mais de 4,5 milhões de turistas por ano, e parte desse fluxo é atraída diretamente pela promessa de ver um céu sem poluição luminosa.

Guia em San Pedro há mais de 15 anos, uma chilena relata que, em certas noites, a diferença é clara: “Quando comecei, desligávamos duas ou três lâmpadas do povoado e o resto era céu preto. Agora, mesmo com os postes apagados, o horizonte tem um brilho constante vindo das minas e das estradas”. No curto prazo, o visitante ainda se impressiona. No longo, a comparação com fotos e relatos antigos tende a evidenciar a perda de contraste.

Governos locais e operadores de energia conhecem o problema e, em alguns casos, adotam medidas pontuais. Há normas que limitam a potência e o tipo de luminária em áreas consideradas de proteção astronômica. Porém, astrônomos afirmam que a aplicação é irregular e que projetos recentes de energia e infraestrutura burlam o espírito das regras. Luz branca e mal direcionada continua a vazar para o céu em áreas sensíveis para observação.

Os impactos extrapolam a ciência e o turismo. Estudos internacionais apontam que a poluição luminosa altera o comportamento de animais noturnos, afeta rotas de aves migratórias e interfere em ciclos biológicos de plantas. Em um deserto de ecossistemas frágeis como o Atacama, essas mudanças podem se somar a pressões já conhecidas, como mineração intensiva e escassez de água.

Janela estreita para proteger o céu

A comunidade científica pressiona por uma estratégia mais agressiva de controle da poluição luminosa. Entidades ligadas aos observatórios defendem a adoção massiva de luminárias com feixe direcionado para baixo, luz mais amarela e desligamento automático em áreas sem circulação noturna. Medidas desse tipo, argumentam, reduzem em até 80% a luz desperdiçada para o céu, sem comprometer a segurança nas cidades.

O debate ganha urgência com o avanço de projetos de energia que somam, segundo estimativas do setor, vários gigawatts em novas instalações até 2030. Sem regras claras desde a fase de licenciamento, cientistas temem repetir no Atacama o cenário de outras regiões do mundo, em que observatórios históricos convivem com um halo permanente de luz, incapazes de alcançar a escuridão de décadas atrás.

Organizações internacionais lembram que o Chile assinou acordos de cooperação que preveem a proteção do céu noturno como patrimônio científico e cultural. Em paralelo, astrônomos testam técnicas digitais de correção, que removem parte do brilho artificial nos dados. Essas soluções, no entanto, têm limite. Quanto mais claro o céu, mais difícil distinguir o que é ruído do que é sinal real.

A disputa em torno da escuridão do Atacama se transforma, aos poucos, em símbolo de uma escolha mais ampla. De um lado, o impulso por crescimento rápido, com cidades mais iluminadas e parques de energia operando sem interrupção. De outro, a preservação de um dos poucos lugares do planeta onde ainda é possível olhar para o céu e enxergar, sem filtro, a estrutura da galáxia em que vivemos.

Entre técnicos, a avaliação é que a janela de ação é curta. As decisões tomadas nos próximos cinco a dez anos vão definir se o Atacama seguirá como capital mundial da astronomia ou se será lembrado como um privilégio perdido. Enquanto isso, a cada novo projeto que acende luzes na noite do deserto, o céu que fez a fama da região se torna um pouco menos escuro – e a pergunta que ecoa entre os telescópios é simples e incômoda: quanto de Universo estamos dispostos a deixar de ver?

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