PT se declara antissistema e tenta colar Bolsonaro à velha política
O PT passa a se apresentar como movimento “antissistema” e tenta enquadrar Jair Bolsonaro como símbolo da velha política, às vésperas de 2026. A mudança de discurso ganha força no Congresso do partido e mira a disputa pela narrativa sobre quem representa renovação no poder.
PT tenta se reposicionar após 3º mandato de Lula
O novo rótulo surge em um momento delicado para a legenda. Ao fim do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, o PT terá comandado o país por cerca de 17 anos e meio desde o ano 2000, somando os governos de Lula e Dilma Rousseff. O partido volta ao discurso de “contra o sistema” justamente quando precisa responder à crítica de que se tornou parte do próprio establishment que dizia combater.
Dirigentes admitem, nos bastidores, que o desgaste acumulado por sucessivos anos no poder, os escândalos de corrupção e a crise econômica de 2014 a 2016 ainda pesam na percepção do eleitor. A aposta agora é inverter o jogo. A cúpula petista tenta associar Bolsonaro, que governou o país de 2019 a 2022, ao que chama de “velha política” e de “aliança com o centrão”, numa referência ao bloco de siglas que domina o Congresso há pelo menos três décadas.
Em discursos no Congresso do PT, dirigentes repetem que o partido “incomoda o sistema financeiro”, “enfrenta privilégios históricos” e “não governa para meia dúzia”. O tom busca recriar a identidade de oposição, mesmo com Lula no Planalto desde 1º de janeiro de 2023. Um integrante da Executiva resume o raciocínio: “Estar no governo não significa estar do lado do sistema. O sistema é quem lucra com a desigualdade e com os privilégios”. A fala expressa a tentativa de separar governo, que administra, de sistema, que seria a estrutura econômica e política que resiste a mudanças.
Bolsonaro vira alvo central da narrativa
Bolsonaro entra nessa equação como antagonista preferencial. Mesmo inelegível até pelo menos 2030, depois de decisões do Tribunal Superior Eleitoral, o ex-presidente mantém influência sobre cerca de um terço do eleitorado, segundo pesquisas divulgadas ao longo de 2025. O PT enxerga nesse núcleo duro um obstáculo para consolidar uma coalizão majoritária em 2026 e decide fazer dele o rosto da “velha política” que diz combater.
A estratégia passa por recontar os quatro anos de governo bolsonarista sob outra luz. Em vez de reforçar apenas a pauta ideológica, dirigentes petistas destacam as negociações de Bolsonaro com o centrão, a entrega do orçamento a caciques do Congresso e a ocupação de cargos por partidos tradicionais. “Quem prometeu romper com tudo terminou mais refém do sistema do que qualquer outro”, repete um deputado governista em conversas reservadas, em referência às emendas de relator que movimentaram dezenas de bilhões de reais até 2022.
O movimento também tenta capturar o voto de eleitores que se dizem cansados da polarização e do conflito constante nas redes sociais. Ao colar em Bolsonaro o rótulo de “velha política”, o PT tenta esvaziar o apelo do discurso antissistema que ajudou a levar o ex-presidente ao Planalto em 2018. Naquela eleição, pesquisas indicavam que mais de 60% dos brasileiros declaravam rejeitar “os mesmos políticos de sempre”. Hoje, a direção petista tenta mostrar que a promessa de ruptura se converteu, na prática, em governo amparado por partidos que controlam o Congresso desde os anos 1990.
Contradições e riscos de um discurso de ruptura
A aposta, porém, carrega contradições. Ao se reivindicar antissistema, o PT precisa explicar como concilia esse papel com o comando de um orçamento federal que ultrapassa R$ 2 trilhões por ano e com indicações para milhares de cargos públicos. A legenda também volta a ser cobrada por episódios como o mensalão, revelado em 2005, e a Lava Jato, que levou à prisão Lula em 2018 antes da anulação das condenações pelo Supremo Tribunal Federal.
Analistas políticos ouvidos em eventos acadêmicos recentes apontam que o partido tenta atualizar o discurso de 2002, quando Lula se elege com a promessa de mudar sem romper. Duas décadas depois, o desafio é outro. Em vez de inspirar confiança nos mercados, o objetivo é reconectar-se a um eleitorado mais jovem, que tinha menos de 10 anos em 2010 e hoje vota pela primeira ou segunda vez. Esse grupo cresce em um ambiente dominado por redes sociais, em que narrativas de “contra tudo isso que está aí” se espalham em minutos.
Ao chamar Bolsonaro de velho sistema, o PT também arrisca fortalecer o campo bolsonarista, que deve reagir. Líderes de oposição já exploram o fato de que, ao fim de 2026, Lula terá governado 12 anos ao todo e o PT terá ocupado o Planalto por quase duas décadas. O argumento adversário é direto: quem governa por tanto tempo não pode se dizer antissistema. Esse embate semântico deve dominar debates, programas de TV e disputas no TSE durante a preparação para as urnas.
Impacto na disputa eleitoral e no debate público
A mudança de discurso influencia diretamente a montagem de alianças para 2026. Governadores, prefeitos e partidos de centro observam com cautela. Uma retórica muito agressiva contra o “sistema” pode afastar legendas que historicamente compõem maiorias no Congresso. Ao mesmo tempo, o PT sabe que precisa ampliar sua base social para além dos cerca de 48% que Lula obtém no segundo turno de 2022, quando derrota Bolsonaro por diferença de 2,1 milhões de votos.
Nas redes, a disputa por hashtags e cortes de vídeo se intensifica. Dirigentes petistas testam slogans que resgatem a ideia de movimento social e não apenas de sigla institucionalizada. Do outro lado, aliados de Bolsonaro repetem que o PT seria o “maior símbolo de sistema” por controlar estatais, bancos públicos e fundos bilionários. O risco é que o debate sobre quem é mais ou menos sistema empurre para o lado a discussão sobre inflação, emprego, serviços públicos e violência, temas que costumam pesar mais na decisão de voto.
Próximos passos e a disputa pela narrativa
O Congresso do PT funciona como laboratório dessa nova fase. Resoluções internas devem consolidar a expressão “antissistema” em documentos oficiais, discursos de pré-campanha e materiais de propaganda. A expectativa é que, até o fim de 2025, o partido teste essa linguagem em eleições municipais suplementares e em caravanas pelo interior, medindo a resposta em pesquisas qualitativas e monitorando engajamento digital.
Bolsonaro, por sua vez, tende a reagir retomando o papel de perseguido pelo sistema, agora identificado por ele com o Judiciário, a imprensa tradicional e o próprio PT. A sobreposição de narrativas antissistema de lados opostos deixa uma pergunta no ar para 2026: quem o eleitor vai enxergar como parte do problema e quem ainda consegue se apresentar como solução em um país que soma mais de 200 milhões de habitantes, crescimento econômico baixo e uma democracia sob pressão contínua.
